As escolhas no Draft que me chamaram a atenção

Autor Convidado

* Texto de Ricardo Stabolito

Uma coisa que aprendi em mais de uma década acompanhando Draft é que não há como julgar vencedores e perdedores ao final da noite. Se alguém pudesse, certamente, não estaria comentando as escolhas em perfis no twitter, sites ou mesmo em uma rede de televisão. Nós temos que dar tempo ao tempo para realizar uma avaliação não só porque o futuro é (obviamente) nebuloso, mas, em especial, pela evolução de um prospecto estar condicionada a uma série de fatores que não aparecem em sua ficha pré-recrutamento.

Como medir os intangíveis de um jogador, por exemplo? Sua adaptabilidade a um sistema de jogo diferente, empenho diante das adversidades e ética de trabalho? Existem atletas que, no convívio com profissionais, tornam-se mais dedicados ou terminam por vislumbrar-se pelo estilo de vida milionário. Tem jogadores que só funcionam em esquemas específicos, precisam de companheiros que criem seus arremessos. E o ponto principal: qual é o papel de “cair no time certo” para o desenvolvimento do jovem?

Dejounte Murray, por exemplo, era um atleta que poderia figurar como a definição de “peladeiro” no dicionário. Não gostava nada dele como prospecto. No entanto, quando o San Antonio Spurs (um programa vencedor, com um treinador de elite, ótimo retrospecto recente e sem pressa para colocar garotos em quadra) escolhe esse jogador, você dá o benefício da dúvida. Depois de duas temporadas, ele era eleito para um dos times defensivos da liga.

É por isso que, aqui, estreando na sessão de textos do Triple-Double, eu não vou falar de vencedores e perdedores. Não darei notas ou farei juízo de valor. É muito cedo e relativo. Vou falar sobre algumas seleções que no fim da noite ainda conseguiam chamar minha atenção. Vamos lá.


4. Atlanta Hawks – DeAndre Hunter (ala, 21 anos)

Uma das coisas que faltavam para o Hawks ser a equipe moderna que pretende era defensores versáteis nas alas. E, diferente do que acontece com outras franquias, o pessoal de Atlanta não inventou: subiu algumas posições na loteria com inteligente utilização de sua flexibilidade salarial (“absorveu” o medonho contrato de Solomon
Hill) para selecionar o atleta que todos sabiam ser um encaixe perfeito.

Hunter é exatamente o que faltava no perímetro do time, em especial após a saída de Taurean Prince. Ele pode marcar qualquer posição por cobrir muito espaço com seus braços longos e trabalho de pés, espaça a quadra com quase 44% de acerto nos arremessos de longa distância na última temporada da NCAA e tem currículo vencedor por onde passou. Agrega em quadra, agrega à cultura.

Parece-me bastante claro que o ex-jogador de Virginia fará o papel que for preciso e vai jogar em qualquer posição que o Hawks precisar. Ele é a peça complementar, preencherá as lacunas. Você pode achar esse perfil pouco para uma quarta escolha de draft, mas veja os salários que Trevor Ariza vem ganhando ou a importância de P.J. Tucker para um competitivo Rockets. Esses caras são valiosos e raros.

Último ponto: se Hunter se mostrar mais do que uma peça complementar, é provável que seja um ala-pivô em tempo integral na NBA. É utilizando sua agilidade e pés leves em “mismatches” que recursos pouco explorados de seu jogo, como “pull ups” e jogo de “post ups”, começam a aparecer.


8. New Orleans Pelicans – Jaxson Hayes (pivô, 19 anos)

Ao projetar o quinteto titular do Pelicans na próxima temporada com Jrue Holiday, Lonzo Ball, Brandon Ingram e Zion Williamson, a lógica dizia que a última peça do quebra-cabeças seria um arremessador. Um pivô, provavelmente, para espaçar a quadra como o perímetro não conseguiria consistentemente. Mas David Griffin foi contra a lógica ao suprir a carência posicional no draft, selecionando Jaxson Hayes.

O jovem é o total contrário de um arremessador: trata-se de um “roller” dinâmico e ágil nos “pick and rolls” sem muita utilidade, a essa altura da carreira, atacando fora do garrafão. É o molde em que atletas como Clint Capela encaixam-se na liga. Não é o que a gente esperava – nem esperávamos a franquia selecionando um pivô no recrutamento, na verdade –, mas, nem por isso, deixa de ser compreensível.

