As decisões que aguardam Heat e Blazers após a queda nos playoffs

Luís Araújo

O Portland Trail Blazers foi o primeiro time a ser eliminado nos playoffs, após a varrida que levou do New Orleans Pelicans. O segundo foi o Miami Heat, que caiu em cinco jogos para o Philadelphia 76ers — pouco antes de o San Antonio Spurs também perder para o Golden State Warriors em cinco partidas. São duas equipes que se despedem da temporada em uma situação semelhante: consideravelmente distantes das principais forças de suas respectivas conferências e bem acima do teto salarial.

Heat teve gasto de US$ 133 milhões em salários nesta temporada. Foi a quarta folha mais cara da NBA, atras apenas de Cleveland Cavaliers (US$ 137,7 milhões), Golden State Warriors (US$ 137,6 milhões) e Oklahoma City Thunder (US$ 134,5 milhões). O Blazers até conseguiu fazer uma boa economia ao despachar Noah Vonleh para o Chicago Bulls, mas ainda assim terminou o campeonato com folha salarial de US$ 118,6 milhões — 11ª maior folha da liga e a apenas cerca de US$ 600 mil da “luxury tax”.

Estar tão acima do teto salarial já é uma situação complicada para times que estão ainda a alguns degraus de brigar mesmo pelo topo e que desejam chegar lá. O problema fica ainda maior quando se entra nesta “luxury tax” — explicada em detalhes neste texto sobre as regras salariais da NBA. Afinal de contas, quem é que gostaria de pagar multa para a liga por gastar demais tendo um time mediano? Nos casos de Warriors e Cavs, que estiveram na decisão nas últimas três temporadas, até dá para encarar esse desconforto em nome da possibilidade de ser campeão. Mas para quem não está nem perto disso, realmente não faz sentido.

Para a próxima temporada, o Blazers já tem US$ 111,3 milhões em salários garantidos — que se referem aos jogadores contrato com a equipe. Só que essa conta ainda não inclui, obviamente, quatro jogadores importantes da rotação do técnico Terry Stotts e que serão agentes livres a partir de julho: Ed Davis, Shabazz Napier, Pat Connaughton e Jusuf Nurkic. Será que a franquia vai optar por abrir mão dos quatro sem receber nada em troca? Seria um golpe duro.

Especialmente Nurkic, que em muitos momentos ao longo do último ano se apresentou como o terceiro melhor jogador da equipe. É uma peça com valor considerável demais para se deixar ir embora de graça. O pivô bósnio será agente livre restrito, o que dá ao Blazers o direito de cobrir qualquer ofereta que seja feita a ele. É até de se imaginar que isso venha mesmo a acontecer, ainda que isso deixe a folha salarial acima da “luxury tax”, que será de US$ 123 milhões para a próxima temporada.

Na verdade, qualquer decisão que seja tomada com relação a Nurkic faz sentido. Mantê-lo parece ser o caminho mais provável. Mas ainda que o Blazers decida deixá-lo ir embora para não entrar na “luxury tax” de jeito nenhum, a situação financeira continuaria engessada. Por estar muito acima do teto, as possibilidades de adicionar agentes livres ao elenco ficam bastante reduzidas. Restaria, então, tentar fazer trocas.

É aí que as coisas se tornam ainda mais complicadas. Evan Turner tem um dos piores contratos da NBA, que o rende cerca de US$ 17 milhões por ano. Seria complicado demais conseguir encaixá-lo em algum negócio que pudesse resultar em um alívio financeiro para o Blazers. Meyers Leonard (que ganhará US$ 10,5 milhões na próxima temporada) e Moe Harkless (US$ 10,6 milhões) também não são moedas de troca das mais valiosas. Sobram Damian Lillard e CJ McCollum. Será que está na hora de pensar em quebrar essa dupla negociando um deles? Provavelmente isso não é algo que os torcedores gostariam de ver. Mas se a equipe não quiser continuar estacionada no Oeste, as opções de evitar esse caminho estão se reduzindo.

No caso do Heat, a quantia em salários garantidos para a próxima temporada é ainda maior: US$ 144,2 milhões, o que ultrapassa a “luxury tax” do próximo ano em mais de US$ 21 milhões. A eliminação para o Sixers na primeira rodada mostrou um time muito bem organizado por um dos melhores treinadores da NBA, mas sem o mesmo nível de talento do adversário. Era algo que já se imaginava mesmo antes de os playoffs começaram. E essa limitação não combina nem um pouco com o tamanho do gasto em salários da franquia. Já que é para entrar na “luxury tax” e pagar multa à NBA, que seja então com um elenco capaz de brigar pelo título, certo? O que não é o caso desta equipe, definitivamente.

Os playoffs do Heat também mostraram algo que até já dava para perceber durante a fase de classificação e que chegou a ser assunto de algum podcast do Triple-Double durante a temporada: o quanto o time consegue viver muito bem sem Hassan Whiteside. Durante muitos momentos na temporada regular, ficava bem clara a preferência do técnico Erik Spoelstra de fechar jogos com Kelly Olynyk, Bam Adebayo, os dois juntos ou qualquer outra alternativa que desprezasse Whiteside. De fato, a equipe rendia melhor mesmo com o pivô no banco. Aí, durante as cinco partidas da série contra o Sixers, o pivô foi limitado a apenas 15 minutos de ação por jogo e chegou a reclamar publicamente disso.

Diante disso tudo, nem parece que Whiteside tem o maior salário do elenco. Mas ele tem, com um contrato que o renderá quase US$ 25 milhões ao longo da próxima temporada. Encaixá-lo em uma troca nestes próximos meses seria a melhor coisa para o Heat, que poderia ter ganhar algum respiro financeiro, e para o próprio jogador, que teria a oportunidade de ir para um lugar onde pudesse ser mais feliz jogando mais tempo. A questão é saber se isso será possível. As reclamações públicas do pivô tiraram boa parte do poder de barganha da franquia em qualquer conversa sobre troca envolvendo o nome dele.

Além de Whiteside, outros cinco jogadores do atual elenco do Heat terão salários acima de US$ 10 milhões ao longo da próxima temporada: Tyler Johnson (US$ 19 milhões), Goran Dragic (US$ 18,1 milhões), James Johnson (US$ 14,4 milhões), Dion Waiters (US$ 12,7 milhões) e Kelly Olymyk (US$ 11,1 milhões). Não são valores absurdos se forem observados individualmente, mas juntos formam uma parte grossa de uma folha salarial bastante engessada. Para melhorar um pouco a péssima situação financeira e que não está à altura do que o time hoje é capaz de render, é bem possível que um ou mais destes nomes além de Whiteside tenham de ser negociados.

A exemplo do Blazers, o Heat terá uma situação bastante desafiadora pela frente ao longo dos próximos meses. A única coisa que parece certa em cada uma destas histórias é que algo precisará ser feito.

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