A última vitória e o fim de uma hegemonia

Luís Araújo

O documentário “This Is What They Want”, da série 30 for 30 da ESPN norte-americana, tem como tema a improvável trajetória de Jimmy Connors no US Open de 1991. A história é irresistível: um atleta à beira dos 40 anos, de personalidade única e já bem longe do auge da carreira, que chocou o mundo ao alcançar a semifinal depois de ir derrotando adversários muito mais jovens e que eram considerados amplamente favoritos.

Essa surpreendente caminhada incluiu pelo menos viradas espetaculares, em jogos nos quais a eliminação de Connors parecia simplesmente uma questão de tempo. Por isso que, em um determinado momento do documentário, levantou-se uma sacada interessante sobre a beleza do tênis: por maior que seja a vantagem de um atleta sobre o outro em uma partida, é preciso que se conquiste o último ponto; não há como gastar o tempo no relógio, o competidor precisa ter cabeça e pernas para buscar aquele ponto final que de fato transforma a superioridade em vitória.

No basquete, as coisas são diferentes se olharmos para uma partida isolada. Existe cronômetro. São 48 minutos de disputa na NBA e 40 no resto do mundo. Às vezes a liderança no placar é grande demais, não dá tempo de mudar o resultado final. Mas essa reflexão sobre o que acontece no tênis cabe perfeitamente nos playoffs. Não dá para administrar uma liderança em uma série. Para passar de fase, é preciso reunir forças e ter capacidade de ajustes para superar o oponente e conquistar aquela última vitória que sacramenta a classificação.

Isso tudo nos leva a uma história que acaba de ser escrita e que já aparece como uma das mais espetaculares do NBB em todos os tempos. Pela quarta vez, o Pinheiros conseguiu virar uma série melhor de cinco depois de perder os dois primeiros jogos. Só que desta vez a virada foi em cima do Flamengo, que buscava o quinto título consecutivo da competição e que, por motivos óbvios, chegou para o confronto como favorito inquestionável, condição que só aumentou depois de abrir 2 a 0.

Não é todo dia que vemos o fim de uma hegemonia. A vitória do Pinheiros neste quinto jogo foi responsável por isso, mas o impacto vai além. Pela primeira vez na história do NBB, as semifinais não contarão com a presença do Flamengo. De quebra, já é certo que teremos um campeão inédito, pois Brasília também se despediu nas quartas de final.

Toda essa história premia um time que nunca desistiu, nem mesmo quando a coisa mais normal do mundo seria uma varrida do Flamengo. Conforme contou ao SporTV antes do quinto duelo da série, o técnico César Guidetti mandou uma mensagem bem clara para seus jogadores após as derrotas na duas primeiras partidas: “Nós precisamos fazer alguns ajustes, mas podemos ganhar deles.”

A frieza em situações delicadas quando já estava com as costas contra a parede parecia indicar que o grupo entendeu a mensagem. Era como se os jogadores não se abalassem como o monstro que estava diante deles, nem mesmo quando erros eram cometidos, e dissessem para si mesmos o tempo: “podemos ganhar deles”. E foi o que aconteceu. Três vezes seguidas. Duas delas no Rio de Janeiro, no mesmo Tijuca Tênis Clube em que o Flamengo se mostrou tão forte ao longo das quatro temporadas anteriores.

Independentemente do resultado da quinta partida, o Pinheiros já estaria de parabéns. Sobretudo Guidetti, que já tinha feito uma série de ajustes importantes na série contra o Vasco e que voltou a agir de maneira decisiva diante do Flamengo, mudando o quinteto inicial a partir do terceiro confronto, dando um pouco menos de espaço para a formação baixa que deu tão certo na fase anterior, controlando o ritmo para que o jogo não virasse uma correria e aplicando estratégias defensivas que se mostraram mais eficientes contra um sistema ofensivo tão poderoso, tão cheio de armas e que tinha sido o mais eficiente da fase de classificação do NBB.

Aí veio o quinto e decisivo duelo. Principal responsável pelo ataque do Pinheiros, Holloway errou 11 dos 13 arremessos que deu com a bola em jogo, mas conseguiu cavar faltas com suas infiltrações na marra, reconhecendo “mismatches”, e anotou 14 dos seus 18 pontos na linha do lance livre. Bennett, mais uma vez, foi um gigante na defesa, principalmente nas horas em que precisou frear contra-ataques, e também buscou infiltrar. Renan acertou bolas de três. Ansaloni aceitou os espaços que o adversário deu para os tiros de média distância e marcou dez pontos. Além disso, ele e Teichmann somaram 20 rebotes, alguns deles em momentos importantíssimos da reta final. E a defesa até permitiu cinco bolas de três de Olivinha, mas fez um bom trabalho em cima de Marcelinho e Marquinhos e conseguiu melhorar a marcação no “pick and roll” no decorrer do confronto.

Nos instantes finais, o que estava prestes a ser um arremesso completamente forçado e errado de Holloway no estouro do cronômetro de posse de bola virou uma assistência para Bennett. Depois, o Flamengo teve três arremessos de três pontos para empatar a partida e forçar a prorrogação. Quantos times não cruzaram com os campeões ao longo dos quatro anos anteriores e não foram castigados pelo mínimo espaço que deixaram para chutes do tipo? Quantos momentos não contribuíram para essa hegemonia simplesmente porque bolas que poderiam não terem entrado acabaram caindo?

Desta vez, porém, elas não caíram. Era mesmo o momento de um capítulo especial na história do basquete brasileiro se encerrar. Era, também, o jogo do Pinheiros. Um time que se recusou a desistir e que sabe, melhor do que qualquer outro no NBB, que uma série só acaba depois que alguém conquista a última vitória necessária para seguir em frente.

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