10 atuações marcantes de um MVP da NBA: Stephen Curry em 2016

Luís Araújo

Em 2016, a NBA viu um jogador sendo eleito MVP da temporada de maneira unânime. Na verdade, o feito de Stephen Curry naquele ano é tão raro que só aconteceu outras duas vezes nas outras grandes ligas profissionais norte-americanas: em 2010 com Tom Brady (NFL) e em 1982 com Wayne Gretzky (NHL).

Sabemos bem que essa história não terminou muito bem para Curry e para o Golden State Warriors. Depois de ter estabelecido o recorde de 73 vitórias na temporada regular e passar por todo mundo na Conferência Oeste, o time de Oakland acabou perdendo o título para o Cleveland Cavaliers na final.

Foi um revés traumático, especialmente porque o Warriors acabou se tornando o primeiro time em toda a história da NBA a perder o título depois de abrir 3 a 1 nas finais. Mas isso não apaga a história construída por Curry no caminho para seu segundo troféu de MVP — ele já tinha sido eleito também no ano anterior. Vale a pena então relembrar dez atuações inesquecíveis que ele teve nessa trajetória.

“Ele é assim mesmo”

Golden State Warriors 111 x 95 New Orleans Pelicans
Quando: 27 de outubro de 2015
Desempenho de Curry: 40 pontos (14/26 nos arremessos, 5/12 nas bolas de três), sete assistências, seis rebotes e dois roubos de bola

Foi a estreia do Warriors na temporada um aperitivo e tanto do que estava por vir com relação a Curry. O começo de jogo não poderia ser mais agressivo do armador, que acertou sete dos seus nove arremessos — quatro deles de longa distância — e marcou 24 pontos só no primeiro quarto. O jogo foi o décimo da carreira dele com pelo menos 40 pontos. Outros 12 viriam pela frente ao longo da campanha.

“Em alguns dos chutes que Steph deu e que entraram, não importa quem estava marcando. Ele é assim mesmo”, disse Alvin Gentry, que fazia sua primeira partida como técnico do Pelicans depois de fazer parte do título do Warriors na temporada anterior como auxiliar.

Curry 28 x 26 Pelicans

New Orleans Pelicans 120 x 134 Golden State Warriors
Quando: 31 de outubro de 2015
Desempenho de Curry: 53 pontos (17/27 nos arremessos, 8/14 nas bolas de três), nove assistências, quatro rebotes e quatro roubos de bola

De novo o Pelicans. Os 53 pontos representaram a melhor marca dele na temporada. Faltou bem pouco para quebrar o recorde da carreira, que é de 54 pontos — registrado contra o New York Knicks, no Madison Square Garden, em fevereiro de 2013. Essa performance passou por um desempenho surreal no terceiro quarto, quando anotou 28 pontos, dois a mais do que o adversário fez no período. Foi isso o que levou uma partida equilibrada até então passar a ser controlada pelo Warriors.

O curioso é que um dos chutes de três de Curry foi dado por cima de Anthony Davis e entrou. Ele próprio admitiu que foi “um arremesso estúpido que acabou entrando”. Mal as pessoas sabiam ali que esse tipo de coisa viraria comum ao longo da temporada. O armador cansou de chutar em situações que seriam condenáveis para qualquer outro jogador. Mas não para ele, que passou a desafiar a lógica nestes casos simplesmente por ser bom demais nisso.

Corrida de 25 a 8

Los Angeles Clippers 117 x 124 Golden State Warriors
Quando: 19 de novembro de 2015
Desempenho de Curry: 40 pontos (11/22 nos arremessos, 6/14 nas bolas de três), 11 rebotes, quatro assistências e três roubos de bola

Depois de ganhar as primeiras 12 partidas da temporada, o Warriors viu a invencibilidade ficar seriamente neste embate com o Clippers quando chegou ao intervalo perdendo por 23 pontos. Mas essa diferença foi diminuindo no terceiro quarto e sumiu de vez no último, quando Curry e companhia acertaram 11 dos 15 arremessos que tentaram e poderiam ter tido vida ainda mais fácil se não houvessem cometido cinco desperdícios de posse de bola. A virada foi sacramentada com uma corrida de 25 pontos a oito na reta final do confronto.