O Pelicans, hoje, tem quatro condutores de bola capazes no quinteto inicial: Ball, Holiday e Ingram são ou já jogaram como armadores na liga, enquanto Williamson é um ala-pivô perfeito para ser o condutor da bola em ações entre caras altos (4-5 “pick and rolls”). Hayes está, então, em uma situação muito boa: precisa somente fazer bons bloqueios para forçar uma reação com sua agilidade “rolando” para a cesta.

Último ponto: quem fica sabendo que Hayes tentou só três arremessos de fora do garrafão na última temporada inteira já tem a ideia da nulidade que ele é longe da área pintada, mas, na verdade, seus 74% de conversão nos lances livres sugerem que possa ser um chutador decente de curta e média distância. No futuro.


9. Washington Wizards – Rui Hachimura (ala-pivô, 21 anos)

Gravei um podcast com torcedores do Miami Heat nos últimos dias em que um dos motivos de crítica foi o conservadorismo da franquia no draft. O Wizards pode ser acusado de muitas coisas ao escolher Hachimura, mas o time não foi conservador. É uma aposta polarizante, muitos gostam e muitos odeiam, mas que envolve um “upside” raro para um atleta selecionado “já” com 21 anos de idade.

Não sou um dos fãs do japonês, para ser sincero. Seu jogo é a total antítese do que se espera de um ala-pivô na NBA hoje em dia: não oferece versatilidade defensiva, espaçamento ou tomada de decisão rápida em passes. Um prospecto com seu perfil físico-atlético e pouco tempo jogando competitivamente (com uma curva evolutiva constante), porém, não pode ser simplesmente descartado.

Hachimura já teve flashes do defensor e arremessador que a NBA gostaria que ele fosse na última temporada universitária. Potencial, como disse, não é o problema. Meu maior questionamento, na verdade, está em um nível de instintos: ele reage muito lentamente ao que acontece em quadra e sua leitura de jogo é rudimentar. Washington precisa correr riscos – e, aqui, inegavelmente, corre um.

Último ponto: a análise que faço hoje sobre Hachimura lembra um tanto o que era dito sobre Marcus Morris em 2011. Parecia um “tweener”, possuía poucas qualidades valorizadas em alas ou alas-pivôs profissionais, e usou isso em seu favor: virou um “mismatch” ambulante e marcador muito físico. É um bom exemplo a seguir.


11. Phoenix Suns – Cameron Johnson (ala, 23 anos)

O Suns chocou o mundo com essa decisão, basicamente, porque o mundo inteiro já sabe que você não seleciona um atleta de 23 anos na loteria. É só ver a reação dos torcedores da franquia. A história diz que essa foi uma escolha de baixo valor, que não vai oferecer “upside” ou potencial de crescimento, independente de quem seja o
jogador. Não é um julgamento técnico individual, mas de projeção e expectativas.

E não é um julgamento técnico porque Johnson é bom. Tem a solidez de um sênior de um grande programa universitário: faz tudo com certa qualidade, muito esforço e inegável voluntarismo. Ou seja, é um sênior clássico: o tipo de atleta que vai ser um “steal” quando escolhido na segunda rodada por um contender, mas sempre vai parecer uma chance jogada fora para um time em reconstrução na loteria.

O arremesso de longa distância é o “carro-chefe” do jogo de Johnson, a habilidade que vai mantê-lo ou tirá-lo da NBA. E ele tem um diferencial aqui: é um atleta de 2,06m capaz de chutar em movimento, o que não é comum mesmo em jogadores mais baixos e valioso para qualquer equipe. Um bom técnico vai saber aproveitar isso. No fim das contas, porém, não deixa de ser um sênior de 23 anos.

Último ponto: Johnson é apenas o segundo jogador de 23 anos a ser escolhido na loteria nessa década, juntando-se a Buddy Hield. Hield tem sido um sucesso, após início complicado, no Sacramento Kings. Refaça, ainda assim, o Draft de 2016 hoje e a maioria dos dirigentes da liga não voltaria a pegá-lo na sexta posição geral.


14. Boston Celtics – Romeo Langford (ala-armador, 19 anos)

Dá para ver a cara de Danny Ainge e do atual Celtics na escolha de Langford, não importa qual venha a ser o resultado final da aposta. É mais um jogador alto de perímetro, que dá versatilidade nos dois lados da quadra mais por conta da alta técnica do que pelos atributos físico-atléticos. Em meio ao caos das (prováveis) saídas de Kyrie Irving e Al Horford, Boston foi friamente coerente no draft.

