As questões para Sixers e Wolves após o fim da novela Butler

Luís Araújo

Jimmy Butler conseguiu. O desejo de deixar o Minnesota Timberwolves e encontrar um novo lugar para jogar finalmente foi realizado, e uma novela que já vinha se arrastando por muito tempo chegou ao fim. Quem ficou com ele foi o Philadelphia 76ers, que também recebeu o pivô Justin Patton — selecionado na primeira rodada do Draft de 2017, mas que pouco mostrou até agora. Em troca, mandou Dario Saric, Robert Covington, Jerryd Bayless e uma escolha de segunda rodada do Draft de 2022.

Antes de qualquer coisa, é bom já deixar a condição contratual de cada peça envolvida neste negócio:

Butler: expirante de US$ 21 milhões
Patton: expirante de US$ 2,7 milhões
Saric: US$ 3 milhões por ano até 2020
Covington: cerca de 12 milhões por ano até 2022
Bayless: expirante de US$ 8,5 milhões

Fica mais fácil começar a raciocinar isso tudo pelos lados de quem se livrou de Butler. Ainda que tenha perdido o melhor jogador envolvido nesta negociação, o Timberwolves só tem a comemorar. O desejo dele de sair já não era segredo para ninguém, o que só vinha deixando o ambiente cada vez pior. Há até relatos de que Tom Thibodeau, que ainda acumula as funções de técnico e gerente-geral, estava convencido de que a situação chegara a um ponto insustentável após a derrota para o Sacramento Kings.

Não dava nem para tentar deixar para ver no que isso tudo daria. Dentro de quadra, o Timberwolves começou a temporada mais perdendo do que ganhando e com uma defesa incrivelmente ruim. Butler é ótimo, provavelmente esse time mostraria coisas ainda piores sem ele nestes primeiros jogos do campeonato. Mas diante do contexto envolvendo a situação contratual dele, era um cenário que não valia mais a pena manter. Era melhor encaixar uma troca o quanto antes para ter ainda algum retorno qualquer. Afinal de contas, a grande estrela da equipe estava decidida a sair ao final da temporada, quando virar agente livre.

É por isso tudo que dá para considerar como muito bom o pacote que o Timberwolves ganhou nesta transação. Covington demonstrou uma boa evolução na última temporada e se consolidou como um “3 and D” de elite na liga. Na defesa, é extremamente competente tanto em marcações individuais quanto em coletivas, usando os braços para combater linhas de passe e eventualmente desviar a bola. No outro lado da quadra, tem bom arremesso de longa distância e sabe se deslocar bem o bastante para ser útil sem precisar ter a bola nas mãos. Características que o tornam um encaixe tão bom quando necessário ao lado de peças como Karl-Anthony Towns e Andrew Wiggins. E o contrato o torna um ótimo custo-benefício.

Saric não fica atrás em termos de atratividade a esse novo Timberwolves. Não só pela versatilidade apresentada nestes últimos anos junto de Joel Embiid e Ben Simmons no Sixers, mas especialmente por se tratar de um jovem ainda intrigante. Quando novato, por exemplo, Saric praticamente não tinha a companhia de Embiid, enquanto Simmons ainda não havia estreado. Talvez tenha sido nesta época, em que assumiu o protagonismo do time, que ele tenha mostrado com mais clareza a capacidade de colocar a bola no chão quando alguém o aciona de frente para a cesta e até mesmo de conduzi-la ao ataque vez ou outra. Depois que Embiid e Simmons entraram nesta equipe, esse tipo de coisa naturalmente passou a aparecer menos, mas aí o croata mostrou muita solidez como distribuidor de passes e também em ações de costas para a cesta. O aproveitamento em bolas de três pontos está na cada dos 30% nesta temporada, mas foi superior a 39% na anterior. O que significa duas coisas: há esperanças para se acreditar em uma melhora e dificilmente as defesas adversárias vão pagar para vê-lo chutando com espaço. Defensivamente, tem lá suas fragilidades individualmente, mas sabe contribuir do ponto de vista coletivo com sua boa leitura e noção dos espaços a serem preenchidos.

Já Bayless provavelmente entrou no pacote só por ter contrato expirante e para fazer os salários baterem. É possível que nem chegue a ser utilizado. Mas se Thibodeau quiser mantê-lo por perto, terá no banco mais uma arma com a reputação de ter um bom chute de longa distância. De qualquer maneira, parece claro que o Timberwolves conseguiu ter um pouco mais de profundidade no elenco. Enquanto Covington assumirá a porção de minutos deixada por Butler, Saric chega para oferecer uma variação tática interessante, podendo atuar tanto ao lado de Towns como de Taj Gibson.

