A seleção brasileira de Oscar e o Warriors dos dias de hoje

Luís Araújo

Além de ter sido um dos maiores nomes da história do basquete brasileiro, Oscar Schmidt é um ótimo personagem. Por falar tudo o que pensa e do jeito que vem à cabeça, costuma dar entrevistas interessantes. Não foi diferente na participação que teve no Bola da Vez, exibido pela ESPN Brasil.

Durante o bate-papo, ele lembrou da derrota por apenas cinco pontos para a União Soviética, nas quartas de final da Olimpíada de 1988, para dizer que a seleção brasileira poderia ter conquistado o ouro em Seul. Ele falou também que as instruções que os técnicos passam nas pranchetas não servem para nada. Pode-se concordar ou não, mas são declarações contundentes e que despertam a atenção de quem se dispõe a ouvir.

Entre tantas coisas ditas, tem uma em especial que merece ser trazida para a discussão por aqui. Tudo começou quando o assunto chegou no surgimento da linha de três pontos e na carta branca que ele e Marcel receberam de Ary Vidal para arremessar de longe.

“Imagina um cara fala para você ‘chuta aí à vontade’. A gente não fazia contra-ataque. A gente ia para o contra-ataque, parava de três, dava tempo de pegar o rebote e fazer a cesta se errasse. O jogo do Golden State Warriors hoje é exatamente o jeito que a jogava a seleção brasileira na minha geração com o Ary Vidal. Sem tirar nem botar nada. Se reparar no jogo do Golden State, eles não olham nem para o rebote”, comentou Oscar em determinado momento do bate-papo.

Olhando para a declaração inteira, e não só uma parte dela, e para o contexto em que ela se inseriu no meio da conversa, dá para entender que Oscar não foi deselegante nem tentou dizer algo na linha de “o Warriors não é tudo isso”. O que ele buscou, na verdade, foi encontrar uma semelhança óbvia entre as duas equipes: o foco nas bolas de três, aproveitando ao máximo o fato de ter peças perfeitas para esse tipo de abordagem.

O problema — se é que podemos chamar assim — é o “sem tirar nem botar nada”. Essa observação faz parecer que Oscar não só vê alguma semelhança como imagina que os dois times em questão funcionam exatamente da mesma forma.

Ele pode até achar isso, mas de outras maneiras, não simplesmente pelos número elevado de arremessos de três pontos. Até porque isso é só uma consequência de uma série de comportamentos e ações dentro de quadra. Há vários caminhos para se chegar a esse fim. O que nos leva a algo que é justo ter em mente: o Warriors não é só um time que chuta bastante de longe.

É claro que muitas vezes vemos um chute sendo dado assim que um espaço é criado, ainda que isso seja feito logo na chegada ao ataque. Um exemplo disso aparece no lance abaixo, em que Stephen Curry usou um bloqueio de James Michael McAdoo muito atrás da linha de três para chutar. Ainda assim, é interessante reparar que Willie Cauley-Stein também foi para além da linha de três ao defender esse bloqueio. É que Curry é bom demais para tentar chutes de tão longe assim — como era também o caso de Oscar.

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Um outro exemplo aparece no lance a seguir. De novo com Curry, mas desta vez sem bloqueio. Ele simplesmente cruza a quadra e chuta alguns passos depois. Isso pode parecer loucura, mas nem é tanto assim quando se tem um arremessador tão especial — como Oscar também foi, vale ressaltar de novo. Porque a bola cai, mas também porque acaba ampliando o campo de atuação da defesa, forçando o marcador a se preocupar em se aproximar já a partir da linha central. E quanto maior o campo de atuação da defesa, maiores os espaços para o ataque trabalhar.

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Dá para reparar isso na jogada abaixo. Draymond Green pegou o rebote e imediatamente acionou Curry em velocidade. Assim que o armador cruzou a quadra, Nicolas Batum se adiantou para tentar reduzir o espaço para um chute de longe, ao mesmo tempo em que se preocupou com uma possibilidade de sofrer bloqueio de Kevin Durant. Na hora em que deu o passo para frente para tentar atrapalhar Curry, Batum o viu bater bola para o lado, ficou preso no bloqueio de Durant e nada foi capaz de fazer para evitar a cesta do armador na infiltração.

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Vale a pena olhar mais uma vez para como esse ataque anterior começou: com um rebote, algo que está relacionado a uma outra característica marcante do Warriors e importantíssima para o sucesso da equipe nos últimos anos: a excelente defesa que é colocada em prática.

Considerando as temporadas em que foi comandado por Steve Kerr, que foi quando a equipe realmente chegou ao degrau mais alto da escala de forças da NBA, ela jamais ficou fora de cinco primeiras posições no ranking de eficiência defensiva. O que isso significa? Que os ataques adversários acumulam erros demais ao longo das partidas, e o Warriors sabe perfeitamente como se aproveitar deles.

As transições costumam ser mortais. No lance anterior, por exemplo, Batum teve que se preocupar com Curry ao mesmo tempo em que teve de optar por esquecer Durant. Isso porque Kemba Walker, que é quem deveria acompanhar o armador do Warriors, estava lá do outro lado da quadra na hora em que Green pegou o rebote e demorou para se aproximar, dando tempo o suficiente para que o estrago fosse causado.

É por isso que qualquer arremesso errado contra o Warriors pode custar caro demais. O time é mortal nestas horas, exigindo que as defesas em transição sejam praticamente perfeitas ou que os adversários simplesmente trabalhem para reduzir ao máximo esse tipo de coisa se quiserem ter chance de vitória.

