A boa primeira impressão deixada pelo novo Cavs

Luís Araújo

Foi só um jogo. É claro que ainda é cedo e que não dá para se tirar qualquer tipo de conclusão definitiva sobre o remodelado Cleveland Cavaliers. Mas também é inegável que esse time deixou uma primeira impressão muito positiva ao vencer o Boston Celtics de maneira bastante expressiva, fora de casa, pelo placar de 121 a 99.

LeBron James gostou muito do que viu. Isso ficou bem claro durante o último quarto, em um momento no qual o jogo já estava resolvido, quando ele levantou do banco de reservas para festejar uma cesta de três de Jordan Clarkson. Os aplausos efusivos e a expressão no rosto indicavam um nível alto de satisfação. As declarações dele depois da partida confirmaram isso. Primeiro, falou que o time prestou atenção aos detalhes dentro de quadra como ainda não havia feito na temporada. Depois, disse que a única coisa que pede no fim das contas é estar cercado por companheiros que trabalham duro.

Foram precisos só 28 minutos para LeBron somar 24 pontos, dez assistências e oito rebotes. Durante todo o último quarto, ele nem chegou a sair do banco de reservas, o que dá uma ideia do quanto o Cavs teve a partida sob controle na reta final. Todos os quatro novos companheiros dele também tiveram boa participação nesta vitória durante o tempo em que permaneceram em quadra. Clarkson, George Hill, Larry Nance Jr e Rodney Hood tiveram, juntos, 49 pontos e 18 arremessos certos em 35 tentados.

Mas muito mais importante do que apenas observar esses bons números é tentar observar algumas coisas que podem estar por trás desta produção e que merecem atenção ao longo dos próximos dias. Uma delas diz respeito a Clarkson, que acertou sete dos 11 arremessos que tentou. Um destes chutes certeiros aparece na jogada a seguir, em que apareceu livre para o tiro de três depois de Semi Ojeleye se afastar dele para fazer a cobertura no garrafão após o “pick and roll” entre Nance e LeBron.

Clarkson não vem sendo um grande arremessador em casos assim, nos quais não tem a bola nas mãos desde o começo da jogada. O aproveitamento em chutes de três em situações de “catch and shoot” nesta temporada tem sido de 37%. Se formos olhar para os disparos de longa distância considerados “abertos” ou “muito abertos”, o rendimento dele fica na casa dos 34%. Os números não são trágicos, mas também passam longe de encher os olhos.

Então é compreensível que um lance como gere dúvidas com relação à sustentabilidade ao longo da temporada. Clarkson terá pelo Cavs um aproveitamento bom o suficiente para fazer as defesas pagarem caro por oferecerem esse tipo de espaço?

Ainda sobre os estreantes que vieram do banco, vale a pena observar essa ação entre Hood e Nance. O ala-armador que veio do Utah Jazz até vinha mostrando uma melhora cada vez mais animadora nas situações em que comandava o ataque e puxava o “pick and roll”, mas também é um sujeito que sabe muito bem como se comportar sem bola antes de receber para chutar ou para cortar em direção à cesta.

No lance a seguir, Nance subiu de um lado da quadra, carregou a bola para o outro e a entregou nas mãos de Hood, que recebeu com espaço após receber um bloqueio de Kyle Korver. Assim que fez o passe, Nance girou imediatamente para a cesta, levando consigo a marcação de Al Horford, o que possibilitou que Hood iniciasse a infiltração com espaço.

Mas é interessante observar também a capacidade de improviso de Nance. Nesta outra jogada, ele bem que tentou fazer algo parecido com o lance anterior ali no canto direito da quadra de ataque do Cavs, aproveitando o resultado da ação entre Clarkson e Cedi Osman. Mas ao perceber que todos os defensores do Celtics estavam focados naquele lado, ele resolveu fazer o corte para o meio e enterrou com força, sem qualquer chance para a tentativa de cobertura de Daniel Theis.

Vale observar ainda mais um lance, que aconteceu no final do primeiro quarto e que acabou culminando nos dois primeiros pontos de Clarkson com a camisa do Cavs. Jeff Green levou a bola para o ataque, passou para Nance e correu para perto dele, como se fosse receber de volta e aproveitar um bloqueio do ala-pivô para tentar infiltrar. Mas ao invés disso, ele colou em Terry Rozier e fez um bloqueio para Clarkson, que acabou sendo acionado por Nance e chutou de média distância com espaço.

Isso tudo foi só uma amostra de ações envolvendo as peças novas. Tiveram também arremessos de Hill, por exemplo, que foram decorrentes de algum espaço criado por LeBron no “pick and roll”, além, claro, de uma série de outras jogadas protagonizadas por quem já estava no elenco. De maneira geral, o sistema ofensivo nunca foi problema do Cavs. Ainda assim, é importante que o time tenha conseguido produzir tão bem diante da defesa mais eficiente da NBA e já com um bom nível de contribuição dos recém-chegados.

Mas a grande surpresa mesmo foi o desempenho da defesa. Tudo bem que o Celtics tem um dos dez ataques menos eficientes da temporada e viu alguns dos seus jogadores desperdiçarem arremessos com espaço, principalmente no trecho durante o segundo quarto em que LeBron e companhia emplacaram uma corrida de 13 a 2 para assumir o controle do jogo e não largá-lo mais. Todas essas ressalvas são necessárias, mas não tiram a percepção de que algumas coisas já funcionaram de um jeito bem melhor nesta estreia do novo Cavs, dando um sopro de esperança para o resto de temporada desta equipe.

