A beleza da simplicidade

Luís Araújo

Não teve jogo de despedida, texto longo ou mesmo uma entrevista coletiva para anunciar a decisão. Tudo aconteceu longe dos holofotes, sem alarde, tanto que ninguém ouviu a voz dele ou leu uma declaração do próprio sobre o assunto. Foi um adeus com a cara de Tim Duncan.

Aliás, qual foi o último jogo da carreira dele? Tudo bem, a resposta não é difícil. Basta se lembrar que o San Antonio Spurs caiu na semifinal do Oeste na temporada passada após seis partidas. Também não é difícil lembrar que o Oklahoma City Thunder dominou todo o duelo e venceu sem dificuldade.

O que talvez demande um pouco mais de esforço da memória é o desempenho de Duncan naquela oportunidade. Foram 19 pontos, sete arremessos certos em 14 tentados e cinco rebotes em 34 minutos. Não foi uma produção de outro mundo, principalmente se comparada ao que ele fez em outros momentos durante a trajetória profissional, mas foi bem acima do que vinha sendo apresentado na série até então.

Mais importante ainda: foi nele que Gregg Popovich apostou durante o terceiro quarto, em um momento no qual o Thunder abriu 26 pontos de liderança. Foi com Duncan em quadra que o Spurs diminuiu bastante essa diferença no último período. Mas foi em cima dele que Serge Ibaka deu um toco crucial a cerca de três minutos do fim, em uma bola que faria a desvantagem cair para nove pontos e manteria o duelo aberto.

Na hora, a sensação de que aquele poderia ter sido o último arremesso da carreira de um dos jogadores mais talentosos do basquete em todos os tempos foi de partir o coração. A partida terminou sem que ele tivesse participado de nenhum outro lance ofensivo, o que só fez esse temor crescer. Tudo o que restou nestes últimos dois meses foi torcer para que houvesse uma nova temporada. Só para que tivéssemos a chance de testemunhar uma última impressão diferente.

Não tivemos. Mas não importa. Isso é bobagem. É o tipo de coisa que provavelmente não será tão lembrado assim mais para frente. E mesmo se for, não tem problema. Afinal de contas, o que aquela reta final de um jogo em que o Spurs foi completamente dominado (e no qual até Popovich parecia perdido) representa diante da história de Duncan, tão repleta de vitórias e momentos mágicos? Absolutamente nada.

Seria mais legal para ele se a despedido acontecesse após um título, como foi com David Robinson, seu primeiro grande parceiro dentro de quadra. Principalmente pela temporada regular tão boa que o Spurs fez, conquistando o recorde de vitórias da franquia. É o cenário dos sonhos para qualquer jogador, obviamente. Mas não deu. O Thunder acabou com essa possibilidade, sabemos bem.

Também seria especial de a última atuação fosse algo que certamente ficasse guardado para sempre nas nossas cabeças, como a de 60 pontos de Kobe Bryant. Mas isso só foi possível porque o ídolo do Los Angeles Lakers deu uma forçada de barra monstruosa, chutando praticamente tudo o que passou pelas mãos dele, e o jogo não valia nada para um time que já estava havia muito tempo eliminado. Nada disso teria muito a cara de Duncan, né?

Esse lance do último jogo em si é o de menos. O que talvez chame mais a atenção é a forma discreta com a qual ele decidiu se aposentar, justamente por ter casado perfeitamente com a postura que ele demonstrou ter durante esses 19 anos de NBA.

Em qualquer campo profissional, saber mostrar competência para os outros parece ser quase tão mais importante quanto ser competente de fato. É o tal do lance de “vender o próprio peixe”, coisa que muitos especialistas adoram classificar como essencial. Duncan foi na contramão disso tudo. “Ele só jogou”, como bem disse Popovich.

Ele só jogou, mas fez isso bem demais. “Nós sentíamos confiança nele”, disse Alex Garcia, ala que hoje joga em Bauru e que passou pelo Spurs na temporada 2003/04, em material produzido pelo ESPN.com.br. “Sabíamos que poderíamos dar a bola na mão dele. Eu joguei lá em uma época em que ele era mesmo o homem da decisão, da última bola. Para o adversário era complicado. Era um trabalho pesado para quem tinha de defendê-lo.”

Aquele foi o auge, mas o papel relevante dentro da equipe foi mantido até o fim. O melhor é que ele fez tudo isso de maneira própria. Pode até ser que isso tenha custado um certo reconhecimento a mais por parte dos fãs de NBA de maneira geral, que podem não vê-lo da mesma maneira que um outro craque que talvez tenha se vendido melhor. Mas e dai? Duncan não liga nem um pouco para isso.

Do mesmo jeito que um discurso pomposo para anunciar o fim da carreira e um jogo de despedida cheio de alarde não fariam o estilo dele, esse tipo de preocupação que vai além do basquete em si também não faria. A beleza desta trajetória esteve na simplicidade. Não há nada de errado disso, muito pelo contrário. Duncan mostrou que não é necessário mostrar espalhafato para ser genial, que dá para fazer a diferença e entrar na galeria dos imortais apenas fazendo as coisas certas, desde que a execução tangencie a perfeição. Sorte de quem viu.

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