Se um chute que não entra já pode prejudicar bastante, imagina então uma posse de bola desperdiçada com um passe errado, que termina nas mãos de algum jogador do Warriors? Aí o estrago tem tudo para ser enorme, especialmente pela capacidade de concluir esses contra-ataques em bolas de três, como aconteceu com Klay Thompson no lance abaixo.

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Thompson é um outro arremessador especial, sabemos bem disso. Faz sentido deixá-lo dar esse tipo de chute em contra-ataque assim, totalmente livre, porque a chance de sucesso é enorme. Mas o interessante aqui é notar o trabalho da defesa, que permitiu essa cesta fácil. Neste caso, a conclusão se deu com um tiro de três. Só que existem outras maneiras de somar pontos a partir destas oportunidades que são criadas a partir de erros dos oponentes, é claro — como mostra Andre Iguodala a seguir, que recebeu o passe depois do desarme de Shaun Livingston, fez a cesta e ainda tomou a falta.

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Mas é claro que o Warriors não depende só disso para pontuar. O ataque em situações de meia-quadra também é excelente, com armas que vão muito além dos chutes de Curry ou Thompson a partir de um bloqueio logo nos primeiros segundos de posse de bola.

Aí entra uma outra característica forte no DNA deste Warriors dos últimos anos e também indispensável para todas as coisas boas que vemos dentro de quadra: a movimentação incessante dos jogadores sem bola, fazendo com que diversas ações aconteçam ao mesmo tempo e que alguém sempre acabe aparecendo com espaço para receber o passe.

Para que isso tudo funcione, Draymond Green é importantíssimo, quase tanto quanto Curry e Thompson. Steve Kerr já tinha falado bastante sobre isso na primeira rodada dos playoffs de 2016, quando o Warriors eliminou o Houston Rockets sem poder contar com Curry, que se lesionou logo no primeiro duelo da série. O treinador comentou que a ausência do armador pesava porque reduz a margem de erro da equipe, mas observou o quanto muitas coisas boas poderiam continuar acontecendo e levar o time às vitórias graças a Green.

“Ele é um cara de quem precisamos de tudo: defesa, condução da bola ao ataque, boas tomadas de decisão, rebotes e, algumas vezes, também de chutes. Nos últimos jogos, ele fez as cestas de três que apareceram. Elas foram chave para o resultado no Jogo 4. Mas o principal número para mim é o de zero desperdícios de posse de bola. Ele é brilhante de muitas maneiras, mas nos ajuda demais quando não comete esses desperdícios. Quando toma decisões acertadas, nos torna muito mais difíceis de sermos batidos”, avaliou o treinador na época, logo após a vitória no Jogo 5 que carimbou a classificação para a fase seguinte.

Essa combinação entre o peso de Green e movimentação inteligente das demais peças em quadra pode ser vista no lance abaixo. Ele finalizou depois de um bloqueio para Durant que forçou Montrezl Harrell a abandoná-lo, já que Eric Gordon acabou se distanciando. Trevor Ariza até tentou atrapalhar, mas demorou para chegar porque teve de se preocupar com o corte de Curry pelo fundo da quadra.

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Um exemplo melhor para ilustrar a movimentação do Warriors e o que disse Kerr sobre os passes e as tomadas de decisão de Green é a jogada abaixo. Nela, o ala-pivô recebeu e observou Klay Thompson fazer um bloqueio pelas costas para Andre Iguodala cortar para a cesta. Como a defesa do Detroit Pistons decidiu não trocar a marcação, Iguodala entrou no garrafão sem ninguém à frente dele, recebeu a bola e fez a cesta.

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O lance a seguir foi quase igual. A única diferença é que a ajuda apareceu, já que Spencer Hawes correu para o garrafão a fim de tentar evitar a cesta fácil. Só que Iguodala leu rápido a ação e passou para James Michael McAdoo, que acabou sendo abandonado pelo pivô do Charlotte Hornets neste processo e não teve problemas para fazer os dois pontos.

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Green também é excelente agindo a partir do “pick and roll”, recebendo a bola depois do bloqueio e jogando por cima da cobertura para alguém completar. O lance abaixo mostra ele fazendo isso com Shaun Livingston, mas deu para vê-lo executando demais ações do tipo com os pivôs do elenco ao longo dos últimos anos.

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A movimentação eficiente e os bons passes podem ser vistos até em ações básicas. Como na jogada a seguir, que começou com um “pick and roll” de Curry e McAdoo. A defesa do Los Angeles Clippers resolveu dobrar no armador, ao passo que Blake Griffin largou Durant para fazer a cobertura no garrafão. Curry viu Durant livre e passou para o companheiro, que recebeu atrás da linha de três e imediatamente cortou Griffin, que teve de sair correndo para marcá-lo. DeAndre Jordan não teve outra alternativa a não ser aparecer na cobertura, mas acabou permitindo que McAdoo recebesse e fizesse a cesta.

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Isso tudo mostra o quanto é amplo o leque de possibilidades de somar pontos do Warriors. É evidente que os chutes de três aparecem demais e que existe um foco muito grande nisso, o que é completamente natural para um elenco que conta com dois dos melhores arremessadores do basquete em todos os tempos. Mas também está claro que existem muitas coisas por trás da construção destas finalizações. Olhar só para essas cestas de longe significa deixar de apreciar trocentas ações bem feitas que fazem esse time permanecer no elite da NBA.

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