Dentro da teoria, foi um bom desfecho de novela para o Timberwolves. Só que agora a história é outra: como os remanescentes irão reagir após a saída de Butler? Wiggins e Towns não terão mais um veterano com quem tiveram uma convivência turbulenta e que frequentemente os tirava de suas zonas de conforto dentro de quadra. Pode ser um grande alívio por um lado, mas a bengala também não existe mais. Não há mais desculpas. Os resultados vão precisar aparecer. Será que veremos os dois mais à vontade para comandar o ataque? E será que eles conseguirão virar estrelas capazes de conquistar cestas difíceis em momentos críticos das partidas, mais ou menos como Butler fazia?

O outro lado da troca ficou com o melhor jogador. Pelo simples fato de adicionar uma estrela como Butler, muita gente pode considerar o Sixers em um primeiro momento como claro vencedor da negociação. Mas a história da NBA, especialmente nestes últimos anos, tem nos mostrado que as coisas não funcionam assim. A grande quantidade de talento individual pode até render algumas vitórias na marra, mas as peças precisam se encaixar para que a experiência tenha o melhor rendimento possível e resulte em sucesso sustentável.

Abrir mão de dois titulares que se encaixavam muito bem ao lado de Embiid e Simmons para fisgar um jogador que será agente livre em julho pareceu um movimento extremamente arriscado. Até há times que fariam certo em apostar as suas fichas em resultados mais imediatos, sacrificando um pouco do futuro. Mas esse não é o caso do Sixers, liderado por um par de estrelas jovens e com tempo para ir moldando o grupo da melhor maneira possível ao redor delas.

Parecia que era um preço alto demais a se pagar por algo que poderia acabar sendo um mero aluguel de Butler. Mas essa sensação ficou bem mais amena depois de uma informação importante apurada pelo jornalista Adrian Wojnarowski, da ESPN dos EUA: o jogador está fortemente inclinado a permanecer com o Sixers ao final da temporada, assinando um novo contrato que o mantenha na equipe por um “longo período”.

Bom, pode até ser então que a permanência de Butler não chegue a ser uma dor de cabeça para o Sixers, mas a adaptação dele dentro de quadra ao lado de Embiid e Simmons é, sim, um ponto de interrogação. O grande problema deste time tem sido o espaçamento ofensivo e os arremessos de longa distância. Butler não é uma negação em chutes do tipo, longe disso. Mas também não é um especialista. Mais ainda: não é um sujeito conhecido por abrir no canto da quadra e receber passes para finalizar assim. É muito mais o tipo de jogador que gosta de ter a bola nas mãos, encarar o defensor em situações individuais e cavar o espaço para a finalização na marra.

Não é só que Butler gosta de fazer isso. Ele sabe como se virar nestas situações como poucos. Não foram raros os jogos ao longo dos últimos anos, incluindo até os tempos em Chicago, em que ele levou seu time a vitórias assim. A questão que surge a partir da imaginação sobre como isso aconteceria no Sixers diz respeito ao comportamento de Simmons. O australiano até vem sendo mais usado sem a bola no ataque, aproveitando sua estatura para receber em movimento no garrafão e finalizando por ali. O negócio é que quanto mais vezes isso acontecer, menos vezes a bola estará nas mãos de Simmons, um passador brilhante e ótimo tomador de decisões.

Tem Embiid também, claro. Como ele vai se comportar nestas situações? Qual região da quadra vai ocupar? Ele até rende bem quando tem a bola longe da cesta, seja criando finalizações para si mesmo ou acionando o próprio Simmons no garrafão. Mas não parece uma boa ideia limitá-lo apenas a esse papel, sem que ele possa dominar os oponentes em regiões mais próximas do aro.

Trata-se de um quebra-cabeças complicado. Há a esperança de que Butler seja capaz de entregar uma defesa muito boa ao ponto de forçar erros atrás de erros dos outros e possibilitar mais vezes o jogo em transição, mas daria para manter Covington se fosse só essa a intenção. O ataque terá de funcionar, as dúvidas terão de ser esclarecidas. Afinal, o que realmente atraiu o Sixers e o levou a apostar alto foi mesmo a possibilidade de colocar mais uma grande estrela no elenco, formando um trio de peso ao lado de Embiid e Simmons. É claro que essa experiência pode dar certo, seria estupidez decretar o contrário desde já. Mas vai precisar de muita movimentação e de um ótimo grau de entrosamento entre essas peças todas para espaçar as defesas adversárias de algum jeito.

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