Um ponto animador atende pelo nome de George Hill, que mostrou que ainda pode fazer as coisas pelas quais ficou reconhecido na NBA nos últimos tempos — apesar da má fase em Sacramento. Dá para se discutir se realmente foi falta de ataque ou não nesta jogada abaixo. Ele não parecia estar totalmente na posição certa na hora do choque com Jayson Tatum. Mas isso não anula duas coisas valiosas que o vídeo mostra e que faziam uma falta absurda para esse time: a comunicação dele na defesa em transição e a velocidade no deslocamento lateral para marcar a infiltração.

Deu para pescar também boas contribuições defensivas de gente que já fazia parte do elenco. No lance a seguir, o ataque do Celtics trabalhou para gerar um “mismatch”. Foi o que deixou Kyrie Irving sendo marcado na linha de três pontos por Tristan Thompson. A chance de um corte ali era grande, e foi o que acabou acontecendo, mas o Cavs parecia preparado para isso. Assim que Kyrie driblou, JR Smith apareceu para atrapalhar a infiltração e forçar um passe.

Em seguida, ele ainda conseguiu correr para voltar em Semi Ojeleye e contestar o chute de três, tanto que acabou até dando um toco. Mas nada disso teria sido possível se não fosse mesmo pelo “timing” perfeito na hora de fazer a cobertura.

Foi por essas e outras que LeBron elogiou o nível de atenção aos detalhes do time no jogo. Não é raro ver JR Smith viajando na maionese neste tipo de situação em que é preciso fazer ajudas e depois voltar para o marcador inicial, facilitando as coisas para o adversário encontrar alguém livre para o chute de longe. Desta vez, porém, ele foi impecável. O potencial para entregar um bom trabalho está lá, resta saber o quanto esse nível de atenção será mantido ao longo dos próximos meses.

Nesta outra jogada a seguir, JR Smith apareceu bem na dobra em cima de Horford, forçando o pivô do Celtics a fazer um passe para se livrar da bola. A tentativa dele foi uma ligação para o outro lado da quadra com Jayson Tatum, mas Clarkson estava atento e bem posicionado o bastante para interceptar e partir para o contra-ataque.


O nível de concentração dos jogadores que estavam marcando fora da bola pode ser percebido também nesta outra defesa bem sucedida. Mais uma vez, Smith agiu na hora certa para sair do seu marcador e aparecer na cobertura dentro do garrafão, depois do falso bloqueio que Horford fez no perímetro. De novo, o pivô tentou fazer o passe para encontrar alguém melhor posicionado, mas a bola encontrou os braços de LeBron antes de chegar em Ojeleye na zona morta.

Vale observar ainda que se o passe tivesse sido feito para Marcus Morris, Tristan Thompson já estava chegando por ali para fechar o espaço. Ele poderia ser cortado na sequência? Talvez. Mas pelo menos não iria permitir um chute livre de três e ainda poderia contar com a ajuda dos companheiros.

Um dos lances mais memoráveis da partida nasceu a partir disso. Osman perdeu uma enterrada livre, o que obviamente chama a atenção por não ser o tipo de coisa que vemos acontecer toda hora na NBA. Mas é justo notar que esse contra-ataque foi fruto de uma roubada de bola do turco, que saiu de Morris para interceptar o passe cruzado.

Foi por isso que LeBron e Clarkson fizeram questão de aplaudi-lo e motivá-lo logo depois da enterrada errada. E é por isso também que Koby Altman, gerente-geral da franquia, expressou publicamente, depois das trocas todas que fez no elenco, que queria ver Osman jogando mais tempo por enxergá-lo como alguém que infecta todo o restante do time pelo nível de entrega em quadra.

Uma coisa que o Cavs fez neste roubo de bola aí de Osman pode ser observado também nesta outra jogada a seguir e apareceu em algumas outras vezes ao longo da partida: um terceiro marcador era deslocado para o canto da quadra onde havia ameaça de “pick and roll’, a fim de evitar que o Celtics tirasse vantagem e apostando que a cobertura daria conta do que pudesse acontecer depois.

Neste lance abaixo, foi LeBron quem se aproximou de onde Kyrie Irving estava batendo bola, enquanto George Hill, lá no outro lado da quadra sem bola, ficou atento para fazer a cobertura e sair em quem fosse acionado. Na verdade, ele só fez o movimento de ir em cima de Jaylen Brown e depois voltou rapidamente para onde estava, com LeBron já voltando por ali para pelo menos confrontar uma possível infiltração.

Parecia que era uma aposta do Cavs pagar esse chute de longe de Brown mesmo. Foi uma aposta que acabou funcionando neste caso. Mas diante de adversários que imponham mais respeito na linha de três e que não for possível continuar pagando para ver esses chutes longos, daria para imaginar Hill e LeBron trocando de vez os marcadores — Hill sairia em definitivo para pegar o adversário de frente para a cesta enquanto LeBron atravessaria a quadra direto para marcar o jogador em quem Hill estava inicialmente.

Para um primeiro teste, o resultado foi excelente para o Cavs. É claro que há ainda um longo caminho pela frente e que outros sistemas ofensivos mais fortes aparecerão para testar a real capacidade desta defesa. Mas foi um prato cheio para quem ficou com a sensação de esperança renovada após todas as trocas de última hora feitas por Koby Altman.

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