11 rápidas impressões sobre o Draft de 2018

Luís Araújo

O próximo passo do Suns

Luka Doncic é um fenômeno, todas as coisas que conquistou na Europa antes dos 20 anos são incríveis e chega a ser inacreditável que alguns times da NBA ainda não estejam totalmente apaixonados pelo esloveno. Dito isso, também não dá para classificar como um absurdo a opção do Phoenix Suns por DeAndre Ayton na primeira escolha do Draft. Longe disso. O pivô conta com um vasto arsenal ofensivo e tem as ferramentas físicas necessárias para um dia se transformar em um defensor de primeiro nível na NBA. Não é exagero dizer que ele tem toda a pinta de que pode ser “all-star” em algum ponto da carreira. Mais fácil ainda é imaginá-lo como um bom encaixe ao lado de Devin Booker. Então é compreensível que o nome de Ayton tenha sido chamado antes de todo mundo, mesmo.

Mas o Suns não parou por aí. Na 16ª escolha, a franquia pegou o ala Zhaire Smith. Só para trocá-lo minutos depois por Mikal Bridges, selecionado na décima posição pelo Philadelphia 76ers. Para fazer o negócio acontecer, foi preciso enviar também uma escolha não protegida de primeira rodada do Draft de 2021. O que é um ativo interessantíssimo e que, por consequência, só mostra o quanto o Suns está determinado a acelerar seu processo de reconstrução. Afinal de contas, Booker parece estar ficando cada vez mais perto de virar uma estrela e ainda não passou nem perto de disputar os playoffs. Então é bom pensar mesmo em mostrar logo para ele que as coisas estão caminhando.

Sobre Bridges, trata-se de um nomes considerados mais interessantes desta safra de calouros. De acordo com quem o observou de maneira mais atenta durante o período universitário, trata-se de um jovem de ótima defesa, capaz de preencher muitos espaços da quadra na hora de marcar, com bom desempenho nos arremessos em situação de “catch and shoot” e potencial para se consolidar também com a bola nas mãos na hora de criar as ações. Claro que não existe garantia alguma na NBA, mas em tese o Suns acertou a mão. Um perímetro com Bridges, Booker e Josh Jackson parece bastante promissor.


Doncic em Dallas

Que bom que alguém resolveu comprar a ideia em torno de Luka Doncic. E que bom que foi um time como o Mavericks, que tem um bom técnico, alguns bons jogadores para colocar em volta e um líder como Dirk Nowitzki. Se isso será o suficiente para resultar em briga por vaga nos playoffs do Oeste logo de cara, a gente não sabe. Mas certamente será um time bem interessante de se acompanhar no League Pass ao longo da temporada. Muito melhor esse cenário do que no Atlanta Hawks, onde Doncic encontraria uma equipe que aparenta ainda estar com algumas dúvidas sobre como conduzir sua reconstrução.

O preço para subir duas posições no Draft e fisgar Doncic não foi barato. Além de enviar a quinta escolha (Trae Young), o Mavericks ainda precisou abrir mão da escolha de primeira rodada do Draft de 2019 — protegida apenas para as cinco primeiras posições.

Mas tudo bem. O Mavericks está disposto a passar por isso justamente por ver em Doncic uma chance de contar com um jogador que não aparece toda hora por aí. Parece que alguém realmente o tratou como um fenômeno do basquete mundial. “Tivemos muita sorte. Nós conseguimos pegar um jogador que entendemos que será um pilar desta franquia”, disse o técnico Rick Carlisle.


As apostas do Hawks

Do outro lado desta questão em volta de Doncic, o Atlanta Hawks entendeu que tudo bem deixá-lo ir embora se isso significasse a chegada de Trae Young e algum outro calouro que possa sair a partir da escolha do Mavericks no ano que vem. É uma opção bem questionável, mas agora já foi. O negócio é saber como o principal cestinha universitário da última temporada vai se desenvolver na NBA.

A capacidade de acertar arremessos de muito longe e de ler bem as reações da marcação para infiltrar no garrafão são as grandes virtudes dele, tanto que o levaram até a ser envolvido em comparações com Stephen Curry. Mas o porte físico e a deficiência na defesa são fatores imensamente preocupantes. Quem também foi selecionado na primeira rodada foi Kevin Huerter, outro prospecto que chega à NBA com bom chute e defesa frágil.

As apostas do Hawks não se resumem apenas à adaptação destes dois na NBA e à ideia de que tudo bem ter deixado Doncic ir embora. Esses movimentos mostram também o quanto Dennis Schroder não faz mais parte dos planos. A vontade de mudar o comando das coisas dentro de quadra está clara. Resta saber que tipo de negócio a franquia vai conseguir descolar com o alemão.


O Kings vai se arrepender?

