10 coisas para se observar na nova temporada do NBB

Luís Araújo

Defesa do título de Bauru

Depois de ficar duas vezes com o vice, Bauru enfim alcançou o título inédito após vencer o Paulistano em sua terceira decisão consecutiva. O time continua forte, com peças de qualidade à disposição, mas é bem diferente daquele que se sagrou campeão há alguns meses. Dos oito jogadores que tiveram média superior a dez minutos de ação por jogo nos playoffs da temporada passada, só Alex, Shilton e Jaú permaneceram. Jefferson e Léo Meindl foram para Franca, Gui Deodato fechou com o Vasco, Gegê assinou com o Minas e Valtinho está sem clube.

Por outro lado, já nos dias seguintes à conquista do NBB, Bauru anunciou a contratação do armador Kendall Anthony, que foi o cestinha da última temporada com o uniforme do Macaé. Uma outra grande novidade atende pelo nome de Rafael Hettsheimeir, pivô que retorna depois de ter saído da equipe no meio do campeonato anterior. Também chegaram para tentar compensar as baixas todas do elenco o ala-pivô Renan, o ala Isaac e o ala-armador Duda Machado.

São diferenças consideráveis, principalmente na armação. Anthony tem características bem distintas em relação a Gegê e Valtinho. O ótimo NBB que fez por Macaé passou muito pela qualidade com a bola nas mãos para explorar o “pick and roll” e atacar a cesta. A combinação de agilidade e habilidade o permite infiltrar com facilidade e causar desequilíbrio nas defesas. Mesmo o norte-americano tendo a possibilidade de castigar também no chute de três, ele é o tipo de jogador que não faz sentido querer que jogue completamente sem bola.

Alex até vai continuar sendo o condutor em alguns ataques, fazendo com que Anthony corra por bloqueios para criar separação em relação aos seus marcadores. Mas o rodízio desta tarefa será bem menor em relação à temporada passada.

De resto, Renan pode até vir a ter volume ofensivo menor do que Jefferson, mas também é capaz de abrir a quadra com chutes de longe — ou simplesmente com a ameaça deles. Isaac tem uma ótima defesa para nível interno e sabe o que fazer quando recebe a bola, Duda Machado ainda desperta preocupação nos adversários como arremessador e pode funcionar como armador de fato de uma segunda unidade, levando a bola para o ataque. Isso sem falar em Rafael Hettsheimeir, que é jogador de seleção brasileira e sobra por aqui de uma infinidade de maneiras, e também no retorno de Gui Santos, armador que perdeu a temporada passada por lesão no joelho, mas que antes disso vinha dando pinta de que estava pronto para receber minutos na rotação de um time competitivo.

Não dá para falar que falte qualidade à disposição do técnico Demétrius Ferracciú. Mas pode levar um tempo para se encontrar o encaixe destas peças todas e até para construir uma identidade coletiva diferente em relação ao time que foi campeão da última temporada. Um dos fatores mais importantes para aquela conquista, aliás, foi o sucesso do sistema defensivo. Algo que pode até não aparecer logo de cara em um elenco tão cheio de novidades, mas que não é difícil imaginar acontecendo de novo.

Como o Flamengo vai reagir

Foram quatro conquistas consecutivas e a sensação de que não sairia tão cedo do topo do basquete nacional. Até o Pinheiros emplacar três vitórias consecutivas nas quartas de final dos playoffs, depois de perder os dois primeiros jogos da série, e colocar um ponto final neste reinado do Flamengo. A eliminação e a consequente perda do título, além da impossibilidade de disputar a Liga das Américas na época por causa da suspensão que a CBB levou da Fiba, fizeram com que a temporada passada tivesse um gosto amargo para o clube.

As novidades adicionadas ao elenco desde então animam. Arthur Pecos foi um dos responsáveis pelo vice do Paulistano na temporada passada, David Cubillan tem tudo para ser um dos melhores estrangeiros no país e MJ Rhett também já deu alguns sinais de que tem condições de causar impacto por aqui. Dá para se imaginar uma resposta muito boa do Flamengo depois de uma campanha que representou a queda mais precoce do clube na história do NBB, mas também é fato que o nível dos rivais hoje é consideravelmente maior em relação a anos anteriores.

De qualquer maneira, dá para se esperar um time muito interessante de se ver jogando, com um nível alto de qualidade para os padrões internos e uma rotação profunda. Além disso tudo, existe uma outra história que faz essa temporada do Flamengo ter um apelo ainda maior: será a última de Marcelinho Machado. Como será a despedida de um dos maiores ídolos do clube?