“A partir do momento que passamos a encaixar bons ataques, conseguimos conter o ímpeto ofensivo deles porque pudemos montar a nossa defesa de maneira correta e dificultar as coisas para eles”, analisou Curry, cestinha da partida com os 40 pontos que fez. “Daí, pudemos acertar alguns chutes decisivos para passarmos à frente”, completou.

O primeiro triplo-duplo

Golden State Warriors 122 x 103 Sacramento Kings
Quando: 28 de dezembro de 2015
Desempenho de Curry: 23 pontos (7/16 nos arremessos, 6/13 nas bolas de três), 14 rebotes, dez assistências e dois roubos de bola

Foi o primeiro triplo-duplo dele na temporada e o sexto da carreira. Mas o brilho demorou um pouco para aparecer. Curry teve um começo de jogo apagado. Estava zerado até o momento em que o relógio apontava pouco menos de três minutos e meio para o intervalo. Foi quando ele se envolveu em um duelo de tiros de três pontos espetacular com Omri Casspi, pegou fogo e deu um jeito de anotar 17 pontos ainda antes do fim da primeira metade.

“Sabemos que ele vai encontrar o ritmo ao longo do jogo”, disse Seth Curry, irmão mais novo de Stephen que atua no Kings e que o encarou naquela oportunidade. “Nós tentamos evitar isso, mas é duro. A partida estava tão rápida naquele momento, e é em situação assim que ele joga da sua melhor maneira”, completou.

“Dois arremessos divertidos”

Golden State Warriors 122 x 110 Indiana Pacers
Quando: 22 de janeiro de 2016
Desempenho de Curry: 39 pontos (11/19 nos arremessos, 8/15 nas bolas de três), 12 assistências e dez rebotes

Foi o jogo que marcou o retorno de Steve Kerr para o banco de reservas e que terminou com o segundo dos dois triplos-duplos de Curry na temporada. Em meio a tantos lances brilhantes ao longo da partida, que faziam o placar ficar folgado toda vez que o Pacers ameaçava se aproximar, dois chamaram a atenção.

Um foi no fim primeiro quarto, quando ele acertou uma bola de trás do meio da quadra. Mas não valeu, pois o cronômetro tinha estourado pouco antes. A outra ocorreu no período seguinte e valeu: mesmo com a mão de Solomon Hill próxima a seu rosto, Curry conseguiu converter o chute que deu da linha central na última jogada antes do intervalo.

“Dois arremessos divertidos”, disse Curry após a partida. “Eu não fazia algo assim desde a partida contra o Memphis Grizzlies [pelos playoffs] no ano passado. O engraçado é que a primeira bola entrou e não valeu, mas me deixou confiante para tentar novamente no período seguinte porque sabia que um outro arremesso do tipo já tinha entrado. Precisei de um pouco de ajuda da tabela, mas entrou.”

“Ele não errava”

Washington Wizards 121 x 134 Golden State Warriors
Quando: 3 de fevereiro de 2016
Desempenho de Curry: 51 pontos (19/28 nos arremessos, 11/15 nas bolas de três), sete rebotes, três roubos de bola e duas assistências

A exibição de Curry no primeiro tempo de jogo foi surreal. É bem provável que ele jamais tenha jogado tão bem assim na carreira durante os dois primeiros quartos. Quando o intervalo da partida chegou, o armador já tinha 36 pontos, depois de acertar 13 dos 14 arremessos que tentou. No fim das contas, colocou-se ao lado de Gilbert Arenas e Michael Jordan como recordista de pontos da história do Verizon Center.

“Foi como aquele jogo em que o Kobe marcou 81 pontos”, comparou John Wall, referindo-se obviamente a Curry. “Ele não errava. Você continua defendendo da melhor maneira possível. Desafiamos alguns chutes dele. Não permitimos tantos arremessos livres assim. Mas ele simplesmente acertou tudo”, completou.

“Simples demais para ele”

Orlando Magic 114 x 130 Golden State Warriors
Quando: 25 de fevereiro de 2016
Desempenho de Curry: 51 pontos (20/27 nos arremessos, 10/15 nas bolas de três), oito assistências e sete rebotes

Foi quando Curry atingiu 128 partidas consecutivas acertando pelo menos um arremesso de três pontos, quebrando um recorde histórico da NBA. “Eu não sei se isso é tão significante assim porque é algo simples demais para ele”, analisou Steve Kerr. “O chute de três dele é como uma bola de dois. É algo que ele faz com naturalidade.”