Aliás, essa capacidade de ser um “two-way player” é o que mais me interessaria no prospecto. Sua temporada ofensiva em Indiana não foi das melhores, mas ainda assim anotou 16 pontos por jogo – poderia ter sido mais, se não tivesse sofrido uma lesão nos ligamentos da mão que debilitou seu alcance nos arremessos – apresentando sólida defesa em quadra. Isso não é tão comum assim.

A combinação de criação no ataque e senso/esforço defensivo em alas dinâmicos foi a receita do sucesso do Celtics em investimentos recentes, como Marcus Morris via troca e Jayson Tatum e Jaylen Brown no Draft. Eles foram atrás desse perfil mais uma vez no recrutamento: mesmo com menor grau de garantia de sucesso do que os outros citados, Langford é um dos legítimos “two-way players” da classe.

Último ponto: com as grandes mudanças do elenco de Boston, uma possibilidade interessante seria usar Langford como iniciador do ataque em formações reservas. Sua visão de jogo é subestimada e pode ser aguçada pelo espaçamento da NBA, além de que ele já é um infiltrador de elite por todos os níveis em que passou.


18. Indiana Pacers – Goga Bitadze (pivô, 19 anos)

Brook Lopez voltou a ser um dos nomes mais badalados do mercado em questão de um ano por combinar três fatores que não costumam vir “reunidos” em um mesmo pivô: arremesso de longa distância, capacidade de pontuar no garrafão e proteção de aro (distribuiu 2,2 tocos na temporada passada). Não é complicado entender a “hype” recente que nasceu em torno de Bitadze diante desse panorama.

Por trás da “casca” de pivô jovem europeu, com seus 2,13m de altura e 114 kg, ele guarda um arremesso bem limpo (acertou 41% dos arremessos de três pontos tentados na última temporada) e excelente trabalho de pés. Suas pernas são mais ágeis do que aparenta. Não vai acompanhar Russell Westbrook, mas também não será o cara que precisa dar um passo para trás a cada “pick and roll” adversário.

Interessante agora será observar a situação da rotação de garrafão do Pacers. A equipe teve péssimos resultados na temporada inteira tentando utilizar Domantas Sabonis e Myles Turner juntos. A última coisa que precisava era mais um pivô que, por característica, não será bom encaixe com ambos. Imagino que, especialmente com Turner, o time de Indiana possa virar um inesperado candidato a trocas.

Último ponto: uma das únicas formas consistentes que o Pacers teve para colocar a ofensiva para funcionar na temporada passada foi o “pick-and-pop” com Sabonis. Bitadze, potencialmente, dá esse mesmo dinamismo com mais alcance no chute. Maior espaçamento é algo que Nate McMillan, certamente, pode usar.


21. Memphis Grizzlies – Brandon Clarke (ala-pivô, 22 anos)

A análise de qualquer prospecto passa por dados concretos (estatísticas, medições) e a percepção que temos a partir do que vemos com os próprios olhos. Clarke é um jogador que, pontualmente, posiciona esses fatores em rota de colisão. Reações das mais pessimistas surgiram quando ele foi medido com 2,03m de altura e envergadura no “Draft Combine”, mas esses números pouco importam ao vermos sua atuação em quadra.

Não é que o ala-pivô aparente ter braços longos ou ser gigante nas quatro linhas, mas sua força física e condição atlética são forças impositivas. É um desses raros prospectos com condições de marcar qualquer posição na NBA: ágil no perímetro, com pés leves e cobrindo muito espaço, ao mesmo tempo em que exibe instintos apurados protegendo o aro e aguerrimento no jogo físico.

Na verdade, apesar das limitações de estatura, Clarke seria um ótimo encaixe em qualquer time porque joga basquete da forma certa: com versatilidade defensiva, senso coletivo e muita inteligência. O cenário do Grizzlies, porém, é ideal: sua falta de arremesso exige, nos moldes atuais da liga, um pivô chutador como o jovem Jaren Jackson Jr ao seu lado.

Último ponto: o arsenal ofensivo de Clarke é bastante limitado atualmente, quase resumido a cortes sem a bola e finalização em torno do aro, mas há uma coisa que se sobressai: passes. Seus instintos como facilitador são excelentes – e devem ser apurados pelo maior espaçamento da NBA, atuando ao lado de mais chutadores.


23. Oklahoma City Thunder – Darius Bazley (ala-pivô, 19 anos)

É realmente difícil compreender o que o Thunder planeja com a escolha de Bazley, mesmo para alguém que tenta enxergar o panorama completo. Com folha salarial engessada ao extremo e um elenco bastante deficitário, a equipe precisa valorizar essas seleções mais do que nunca como meio para trazer reforços de baixo custo em longo prazo. Bazley, nesse sentido, é um tiro duvidoso em dois sentidos.