A competitividade do Vasco

Depois que Brasília fechou as portas após o final da última temporada, os três principais jogadores daquele time fecharam com o Vasco: Guilherme Giovannoni, Fúlvio e Lucas Mariano. Dá para facilmente colocar esses três bem acima da média do basquete nacional no que diz respeito a talento individual. O clube carioca também fez barulho no mercado com as contratações dos alas-armadores Gui Deodato e Gustavo, do ala Dedé e dos alas-pivôs Renato Carbonari e Chris Hayes.

Nem é preciso pensar muito para se chegar à conclusão de que se trata de um time muito mais forte do que na temporada passada, capaz de fazer uma campanha bem melhor na primeira fase e de chegar além das oitavas de final. Mas o que o Vasco espera mesmo não é simplesmente ir mais longe, e sim brigar de fato pelo título.

É aí que moram as grandes dúvidas em torno deste elenco. Dedé Barbosa conseguirá resolver divisão do controle da bola entre as peças de perímetro que tem à disposição? E implementará um sistema defensivo capaz de resistir nas vezes em que Fúlvio e Lucas Mariano forem envolvidos no “pick and roll? Talvez passem principalmente por essas duas dúvidas as reais chances de o Vasco se colocar no topo do basquete nacional.

Os clássicos cariocas

Dentro de quadra, Flamengo e Vasco parecem alguns degraus acima do Botafogo, que acabou de subir da Liga Ouro e não tem um grande investimento para essa primeira temporada no NBB, pelo menos não no mesmo nível que os rivais. É um time, portanto, deverá entrar em quadra como franco atirador quando tiver de encarar os outros dois, que devem fazer duelos bem interessantes entre si. Pelo menos em tese.

E na prática? Será que o Botafogo não vai conseguir aprontar para cima dos dois rivais em pelo menos um dos quatro jogos que fará? E como serão os encontros entre Flamengo e Vasco? Na temporada passada, foi uma vitória para cada lado na fase de classificação, e o Pinheiros evitou que ambos se cruzassem nas quartas de final.

Novo e estrelado Franca 

A campanha na temporada passada foi tão boa quanto surpreendente na primeira fase, mas a eliminação para o Paulistano nas quartas de final, dentro do Pedrocão, deixou um gosto amargo. Nos meses seguintes a isso, o que se viu foi um investimento alto em peças para elevar o nível do elenco e colocá-lo em condição de sonhar mais alto no NBB. Duas destas contratações de peso foram o ala Léo Meindl e o ala-pivô Jefferson, que se apresentaram logo depois de terem sido campeões com Bauru. Além deles, chegaram o pivô Rafael Mineiro e o ala-pivô Luís Gruber.

Isso tudo aconteceu sem prejudicar a boa base montada por Helinho na temporada passada. Dos jogadores usados por mais de 20 minutos por partida nos playoffs, só Isaac saiu. Du Sommer é uma outra baixa que talvez poderia ser sentida, mas que fatalmente teria espaço reduzido na rotação diante da chegada de tantas peças novas.

Há motivos de sobra para se animar com o potencial deste novo Franca. Léo Meindl se desenvolveu no tipo de jogador que faltou ao time na temporada passada, capaz de ficar com a bola nas mãos nos momentos complicados de partidas apertadas para criar cestas, mas que também funciona sem bola. Jefferson também causa um impacto ofensivo violento mesclando suas bolas de três com ações de costas para a cesta, perto do garrafão. Gruber é versátil e também pode ajudar a abrir a quadra, enquanto que Rafael Mineiro é tranquilamente um dos melhores defensores da sua posição no país.

São jogadores que formam uma combinação bem interessante ao lado de Alexey, Henrique Coelho, Pedro, Cipolini e Antonio — que parte da torcida francana ainda pega no pé pela inconsistência, mas que mostra um nível muito bom quando está em seus melhores dias, sem tomar decisões erradas. Isso tudo mostra que Helinho tem nas mãos um elenco cheio de possibilidades para encarar os adversários que cruzarem seu caminho.

Pode até ser que Franca não termine o campeonato com o título, mas pelo menos o inicia com a esperança de conquistá-lo. Algo que não acontecia havia um tempo e que tem sabor ainda mais especial para um time que correu o risco de fechar as portas em um passado não tão distante assim.