Ao todo, foram dez tiros certeiros de longe. Um deles do meio da quadra, nos segundos finais do terceiro quarto — período no qual ele somou 24 dos seus 51 pontos. “Esse tipo de coisa não é segredo para ninguém, ele apenas fez com a gente o que tem feito com todo mundo”, declarou Victor Oladipo após o duelo.

A bola do meio da rua

Oklahoma City Thunder 118 x 124 Golden State Warriors
Quando: 27 de fevereiro de 2016
Desempenho de Curry: 46 pontos (14/24 nos arremessos, 12/16 nas bolas de três), seis assistências, três rebotes e dois roubos de bola

Existe uma maneira muito simples de se lembrar deste jogo: foi aquele em que Curry decidiu no estouro do cronômetro da prorrogação com uma bola de praticamente do meio da quadra.

Os números todos que ele apresentou foram impressionantes, bem como o aproveitamento de 75% nas bolas de longa distância — que impressiona ainda mais pelo volume de chutes ter sido tão alto. Mas nada disso é tão incrível quanto a maneira que o armador encontrou de definir o duelo, tão única que dificulta bastante a tomada de decisão do adversário responsável por tentar marcá-lo nesta situação. Quando que Andre Roberson, defensor mais próximo ali, poderia imaginar que voltar correndo para proteger a linha de três naquela transição seria uma escolha comprometedora para a sua equipe?

“Honestamente, eu não sei exatamente a qual distância eu estou do aro quando arremesso, então não é que eu fico calibrando o chute na minha cabeça. O que tenho é uma noção. Já arremessei assim algumas vezes. Eu penso que estou atravessando a quadra e que desejo chutar antes de a defesa se armar. Foi o meu único pensamento naquela situação”, relatou Curry, provando que aqueles tiros que dá do meio da quadra antes do início dos jogos não é exibicionismo, e sim parte do desenvolvimento de uma arma extremamente poderosa.

“Ele tomou conta da partida”

San Antonio Spurs 86 x 92 Golden State Warriors
Quando: 10 de abril de 2016
Desempenho de Curry: 37 pontos (13/22 nos arremessos, 4/9 nas bolas de três), cinco assistências, cinco rebotes e dois roubos de bola

Marcar 37 pontos e acertar 59% dos arremessos contra a defesa mais eficiente da temporada são feitos dignos de elogios. Mas o importante mesmo nessa história toda é o resultado que essa ótima atuação acabou gerando: a primeira — e única — derrota do Spurs em San Antonio durante a fase de classificação. Também vale lembrar que o Warriors não ganhava lá desde fevereiro de 1997, o que só ajuda a reforçar que não foi, definitivamente, uma vitória qualquer.

Ao contrário do que poderia acontecer em um embate na reta final de temporada regular, o Spurs entrou em quadra sem poupar esforços, disposto a usar tudo o que tem de melhor e tratando o encontro como se fosse Jogo 7 de uma série de playoffs. Por isso a frustração foi evidente após o confronto, especialmente por não conseguir encontrar uma fórmula de conter a produção de Curry, que usou a pressão que encontrou na linha de três para buscar espaços para a infiltração e somar pontos perto da cesta mesmo. “Ele tomou conta da partida, nós não fomos capazes de manter corpos na frente dele para neutralizá-lo”, reconheceu David West.

A 73ª vitória

Golden State Warriors 125 x 104 Memphis Grizzlies
Quando: 13 de abril de 2016
Desempenho de Curry: 46 pontos (15/24 nos arremessos, 10/19 nas bolas de três), seis assistências, quatro rebotes e dois roubos de bola

Foi o último jogo da temporada regular, no qual o Warriors atingiu 73 vitórias e quebrou o recorde que pertencia ao Chicago Bulls de 1996. Curry teve números expressivos e foi, claro, o principal destaque individual da partida. Não é todo dia que se faz 46 pontos convertendo 62,5% dos arremessos. Mas o que mais impressiona é que toda essa produção aconteceu em menos de 30 minutos de ação. Como as coisas já estavam definidas, ele nem entrou em quadra no último período.

Também vale a pena lembrar que os dez acertos neste jogo fizeram Curry encerrar a temporada regular com 402 bolas de três convertidas — recorde na história da liga, de longe. Seis destes tiros certeiros de longa distância aconteceram no primeiro quarto. “Eu busquei isso no início porque já tinha acertado duas vezes. Deixei as coisas virem até mim e me diverti com isso”, declarou o armador.

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