O Hawks só teve a chance de pegar Doncic e depois correr o risco de se arrepender ao negociá-lo porque o Sacramento Kings passou batido por ele. Pode ter até sido porque o esloveno, ao contrário de Marvin Bagley, não mandou os relatórios médicos e não se mostrou lá muito empolgado em defender o time californiano. O fato é que o escolhido na segunda posição foi um prospecto que não tinha muita pinta de ser o segundo maior talento desta safra.

Aliás, por mais que tenha uma capacidade atlética elogiada e demonstre instinto de pontuador, Bagley chega à NBA cercado de algumas dúvidas bem pertinentes. O chute instável e pouco confiável de fora do garrafão é uma delas. A dependência excessiva da mão esquerda para finalizar é outra. O comportamento na defesa é mais uma.

Pode ser que ele se desenvolva na peça central do ataque do Kings, responsável por tirar pontos da cartola em momentos complicados das partidas? Pode ser. Mas são muitas coisas que precisam dar certo demais para a franquia para que o sentimento de arrependimento não bata daqui a um tempo.


Bamba no Magic. E agora?

Não é exagero nenhum classificar Mo Bamba como uma aberração física. O pivô estabeleceu um novo recorde de envergadura do Draft Combine — série de testes físicos feitos anualmente com os calouros de cada ano antes do recrutamento — ao medir 2,39m. Além disso, ele percorreu uma distância equivalente a três quartos de uma quadra em apenas 3s04. Para se ter uma ideia do quão rápido foi isso, o tempo é inferior aos registrados por Russell Westbrook e John Wall, armadores que podem ser considerados símbolos de explosão na NBA nos dias de hoje.

Como se essa combinação atlética única já não fosse o bastante, Bamba tem dado sinais de desenvolvimento nos chutes de longa distância. Tudo isso o torna um prospecto interessante demais. O potencial intriga. É totalmente compreensível que o Magic tenha resolvido apostar nele. Mas é uma escolha que reforça algo que pode ser considerado uma urgência na franquia: se livrar dos outros pivôs do elenco.

Bismack Biyombo é um protetor de aro que muitas equipes gostariam de ter, mas tem um salário salgado e que deve durar por mais duas temporadas. Já Nikola Vucevic tem só mais um ano de contrato. Talvez possa ser negociado com um pouco mais de facilidade. Ou mesmo receber um “buyout”, que seja. O fato é que o calouro precisa ter espaço para jogar. A direção da franquia que dê um jeito de resolver isso.


O que o Clippers vai fazer?

Patrick Beverley, Lou Williams e Austin Rivers são armadores que terão minutos na rotação do Los Angeles Clippers na próxima temporada. Essa turma aí pode ficar ainda maior se Milos Teodosic permanecer na NBA. Ainda assim, a franquia transformou suas duas escolhas de loteria em Jerome Robinson e em Shai Gilgeous-Alexander. Mais dois armadores.

Para quem tinha duas escolhas, fazia sentido imaginar Michael Porter em uma delas. Mas o Clippers não topou correr riscos nenhum. Pegou dois jogadores que certamente já poderão entrar em quadra de imediato. Ambos com qualidades bem intrigantes. Gilgeous-Alexander é consideravelmente alto para a um armador, tem potencial para se consolidar como arremessador de longe e defende múltiplas posições. Já Robinson é um pontuador capaz de colocar a bola na cesta de diversas maneiras.

Mais ou menos como acontece com o Magic, a questão para o Clippers é entender o que fazer agora com um tanto jogadores de uma mesma posição no elenco.


Ao encontro da filosofia de Hoiberg

Outro time que teve duas escolhas de primeira rodada foi o Chicago Bulls: Wendell Carter Jr na sétima posição e Chandler Hutchison na 22ª. Ambos com um perfil que vai ao encontro do que o técnico Fred Hoiberg tem como filosofia desde os tempos em que ainda estava em Iowa State: movimentações e arremessos de longe buscando abrir espaços no ataque o tempo todo, ritmo acelerado de jogo e gente versátil em quadra.

Dentre aqueles que estavam ainda à disposição na sétima escolha, será que Carter era o mais promissor e com chances maiores de um dia virar estrela? Vai saber. Mas o homem de garrafão de Duke aparenta ter características que o tornarão um bom encaixe ao lado de Lauri Markkanen. O próprio Hoiberg falou sobre como imagina uma parceria entre os dois por vários anos e contou ainda que chegou a ligar para Mike Krzyzewski sobre diferentes formas de utilizá-lo nos dois lados da quadra.

“Fiquei muito impressionado com a habilidade dele em abrir a quadra com o arremesso de três. Ele teve mais de 41% de acerto nestes chutes na última temporada. Ele também é capaz de colocar a bola no chão e criar jogadas. Também vai nos ajudar muito na defesa. Trata-se de um excelente protetor de aro”, comentou Hoiberg.

A empolgação ao falar sobre Hutchison não foi muito menor, não. “O que mais me chama a atenção nele é a capacidade de pegar a bola no garrafão de defesa e atravessar a quadra para facilitar o ataque. Ele vai se encaixar muito bem com o que pretendemos fazer por aqui”, disse o treinador.


