A carta na manga do Rockets

Luís Araújo

Enquanto o mundo via o Golden State Warriors passar a sensação de domínio completo sobre a NBA, conquistando o título depois de sofrer uma única derrota durante a caminhada nos playoffs, Daryl Morrey tentava demonstrar a confiança que tinha de que poderia ter uma chance de vir a acabar com isso. “Temos uma carta na manga”, chegou a declarar o gerente-geral do Houston Rockets.

Podia parecer um blefe, mas não era. Essa carta na manga — ou pelo menos a principal delas, dependendo do que mais acontecer — atende pelo nome de Chris Paul. Quem planejava o perseguir no mercado de agentes livres teve de mudar de ideia às pressas. Não deu nem tempo de sonhar muito com ele. O armador decidiu exercer o último ano do atual contrato para ser envolvido pelo Los Angeles Clippers em uma troca com o Rockets por outros sete jogadores, mais a escolha de primeira rodada do Draft de 2018 — protegida para as três primeiras posições — e uma quantia em dinheiro.

De acordo com o que noticiou Adrian Wojnarowski, bem informado como ninguém sobre o que acontece nos bastidores dos times da NBA, Paul tinha um desejo muito grande de jogar ao lado de James Harden e que os dois chegaram até a conversar entre si sobre as chances de fazer essa experiência dar certo dentro de quadra. Isso, somado aos problemas de relacionamento com Doc Rivers em Los Angeles, foi a faísca para que a negociação acontecesse.

Aí foi a vez de o Rockets trabalhar para de fato viabilizar a troca. O primeiro passo foi o de colocar no pacote a caminho de Los Angeles cinco jogadores que fizeram parte do elenco na última temporada: Patrick Beverley, Lou Williams, Sam Dekker, Montrezl Harrell e Kyle Wiltjer. Depois, mandou grana para Detroit Pistons e Dallas Mavericks em troca de Darrun Hilliard e DeAndre Liggins, respectivamente, para poder incluí-los na troca por Paul. Na verdade, o Rockets ainda fez isso para ter Ryan Kelly (ex-Atlanta Hawks), Tim Quarterman (Portland Trail Blazers) e Shawn Long (Philadelphia 76ers), mas os três acabaram não sendo incluídos no negócio.

A troca só saiu mesmo por causa destas movimentações. Juntos, Beverley, Dekker, Harrell, Williams e Wiltjer somavam salários de aproximadamente US$ 16,7 milhões. Era preciso aumentar essa quantia para viabilizar o negócio, já que a NBA só permite que as trocas aconteçam quando a soma das peças envolvidas de um lado não passe em 125% do valor dos itens da outra parte envolvida. Como o salário de Chris Paul pulou para US$ 24,6 milhões, algo que o contrato dele previa em caso de troca, o Rockets precisava atingir pelo menos US$ 20,5 milhões em salários para conseguir fechar acordo. Por não estar disposto a abrir mão de Ryan Anderson, Eric Gordon, Trevor Ariza e quem mais ainda restava no grupo, Morey então fez essa série de transações paralelas para poder incluir esses novos jogadores no pacote.

Para o Clippers, foi ótimo. Havia o risco de perder uma estrela de primeiro nível por nada. Pelo menos agora há uma quantidade considerável de gente a mais no elenco e todos eles podem virar agentes livres em 2018. Dá tempo de fazer experiências destas peças novas todas ao lado de DeAndre Jordan e Blake Griffin — que já acertou a renovação com a franquia — e deixar sair de graça ao final da próxima temporada quem acabar não interessando. Mas dá para imaginar alguns deles se virando bem na nova casa. Principalmente Beverley, um excelente defensor que pode também se encaixar bem com as habilidades de Griffin do outro lado da quadra.

Para Paul, foi uma saída interessante para manter o leque aberto. Por exercer o último ano do atual contrato e pressionar o Clippers a mandá-lo para Houston, ele estará exatamente na mesma situação daqui a um ano. Aí então poderá assinar um novo acordo com o Rockets por mais de US$ 200 milhões ao longo de cinco anos ou um de quatro anos por cerca de US$ 150 milhões com algum outro time. Também vale destacar a maior flexibilidade para se juntar a LeBron James em 2018. Se permanecesse em Los Angeles ou fosse trocado logo após assinar o contrato máximo com o Clippers, Paul só poderia juntar forças com LeBron em um único lugar. Agora, eles terão a possibilidade de escolher qualquer canto que puder recebê-los.

Mas enquanto essa hora não chega, Paul tem uma temporada para descobrir se essa experiência ao lado de Harden vai funcionar ou não ao ponto de colocá-los em posição de brigar de fato pelo título. O Rockets não se importa com essa falta de garantia além de 2018 e muito menos com a grana que foi necessária gastar nos acordos paralelos todos que Morey fez para viabilizar o negócio. “Nós estamos perseguindo um dos melhores times da história do basquete”, disso o técnico Mike D’Antoni, em uma referência clara ao Warriors. Ninguém está pensando em talvez ficar em terceiro lugar se o ano for muito bom. Então nós decidimos entrar de cabeça e apostar tudo”, completou.

Resta saber se essa aposta vai dar certo. “É cedo demais para dizer que vamos fazer isso ou aquilo. Mas eu sempre achei que quantos mais armadores você tiver em quadra, melhor. E nós temos dois dos melhores, se não forem os melhores mesmo. Então nós só precisamos dar um jeito nisso. E a outra coisa boa disso é que sempre teremos pelo menos um grande armador em quadra o tempo todo, o que definitivamente é algo positivo, observou D’Antoni.

É de se imaginar mesmo que a rotação de D’Antoni seja desenhada de maneira a deixar pelo menos um deles em quadra o tempo todo. Mas o grande lance desta questão é mesmo saber como será o funcionamento das coisas quando ambos estiverem juntos em ação. Chris Paul vai jogar mais vezes sem bola no ataque e ainda assim envolver a defesa do outro lado? E James Harden?

Vale lembrar que a experiência recente do Rockets com Ty Lawson, um outro armador que tinha a fama de render bem melhor quando tinha a bola nas mãos, foi um fiasco. É justo também reconhecer que o próprio Lawson nunca mais passou perto de ser o mesmo dos tempos em que chamava a atenção no Denver Nuggets, o que sugere que tenha sido ele a variável negativa nesta equação. De qualquer forma, é importante que esse exemplo não caia no esquecimento em Houston.

Além disso tudo, Paul não é Lawson. D’Antoni se referiu a ele como o melhor armador dos últimos dez anos na NBA, coisa que não é difícil achar por aí quem concorde. As questões sobre o jogo sem bola quando ele e Harden estiverem juntos serão fundamentais neste processo, mas as habilidades diferentes dele em relação ao novo companheiro na hora de atacar a partir do “pick and roll” podem ser extremamente atraentes para o time, que terá um leque de opções mais vasto para agredir defesas adversárias.

As duas estrelas terão que abrir mão de algumas coisas dentro de quadra e provavelmente nunca mais terão o impacto individual que já tiveram um dia. Principalmente Harden, que vem de uma temporada com números tão expressivos que quase o levaram ao prêmio de MVP. É natural também que leve um tempo para que seja criado um bom nível de entrosamento e que D’Antoni tenha de pensar fora da caixa sobre algumas coisas para ampliar as chances de funcionamento desta experiência. Mas se tem uma coisa certa no meio disso tudo é que Paul é talentoso demais — e nos dois lados da quadra. Não dava para deixar uma oportunidade dessa passar.

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