A explosão de Aldridge e o jogo estranho de Harden

Luís Araújo

As coisas não eram nem um pouco animadoras para o San Antonio Spurs antes do sexto jogo da série contra o Houston Rockets. Além de já não contar com Tony Parker, o time teve de entrar em quadra desfalcado de Kawhi Leonard, que sentiu uma lesão no tornozelo e já havia ficado fora de toda a prorrogação do duelo anterior.

Sem a grande estrela da companhia, que comanda a maior parte das ações ofensivas e que também é a arma defensiva mais confiável para tentar conter James Harden, era de se imaginar que o Spurs tivesse muitos problemas para resistir a essa partida, certo? Ainda mais se fossem levadas em consideração as dificuldades que o sistema ofensivo encontrou para produzir na reta final do quinto jogo. Claro, a vitória apareceu, mas foi necessário que Patty Mills tirasse um coelho da cartola em um momento complicado do último quarto e que Danny Green virasse protagonista no tempo-extra, por exemplo.

Era perfeitamente compreensível que fossem levantadas questões sobre como esse ataque iria se virar por 48 minutos. Até por isso dava para entender com tranquilidade quem já imaginava a série voltando para San Antonio para um sétimo jogo. Mas não demorou muito para que todas essas sensações ficassem para trás. O Spurs assumiu o controle das ações desde o início e conquistou uma vitória por incríveis 39 pontos de diferença.

Um fator importante para ajudar a explicar o que aconteceu? A performance de LaMarcus Aldridge, que alcançou a melhor marca individual da temporada ao anotar 34 pontos e ainda pegou 12 rebotes — números que não eram registrados por um jogador do Spurs nos playoffs desde 2008, quando Tim Duncan os fez contra o Phoenix Suns, comandado na época justamente por Mike D’Antoni.

Ao contrário do que vinha acontecendo na série até então, principalmente em relação ao que se viu no duelo anterior, o Spurs mostrou desde o início que estava realmente disposto a castigar a formação repleta de gente mais baixa do Rockets, tirando o máximo de proveito possível da superioridade de tamanho dos seus atletas perto da cesta e arrastando Clint Capela para longe. Aldridge foi peça central deste processo, como mostra esse vídeo da primeira posse de bola da equipe no confronto, em que atacou Capela e reconheceu onde a dobra não apareceria para então finalizar.

A mesma coisa aconteceu no segundo ataque do Spurs. O interessante neste lance é observar como Patty Mills manda Jonathon Simmons cruzar a quadra antes de fazer o passe, para que Aldridge tivesse espaço para trabalhar diante de Capela.

“Eles fizeram uma ótima defesa sobre mim, tinham um plano muito bom neste sentido”, comentou Aldridge na entrevista coletiva que deu após o jogo. “Mas eu consegui tocar mais vezes na bola neste jogo, então tive a chance de descobrir o que fazer. Eu tentei ser um pouco mais dominante perto da cesta, estava disposto a tentar alguns arremessos marcados e consegui encontrar um bom ritmo. Depois disso, estava bem para seguir em frente.”

Essa postura de aceitar o desafio e dar mais chutes contestados fica clara no lance a seguir, em que correu para receber antes de Ryan Anderson e arremessou pulando para trás assim que foi acionado.

Aldridge acabou sendo o grande símbolo desta estratégia do Spurs de atacar constantemente o garrafão e explorar os “mismatches” na ausência de Kawhi Leonard, mas não foi um processo que ficou limitado exclusivamente ao trabalho dele. Pau Gasol também foi bastante acionado para tirar vantagem da sua estatura contra marcadores mais baixos e ajudou com rebotes ofensivos. Deu para ver ainda bloqueios sendo feitos para que Jonathon Simmons e Patty Mills infiltrassem, aproveitando o buraco que se abria nas vezes em que Capela e Anderson, principalmente, eram arrastados para longe da cesta para defender o “pick and roll”.

“Todo mundo contribuiu para essa vitória, foi realmente um esforço coletivo”, declarou o técnico Gregg Popovich. “Foram 32 assistências e só sete desperdícios. Eles jogaram bem no ataque, com muito bom senso, e defensivamente tivemos uma de nossas melhores apresentações.”

Foi mesmo uma ótima apresentação da defesa do Spurs, que fechou a série limitando o Rockets a 75 pontos. As rotações funcionaram quando foi necessário cobrir os espaços criados pelo ataque adversário, extremamente competente em se beneficiar destas situações. Também é justo dizer que Simmons fez mais um trabalho muito bom em cima de James Harden, a exemplo do que já tinha feito na partida anterior.

Mas não daria para deixar de apontar que Harden, por melhores que tenham sido algumas ações de Simmons, teve uma atuação muito estranha. Não só pelos números bem abaixo do normal e pelos erros todos, mas principalmente pela postura. Foi o que levou o comentarista e ex-treinador Jeff Van Gundy a falar o seguinte no intervalo da partida, durante a transmissão da ESPN norte-americana: “Algumas coisas que acontecem na NBA são inexplicáveis. O primeiro tempo dele é um exemplo disso.”

Harden passou todo o primeiro quarto sem tentar um único arremesso sequer. No intervalo, tinha dado só dois, menos do que qualquer outro jogador do Rockets que havia entrado em quadra até então. A falta de confiança chamava bastante a atenção, justamente por se tratar de um jogador acostumado a aproveitar o mínimo de espaço dado pelos marcadores para atacar. Um lance que ajuda a mostrar isso com um pouco mais de clareza aparece no vídeo abaixo, em que ficou completamente livre e, mesmo assim, tentou um passe para Eric Gordon, que não entendeu nada.

Não foram raras nos dois primeiros períodos as vezes em que Harden deu um passe para depois não ser mais acionado. Teve até posse de bola em que ele nem chegou a encostar na bola. No fim das contas, foram dez pontos e sete assistências, com apenas dois chutes certos em 11 arriscados. “Eu não consegui encontrar um ritmo para arremessar no início do jogo”, disse o camisa 13 sobre a ausência de finalizações durante o primeiro quarto.

“Tudo cai em cima dos meus ombros e eu assumo a responsabilidade pela eliminação nos dois lados da quadra. É duro, especialmente pela maneira como perdemos dentro de casa essa sexta partida. Mas aconteceu e temos de seguir em frente”, emendou.

Foi mesmo um jogo muito esquisito do Rockets e, sobretudo, de Harden. Ele jurou que estava bem ao ser questionado se tinha alguma coisa errada com ele e que as pessoas não sabiam. Mike D’Antoni chegou até a citar uma gripe, mas não entrou muito em detalhes.

Melhor para o Spurs, que segue em frente e começará a decidir a Conferência Oeste contra o Golden State Warriors já no domingo. “É o time mais perigoso da liga, com muitas armas. Você precisa estar preparado para encará-los de diversas formas”, comentou Pau Gasol.

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