Até que ponto os rankings individuais importam?

Luís Araújo

O melhor momento de Joakim Noah na NBA aconteceu, indiscutivelmente, na temporada 2013/14. Foi quando ele engatou uma fase na qual flertava constantemente com triplos-duplos, liderou um enfraquecido Chicago Bulls a vitórias teoricamente improváveis, foi eleito o defensor do ano e acabou em quarto lugar na corrida pelo prêmio de MVP.

Nada ocorreu à toa, essas coisas todas que estão interligadas. As vitórias apareceram muito por causa da maneira que Tom Thibodeau, então técnico do Bulls, encontrou para fazer o sistema ofensivo render diante das limitações que tinha: deixar mais a bola nas mãos de Noah, que passou a ter o papel de organizar as ações ofensivas a partir de sua habilidade de fazer passes da cabeça do garrafão. Mais do que um feito bacana e que chama a atenção nas estatísticas, o triplo-duplo pode servir também para dar uma noção do quanto um atleta exerce influência para seu time em quadra.

Pois bem. Esse novo papel ofensivo de Noah funcionou, o que o tornou uma peça gigantesca nos dois lados da quadra e impulsionou o Bulls, que venceu ao ponto de ter a quarta melhor campanha do Leste. Poucos meses depois disso e da compreensível colocação dele entre os candidatos a MVP, quando restavam algumas poucas semanas para o início de uma nova temporada, a ESPN dos Estados Unidos divulgou o seu ranking que faz anualmente dos jogadores da NBA. O pivô apareceu em 12º lugar.

Para se ter uma ideia do tamanho disso: LaMarcus Aldridge foi o 13º. Marc Gasol, Dirk Nowitzki, Tony Parker, John Wall, DeMarcus Cousins e Chris Bosh foram alguns dos nomes que vierem em seguida. Todos abaixo de Noah. E teve ainda o caso de Kobe Bryant, que ficou na 40ª posição.

Ainda que o ídolo do Los Angeles Lakers tivesse sofrido uma lesão que representava até mesmo um ponto de interrogação na sequência de sua carreira naquele momento da história, um internauta não conseguiu evitar de fazer a pergunta: “há outros 39 jogadores que você escolheria na NBA antes de Kobe? Isso não faz sentido.”

Um outro, também revoltado, comentou o seguinte: “Kobe é o número 40? No 1 contra 1, eu aposto nele em nove a cada dez vezes.”

Essa é a questão central. Como esse e outros rankings do tipo em esportes coletivos deveriam ser interpretados? Em um campeonato de 1 x 1, Noah provavelmente não passaria nem perto de superar Kobe, nem de ficar entre os 15 melhores em uma competição assim. E se a NBA de repente resolvesse zerar e recomeçar com um Draft geral, também é seguro dizer que o pivô muito dificilmente seria o 12º selecionado.

No tênis, por exemplo, que é um esporte individual, sabemos que o ranking é simplesmente construído a partir das pontuações dos atletas ao longo das competições que disputam. Também é óbvio que o resultado disso tudo na classificação geral mostra apenas o momento de cada um, e não quem leva a melhor do ponto de vista histórico.

Nas modalidades coletivas, listas individuais estão muito sujeitas à subjetividade. Afinal de contas, não basta apenas pegar os desempenhos e as conquistas dos atletas e fazer a medição a partir daí. Há outras pessoas dentro de quadra em uma mesma partida, não é uma competição de um contra um, então acaba sendo preciso levar outros fatores em consideração. E é aí que a coisa foge de vez de qualquer regra. Por mais que existam fatores nas estatísticas avançadas que tentam medir o impacto de um determinado jogador nas vitórias da sua equipe, há sempre outros tipos de contribuição não mostrados pelos números.

Por isso tudo que esse tipo de ranking talvez possa ser interpretado como uma ordem de jogadores “mais valiosos do momento”, não exatamente dos melhores. O fato de eles serem feitos anualmente ajuda nesse sentido. O que também vai ao encontro disso é o entendimento de como o ambiente no qual os atletas estão inseridos são fundamentais para o impacto que eles têm na liga e que os leva às suas respectivas posições nestas listas.

O caso de Noah é emblemático nesta linha de raciocínio. O pivô nunca mais passou perto do rendimento daquela temporada 2013/14. As lesões que tem sofrido desde então atrapalharam, claro. Mas ainda que elas não tivessem aparecido, o papel dele na equipe dentro de quadra certamente não seria o mesmo. As mudanças que ocorreram no elenco do Bulls em seguida, principalmente a chegada de Pau Gasol, o levaram a ser utilizado de maneira diferente. Noah seguramente apareceria menos, mas não necessariamente estaria jogando pior. É simplesmente uma questão de distribuição de tarefas para as peças à disposição.

Kevin Love é um outro grande exemplo disso. É óbvio que ele não desaprendeu a jogar basquete, mas não tem sido o mesmo jogador que era no Minnesota Timberwolves porque divide a quadra com outras duas estrelas no Cleveland Cavaliers. Aí vira uma questão de lógica: não dá para manter o mesmo volume de jogo a partir do momento que se tem LeBron James e Kyrie Irving como companheiros.

No fim das contas, rankings assim valem meramente como curiosidade e nada mais. Estamos entrando na época do ano em que essas listas vão começar a pipocar por aí. Inevitavelmente, serão muito observadas e repercutidas. Mas que elas passem longe de serem encaradas como medição definitiva de talento individual. Porque não são.

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