Os gringos recém-chegados

A estreia contra Bauru não foi nem um pouco animadora, mas Kyle Fuller deu fortes indícios durante a conquista do Paulistano no Campeonato Paulista de que pode ser protagonista no basquete brasileiro. O venezuelano David Cubillan é outro que tem tudo para entrar na turma dos melhores estrangeiros do NBB se realmente entregar o que o Flamengo esperava quando foi contratá-lo.

Paulistano e Flamengo também foram buscar, respectivamente, MJ Rhett e David Nesbitt, que também têm tudo para se mostrar peças muito importantes em times extremamente competitivos. Na esteira disso, vale a pena ficar de olho também na dupla Nicholas Okorie e Matthew Shaw, novidades do Vitória, e no pivô Cristopher Ware, que fará companhia aos também norte-americanos Desmond Holloway e Corderro Bennett no Pinheiros.

A lista de novos estrangeiros no NBB inclui ainda: Billy Rush e Evan Roquemore (Minas), Nathan Molony-Benjamin (Basquete Cearense), Cameron Tatum (Botafogo), Jamail Jones (Campo Mourão), Joseph Warren (Caxias do Sul), Deonta Stocks, Que Johnson (Joinville), Contrell Brite, Anton Cook e Kevin Crescenzi (Liga Sorocabana).

Esses últimos jogarão em times que não chegaram nas fases mais agudas da última edição e que, pelo menos neste início de temporada, parecem estar no mínimo um degrau abaixo das que podem ser consideradas mais fortes. Mas isso não quer dizer que eles não possam brilhar. Afinal de contas, antes de se juntar ao Bauru, Kendall Anthony foi o cestinha do NBB na temporada passada atuando pelo Macaé, que até se classificou para os playoffs com a última vaga disponível, mas que não durou muito e logo foi varrida.

Os passos seguintes de Yago

Em sua primeira temporada como profissional, ele conquistou espaço considerável na rotação do Paulistano e acabou sendo peça muito importante durante os playoffs, na caminhada que culminou no vice-campeonato do NBB. Neste segundo ano como profissional, já ajudou o time a conquistar o título paulista. Isso logo depois de roubar a cena no Adidas Nations, evento que reúne jovens promessas do mundo inteiro e que os coloca sob as análises de olheiros da NBA.

Será bem curioso acompanhar os próximos passos deste moleque de 18 anos — já elogiado por Aleksandar Petrovic, novo técnico da seleção brasileira. Principalmente se os chutes de longa distância se aperfeiçoarem, o que colocará ainda mais pulgas atrás da orelha dos seus marcadores na hora de reagir a um bloqueio.

Qual próximo jovem a explodir?

Além de Yago, Alexey e Jaú brilharam nas vezes em que foram acionados na temporada passada, fazendo parte das rotações de times realmente competitivos. Levou um tempo, mas o NBB finalmente viu mais jovens aparecendo com destaque e dando pinta de que podem mesmo se tornarem protagonistas do campeonato em um futuro não muito distante.

Mas será que isso o que aconteceu na última edição foi o começo de um processo importante para o basquete brasileiro ou não passou de um ponto fora da curva? Será que veremos outros jogadores novos conquistando espaço maior no campeonato?

A aposta na manutenção em Mogi das Cruzes

Algumas contratações pontuais para a rotação foram feitas. O pivô Gerson e o armador Elinho foram substituídos por Wesley Sena e Carioca. Outra novidade é Rafa Moreira, ala que estava em Macaé e deve ajudar nos minutos em que for acionado com bolas de longa distância. As mudanças não vão além disso. Apesar da campanha considerada frustrante na temporada passada, em que ficou fora da semifinal pela primeira vez em três anos, a base do time foi mantida.

Sinal de que a aposta para se alcançar o tão sonhado título nacional será, mais uma vez, em cima do modelo que tem Shamell, Larry Taylor e Tyrone como protagonistas. Resta a eles provarem que o tropeço do ano passado não passou de um acidente de percurso e que ainda podem manter Mogi das Cruzes entre as principais potências.

Maior equilíbrio da história? 

Já faz um tempo que esse tipo de expectativa é criada em torno do campeonato, mas parece que desta vez o negócio é para valer. A onda de surpresas nos playoffs da temporada passada, que não teve semifinal sem nem um dos quatro times de melhor campanha na fase de classificação, ajuda a reforçar essa sensação. Muita coisa pode rolar nos próximos meses. Mas neste início de temporada, não tem como colocar uma equipe muito acima das demais.

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