Ele não disputou a última temporada e “pulou” a universidade para treinar um ano em uma academia particular, visando ao Draft. Por mais que tenha aparecido muito bem no “Draft Combine” – defesa versátil, bons instintos de proteção de aro e sólido passador –, a falta de experiência sugere que não poderá jogar de imediato. É uma vaga potencialmente improdutiva no elenco.

Ao mesmo tempo, como uma escolha de primeira rodada, Bazley vai ter contrato garantido e ajudará a encarecer a folha salarial do Thunder com alguém que não deverá ser um jogador de rotação imediato. Mais um arremessador suspeito. Não duvido que a franquia visse o ala-pivô como melhor talento disponível, mas quem quer ser candidato ao título tem que pensar um pouco mais no agora.

Último ponto: se o treinamento específico com uma equipe profissional por meses trouxe algum benefício inegável para Bazley, esse foi visto do ponto de vista físico. Ele era conhecido por possuir um pequeno problema de condicionamento, mas, no “Draft Combine”, apresentou-se com menos do que 4% de gordura corporal.


29. San Antonio Spurs – Keldon Johnson (ala, 19 anos)

Os constantes “steals” que o Spurs consegue em recrutamentos são produto de uma combinação de oportunidade e trabalho. A oportunidade aparece quando os rivais deixam que um talento considerável vá “caindo” até o final da primeira rodada. O trabalho está na excelência de Gregg Popovich e uma franquia vencedora. Keldon Johnson, aparentemente, pode ser mais uma dessas grandes oportunidades.

Não acho que o ala seja o prospecto perfeito, mas gosto de sua postura e a forma como atua: físico, competitivo, agressivo nos dois lados da quadra e orgulhoso de seu desempenho defensivo. O bônus foi ter convertido 38% dos seus arremessos de longa distância em Kentucky – alto aproveitamento e considerável melhora na tomada de decisões em um dos quesitos mais duvidosos do seu jogo.

Com Johnson, San Antonio parece insinuar começar a replicar nas alas o que já tem construído na armação: uma rotação de marcadores versáteis e muito empenhados (Dejounte Murray, Derrick White). O dinamismo ofensivo é algo a ser trabalhado e paciência será necessária, mas a verdade é que o elenco do Spurs carecia de alas mais físicos e intensos contra condutores de bola como Johnson.

Último ponto: um aspecto ainda pouco refinado de Johnson que pode conferir uma maior dimensão ao seu jogo é o passe em movimento. Ele possui o corpo, estilo de atuação e postura em quadra para ser um grande infiltrador. Desenvolva o “drive and kick” e seu arsenal ofensivo ficará muito mais versátil.


44. Denver Nuggets – Bol Bol (pivô, 19 anos)

Existia uma ideia nas redes sociais de que Bol Bol era um prospecto polarizante nos bastidores da NBA. Não foi bem isso que notamos na noite do Draft. Já na segunda rodada do recrutamento, quando os riscos são baixíssimos, foi preciso passar mais 14 escolhas para que alguém selecionasse o jovem pivô. Vários times passaram nesta faixa de seleções (Heat, Hawks, Pistons, Wizards) sem interesse nele.

Foi o reconhecimento de que há muitos sinais de alerta em torno do garoto para somente o escolher com base em simples talento. Ele é mais leve do que a maior parte dos armadores profissionais e está em recuperação de uma lesão por estresse no osso navicular do pé esquerdo. E ainda há a forma como joga: embora exale potencial, desleixo e individualismo são marcantes em sua postura em quadra.

Esse é o ponto mais preocupante: Bol produz muito mais do que um Keldon Johnson dentro das quatro linhas, mas a postura de ambos é oposta. O pivô deve ser um dos defensores mais indisciplinados que já vi na NCAA (sempre abandona posição para tentar dar tocos mirabolantes) e posses ofensivas tendem a “morrer” quando chegam a suas mãos. Ter sido escolhido tão tarde, no fim das contas, deveria servir mais como um alerta para sua abordagem como jogador do que como uma motivação.

Último ponto: fraturas no osso navicular costumam ser brutais para pivôs. Trata-se da lesão que quase colocou fim a carreira de astros como Zydrunas Ilgauskas, Yao Ming e Joel Embiid. É raro sofrê-la apenas uma vez e a recuperação costuma envolver retrocessos. Toda paciência será pouca para o Nuggets.

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