Anthony Davis no Lakers: uma troca cheia de riscos que precisava acontecer

Luís Araújo

Uma novela que vinha se arrastando já havia alguns meses enfim teve desfecho: de acordo com Adrian Wojnarowski, jornalista da ESPN dos EUA, o Los Angeles Lakers será mesmo o destino de Anthony Davis, que manifestara o desejo de deixar o New Orleans Pelicans ainda no final de janeiro. O outro lado da negociação envolve Brandon Ingram, Lonzo Ball, Josh Hart, a quarta escolha do Draft deste ano e algumas outras futuras.

Em um primeiro momento, até pareceu que saiu barato para o Lakers. Mas essa sensação foi desaparecendo na medida em que o imediatismo foi ficando para trás e que mais informações sobre essas escolhas futuras de Draft envolvidas foram aparecendo. Além da quarta escolha no recrutamento deste ano, o Pelicans receberá: 1) uma escolha de primeira rodada em 2021 protegida para as oito primeiras escolhas, que pode virar uma desprotegida em 2022; 2) o direito de trocar as escolhas de primeira rodada em 2023; 3) uma escolha sem proteção nenhuma na primeira rodada de 2024; 4) o direito de trocar as escolhas de primeira rodada em 2025.

Não parece mais tão pouca coisa assim, né? Por mais que o Lakers tenha conseguido manter Kyle Kuzma, algo que a franquia tinha como um objetivo importante neste momento, não dá para dizer que o Pelicans recebeu um pacote pequeno em troca pelo seu grande astro. Sobretudo diante da lembrança do contexto desta negociação: o desejo que Davis tinha de sair já não era mais segredo para ninguém, ele tem contrato só até 2020 e o Pelicans o perderia de qualquer maneira se esperasse até lá.

Exatamente por causa disso, não era uma situação lá muito confortável para David Griffin, novo general manager do Pelicans. Esses fatores em torno de Davis diminuem o poder de negociação, então é admirável que ele tenha conseguido sair disso com tantos ativos assim para ir construindo o elenco ao longo dos próximos anos. Tanto que chega até não parecer tão absurdo assim olhar para esse monte de escolha como o grande atrativo da negociação, mais do que Ingram e Lonzo.

O que não quer dizer que esses jovens vindos do Lakers não tenham valor. Pelo contrário. Ingram teve alguns lampejos de um jogador que pode ser classificado como especial ao longo dos últimos dois anos. Lonzo também teve seus momentos, e dá até para dizer que esteja perto de se consolidar como uma eficiente e versátil peça defensiva na liga. São jogadores que não dá para se descartar totalmente a possibilidade de virarem estrelas um dia. Com Josh Hart isso parece consideravelmente menos provável, mas é um jovem que, à sua maneira, já deu pinta de poder ser bastante útil.

Só que nada disso anula o fato de que há duvidas bem pertinentes em cima deles. Para início de conversa, tanto Ingram quanto Lonzo terminaram a temporada carregando questões médicas. A de Ingram parece ser mais séria. Ele foi diagnosticado com uma trombose venosa profunda no ombro direito, o que é considerado uma doença grave e que era visto sob muita preocupação pela chefia do Lakers. É uma situação que torna a incógnita em torno do ala ainda maior. Em uma análise mais otimista, mas não totalmente descabida, até dava para imaginá-lo se desenvolvendo ao ponto de se tornar um jogador especial. Capaz de usar a envergadura e habilidade enquanto passador para funcionar como um facilitador ofensivo, ainda que os arremessos mais distantes continuem sendo uma preocupação. Isso já apareceu em algumas vezes no Lakers, mas sempre deixando claro o quanto ele precisaria ter a bola nas mãos, o que parece ser uma condição não muito provável ao lado de Zion Williamson. E então? Como funcionaria isso neste novo time, ao lado deste novo colega? São dúvidas já bem consideráveis acerca do futuro de Ingram como jogador. A condição médica dele agora só deixa a incerteza ainda maior.

Essas mesmas dúvidas com relação ao encaixe do potencial ofensivo em um time que deverá ser comandado dentro de quadra por Williamson servem para Lonzo Ball. Ele até teve alguns flashes de demonstração sobre a capacidade de jogar sem a bola nas mãos. Já até enfileirou algumas atuações seguidas de bom rendimento em chutes de longa distância. Mas nada muito consistente. E aí? Como vai ser esse comportamento ofensivo dele daqui para frente? E será que o desempenho do outro lado da quadra poderá faze-lo ser considerado um dia um defensor de elite?

São questões demais, e é exatamente por isso que faz todo sentido do mundo para o Lakers aceitar envolver esses jovens em uma troca por uma grande estrela como Anthony Davis sem pensar duas vezes. Do jeito que o time estava e com a pretensão de querer colocar mais estrelas ao lado de LeBron para competir pelo título o mais rápido possível, Los Angeles não era mesmo o melhor lugar do mundo para eles — não do ponto de vista profissional, pelo menos. E por serem ainda incógnitas, com encaixe complicado ao redor de Williamson, fazia sentido o Pelicans pedir mais ativos neste pacote. Acabaram vindo cinco escolhas de primeira rodada. Algumas delas serão tão no futuro que poderão até mesmo acontecer depois que um eventual reinado do Lakers chegar ao fim.

Para o Lakers, foi uma grande vitória manter Kyle Kuzma, que de fato parecia o jovem mais pronto para integrar um elenco que será formado para competir imediatamente pelo título. Ainda que Ingram e Lonzo venham a explodir fora de Los Angeles, abrir mão deles parecia a coisa certa a se fazer em nome da possibilidade de se contar com um talento como Anthony Davis. Essa questão em volta da quantidade de escolhas e de quando algumas delas poderão ser usufruidas pode ser ser um risco? Podem, sim. Mas é importante também ter em mente que o Lakers simplesmente não podia apenas esperar até 2020, gastando mais um ano da carreira de LeBron James, para daí tentar buscar Davis como agente livre. Sem falar em como histórias recentes envolvendo Paul George e Kawhi Leonard ensinaram muita coisa para o resto da NBA sobre apostas em grandes jogadores entrando no último ano de contrato.

Por outro lado, o Pelicans terá esse monte de escolhas para o futuro, que podem oferecer um mar de possibilidades para negócios futuros. Mas existe uma diferença entre ter ativos e saber como utilizá-los da melhor maneira. E para um time de uma cidade de mercado pequeno que acaba de trocar a sua grande estrela, um sujeito de talento raro, é importante ter logo peças que sejam capazes de entrar em quadra e contribuir. Jogadores que possam dar a sensação de que algo realmente foi dado em contrapartida ao se abrir mão de um craque tão valioso e que, além disso, possam servir como construção de uma fundação sólida para uma nova estrela como Zion Williamson. Ou seja: Brandon Ingram e Lonzo Ball podem até não virar as versões de si mesmos que as projeções mais otimistas fazem, mas terão de mostrar algum valor dentro deste contexto para o Pelicans.

Muita reflexão sobre a negociação só vai acontecer daqui a um tempo, quando muitos fatores envolvidos nela estiverem mais claros. Está muito claro que há riscos para ambas as partes, o que levanta a possibilidade que um lado venha a se dar muito melhor do que o outro mais para frente. Ainda assim, são riscos extremamente justificáveis porque havia motivos de sobra para as duas franquias baterem o martelo e concluírem essa troca.

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