A incógnita em Cleveland

Dá para dizer que muita gente se surpreendeu com a escolha de Collin Sexton pelo Cleveland Cavaliers. E não foi difícil encontrar por aí torcedores que desaprovaram a decisão que a franquia tomou. De fato, existem algumas características dele que despertam preocupação. A principal delas é a tendência a atacar a cesta a qualquer custo de maneira ultra agressiva, sem olhar para os lados e considerar as opções de passe.

Isso é algo que precisaria evoluir em qualquer circunstância, mas que vira um problema ainda mais sério caso LeBron James decida permanecer em Cleveland. Neste caso, o calouro obviamente terá de desenvolver seu jogo sem a bola nas mãos. Por outro lado, existe ali um potencial para virar um ótimo defensor — coisa que essa equipe tanto precisa.

De qualquer maneira, pelo menos nestes primeiros momentos pós-Draft, é mais fácil imaginar Sexton como condutor de um novo Cavs sem LeBron do que ao lado dele. Ou então em um outro time qualquer, após ser usado como moeda de troca pela franquia em busca de algum outro jogador mais rodado e pronto para se ter ao lado de LeBron.


Caras novas no processo

Ao aceitar mandar Mikal Bridges para o Phoenix Suns, o 76ers recebeu uma escolha futura de primeira rodada. Um ativo interessante para o futuro, sem dúvida nenhuma. Mas também ganhou um jovem extremamente atlético, pronto para entrar na correria de Ben Simmons e companhia, além de entregar uma defesa bastante sólida — tanto no um contra um como, sobretudo, nas ajudas. Se ele conseguir transformar em confiável o seu chute de longe, então, melhor ainda. Será um complemento e tanto para um time que adora mesclar formações com os caras versáteis e ágeis do elenco.

Talvez Bridges tivesse sido uma escolha de encaixe mais fácil neste 76ers, mas dá para imaginar tranquilamente Smith sendo bem utilizado por Brett Brown ao longo da temporada. Assim como Landry Shamet, que se mostrou um ótimo arremessador enquanto universitário e que tem tudo para ajudar a abrir a quadra durante os minutos que receber.


A queda de Porter

Não dá para crucificar quem deixou Michael Porter Jr passar batido e continuar disponível até a 14ª escolha. Os times sabem que se trata de um jogador que vem de uma lesão complicada e devem ter até mais informações sobre o atual estado do ala. Há até quem diga que ele ficará fora de combate por toda a temporada 2018/19 da NBA.

Mas tudo bem, o Nuggets está disposto a esperar. “Seremos extremamente pacientes com ele. Vamos avaliá-lo com calma e por muito tempo tudo o que fizermos com ele. Ele só estava à disposição da gente porque há preocupações com relação às costas dele”, disse Tim Connelly, gerente-geral do Nuggets.

É normal que times ainda muito ruins e consideravelmente longe de brigarem por playoffs não tenham corrido o risco de apostar em Porter. O mesmo vale para o Cleveland Cavaliers, que precisaria que a oitava escolha fosse alguém pronto para jogar o mais rápido possível — seja para colocar ao lado de LeBron James, seja para comandar os novos tempos sem ele. Para o Nuggets, faz sentido pegar Porter, que tem potencial para virar estrela se as lesões se afastarem, e esperar para ver o que acontece. A equipe já é boa ao ponto de lutar por playoffs no Oeste e não precisa desesperadamente de um novato qualquer para compor a rotação de imediato. Tudo bem gastar uma 14ª escolha agora para ter a chance de ganhar bastante lá na frente.


A sorte do Celtics

Em que pese a falta de sorte pelas lesões de Kyrie Irving e Gordon Hayward, Danny Ainge teve um ano em que praticamente todas as suas decisões se mostraram grandes acertos. E para coroar a fase boa, Robert Williams sobrou para o Celtics no fim da primeira rodada. De acordo com Jonathan Givony, que faz parte da equipe de analistas da ESPN norte-americana e que pode ser considerado a pessoa mais capacitada a falar sobre prospectos no mundo, o pivô causou algumas desconfianças pelo comportamento fora de quadra, mas tem potencial para ser o maior “achado” deste Draft.

A habilidade dele não é lá essas coisas, mas os pontos fortes de Williams vão muito ao encontro das necessidades que o Celtics tinha na última temporada. Trata-se de um grandalhão de capacidade atlética fora da curva, de boa envergadura, capaz de levar perigo completando jogadas de “pick and roll” e de proteger o aro na defesa com seus tocos — ou mesmo com a simples ameaça deles. A marcação coletiva ainda é um problema, a disciplina neste sentido não é seu forte. Mas o Celtics tem mostrado nestes últimos meses que pode muito bem pegar esse tipo de jogador e transformá-los, pelo menos, em peças capazes de funcionarem dentro de um sistema defensivo.

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