A grande aposta de Ainge

Luís Araújo

Todas as ideias que começaram a se desenhar após a loteria do Draft sobre como o Boston Celtics usaria Markelle Fultz acabaram sendo um desperdício no fim das contas. A dias do recrutamento, Danny Ainge resolveu bater o martelo e enviar a primeira escolha para o Philadelphia 76ers, em troca da terceira escolha deste ano e uma outra futura de primeira rodada.

Essa outra escolha merece um parágrafo especial de explicação. Inicialmente, virá do Los Angeles Lakers e será usada em 2018. Mas isso só acontecerá mesmo se ela ficar entre a segunda e a quinta posições do Draft. Caso contrário, então o Celtics receberá em 2019 a escolha mais favorável entre uma própria do Sixers ou uma via Sacramento Kings. Neste caso, porém, existe uma exceção: se uma destas duas acabar ficando na primeira posição, então o Sixers é quem vai utilizá-la mesmo, deixando a outra para o Celtics.

Pelos lados do Sixers, é bem mais fácil tentar entender a motivação por trás da troca. Foi a ação que precisava ser feita para se colocar em posição de selecionar Fultz, apontado por muita gente como o melhor jogador desta safra de calouros e que inevitavelmente será a primeira escolha do Draft. Só teremos certeza mesmo das coisas daqui a uns anos, não tem jeito, mas o que pode ser dito hoje sobre o armador é que se trata de um jovem extremamente promissor, capaz de pontuar com facilidade, que sabe explorar o “pick and roll” para criar e que também pode atuar sem bola no ataque, além de ter potencial de se tornar um sólido defensor.

A característica de poder atuar sem bola é interessante demais para uma equipe que passará a contar também com Ben Simmons. Primeira escolha do Draft de 2016, o australiano sempre teve a visão de quadra e a habilidade em criar jogadas com a bola nas mãos como principais características e chegou a dar sinais fortes disso durante a Summer League, antes da fratura no pé que o tirou de combate de toda a temporada passada. O próprio Brett Brown chegou a declarar recentemente que pretende utilizá-lo por muitos momentos como um armador de fato do time. Fultz, portanto, não só tem — em tese — a capacidade de se adequar ao lado de Simmons quando esse tipo de coisa acontecer como também irá se sentir mais do que confortável nas vezes em que tiver de assumir a tarefa de construir as jogadas.

Para subir duas posições no Draft deste ano e poder garantir que Fultz se junte a Simmons, Joel Embiid e Dario Saric, o Sixers optou por ceder uma outra escolha futura de primeira rodada. Exagero? Talvez possa até parecer que sim em um primeiro momento, mas é um movimento compreensível. É a chance de acionar o jogador que o time tanto deseja, aquele que parece ser o melhor desta safra e ter potencial gigantesco para se tornar estrela da liga em um futuro não tão distante assim. Em que pesem as dúvidas médicas, os jovens que já estão no elenco animaram ao ponto de sugerirem que podem construir algo especial juntos. Chegou a hora, então, de a franquia ir atrás de quem realmente julga ser a melhor opção disponível para aumentar as chances de dar passos adiante, não simplesmente adicionar mais um bom valor. Era Fultz o desejo mesmo? Então é para poder selecioná-lo que o trabalho foi feito.

Mas e o Celtics? Se Fultz é tudo isso mesmo, por que Ainge decidiu fazer isso? Essa pergunta foi feita em uma entrevista coletiva da qual ele participou após o anúncio da negociação. A resposta: “Estamos estudando esses garotos por anos, sentimos há tempos que o nível de jogo deles é muito próximo e ainda temos essa mesma sensação. Acho que temos uma grande chance de selecionar na terceira posição o mesmo jogador que gostaríamos de pegar na primeira. Então acabou sendo uma grande oportunidade de adquirir um ativo de impacto.”

Ficou bem claro, portanto, que ele não acredita que Fultz está tão acima assim em relação a outros bons jovens desta safra. Pelo menos não a uma distância grande o suficiente para evitá-lo abrir mão desta primeira escolha para se contentar com a terceira e uma outra futura — que realmente tem ótimas condições de virar um ativo bem valioso. Ainge ainda adicionou o seguinte: “Temos dois caras em mente e um deles estará disponível. Não estamos 100% certos de qual decisão tomaremos ainda, mas estamos no processo de chegar lá.”

Apesar de todo o cuidado do mundo para não citar nomes, dá para desconfiar que Ainge tenha em mente os nomes de Josh Jackson e, em menor escala, Jayson Tatum. Ambos alas. O certo mesmo é que Fultz não irá para Boston. Fruto de uma decisão da qual ele jura não ter medo do que pode acontecer. “Tenho confiança em toda a nossa equipe de profissionais. Todos estudaram esses jovens e sentimos de maneira unânime que esse movimento é o correto neste momento. Eu confio neles. Se fosse nosso grupo estivesse dividido, talvez estaria mais hesitante. Mas fomos unânimes e estamos animados”, afirmou.

A única coisa que parece mais certa neste momento é que Isaiah Thomas parece mesmo ter sido um vencedor nesta história toda. Se Fultz fosse para Boston, havia quem defendesse a possibilidade de ele ser usado como moeda de troca antes de virar um agente livre, em 2018 — o que fatalmente o renderá um aumento salarial considerável. De resto, o que se tem são somente dúvidas. Será que Fultz vai se mostrar mesmo tão melhor assim que os demais calouros desta safra? Essa visão de Ainge e de toda a equipe de profissionais em Boston sobre o nível parelho destes jovens está correta? Esse negócio vai causar arrependimento um dia em um dos lados envolvidos? São perguntas que vão levar um tempo para encontrar respostas.

De qualquer maneira, não dá para desprezar um caminho interessante que pode ser percorrido pelo Celtics a partir desta troca: a de transformar essa primeira escolha em uma quantidade maior de ativos, como de fato ocorreu, para ter mais opções na hora de fazer uma proposta por algum jogador que já seja considerado uma estrela da NBA — seja Jimmy Butler, Paul George ou qualquer outro astro que Ainge e companhia sintam serem capazes de fisgar.

Não existe garantia alguma. O próprio Ainge afirmou que só fechará um negócio quando houver o sentimento de que é o movimento correto. Mas vai saber quando essa hora volta a aparecer em Boston, né? E existem cada vez mais ferramentas para viabilizar isso.

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