A cartada certeira do Thunder por Paul George

Luís Araújo

“Eu sempre quero fazer parte de um time que tenha chance de ser campeão. Isso é importante. Podem dizer o que for, mas eu quero competir por alguma coisa. É frustrante jogar apenas por estatísticas e buscar números para poder se exibir. Eu quero ter a chance de jogar por quem disputa o título.”

Essas palavras foram ditas por Paul George em uma entrevista em fevereiro à rádio da ESPN dos Estados Unidos. Foi o primeiro grande sinal de que os dias em Indiana estavam contados. Diante desta linha de raciocínio dele, já seria muito difícil imaginar o Pacers convencê-lo a permanecer depois de julho de 2018, quando ele irá se tornar um agente livre — caso realmente decida não exercer a “player option”, o que muito provavelmente acontecerá.

As chances ficaram ainda menores quando a NBA anunciou os três quintetos ideais da temporada 2016/17. Caso aparecesse em um deles, George estaria apto a assinar a extensão salarial máxima quando o atual acordo chegar ao fim. Por tê-lo selecionado, o Pacers poderia oferecer neste cenário US$ 207 milhões por cinco anos, ao passo que o máximo que qualquer outro time teria condição de colocar na mesa seria uma oferta de US$ 132 milhões por quatro anos.

Como isso não aconteceu, a situação de George continua aberta. Para chegar a 2018 podendo renovar pelo maior salário possível com o Pacers, ele precisaria aparecer em um destes quintetos, ganhar o prêmio de melhor defensor ou ser eleito MVP no próximo campeonato. Poderia acontecer? Claro, tem muita coisa para rolar até lá. Mas também é possível que nada disso ocorra, o que impediria o jogador de abocanhar esse novo contrato de US$ 207 milhões por cinco anos e, por consequência, deixaria a franquia sem um trunfo importante, já que a diferença de grana que poderia oferecer em relação a outros times não seria tão absurda assim.

Esses elementos todos já seriam o bastante para que fizesse sentido o Pacers buscar uma troca envolvendo George para não perdê-lo de graça em 2018. Mas as coisas ficaram piores ainda depois que vazaram os rumores sobre a vontade dele de se juntar ao Los Angeles Lakers em 2018. De repente, uma franquia que já estava em uma situação nada confortável e cheia de incertezas passou a se ver praticamente sem poder algum de negociação. Para o Lakers, seria bobagem enviar um pacote com peças valiosas por um jogador que iria para lá de qualquer jeito como agente livre. Para as outras equipes, a chegada dele seria — pelo menos em um primeiro momento — simplesmente um aluguel por um ano.

Não foi à toa que o nome de George passou a entrar em uma série de rumores de troca assim que a temporada acabou. O Draft passou e nenhuma negociação saiu, mas continuava parecendo que era só uma questão de tempo. Não deu outra. Poucas horas antes da abertura do mercado de agentes livres, a ESPN dos Estados Unidos cravou que o Pacers aceitou mandá-lo ao Oklahoma City Thunder por Domantas Sabonis e Victor Oladipo.

Assim que essa notícia saiu, vieram à tona algumas revelações sobre outras ofertas que o Pacers rejeitou. Uma delas era um pacote do Boston Celtics envolvendo escolhas de Draft, Jae Crowder e mais um titular. Havia também uma do Portland Trail Blazers que diziam ser melhor que a do Thunder — apesar de as peças envolvidas não terem sido divulgadas. De qualquer maneira, não chega a ser muito difícil de se acreditar nisso. Dá para torcer bastante o nariz para o que foi obtido nesta troca por George.

Sabonis até mostrou algumas coisas boas na temporada de novato e tem tudo para crescer na sequência da carreira, principalmente se passar a ter a chance de ser mais acionado ofensivamente. Mas não parece ser talentoso o bastante para compensar a ausência de uma escolha de Draft nesta troca e, principalmente, o contrato de Oladipo, que receberá US$ 21 milhões por ano até julho de 2021. Em outras palavras, ao abrir mão de um dos melhores jogadores da liga, o Pacers não recebeu tanto potencial assim e assumiu um compromisso consideravelmente longo com alguém que ainda precisa se desenvolver demais para justificar um salário tão gordo.

Para o Thunder, o negócio foi uma maravilha. Mais ou menos como será o caso de Chris Paul com James Harden no Houston Rockets, muita coisa precisará ser ajustada para que George e Russell Westbrook funcionem juntos da melhor maneira possível, reduzindo ao máximo as redundâncias entre eles. Na pior das hipóteses, pelo menos as defesas adversárias terão agora uma outra grande ameaça com quem se preocupar nas vezes em que o MVP partir alucinadamente em direção à cesta, coisa que deve favorecer bastante o espaçamento do ataque. No outro lado da quadra, George é competente e versátil demais para se encaixar em um sistema defensivo que foi um dos dez mais eficientes da NBA na última temporada.

Se essa experiência der certo, ótimo. Aí o Thunder chega ao final da próxima temporada com alguma chance de que George mude de ideia e aceite assinar um novo acordo com a equipe. Caso ele realmente resolva sair em 2018, pelo menos Sam Presti vai ter conseguido fazer duas coisas importantes: mostrado a Westbrook a intenção de reforçar o elenco em volta dele e, principalmente, se livrado do salário de Oladipo, deixando a folha salarial um pouco menos engessada e criando alguma flexibilidade que não existia para os próximos anos.

O trabalho está só começando, ainda há muita coisa para Presti resolver. Taj Gibson virou agente livre e é, disparadamente, a melhor opção para morder a maior parte dos minutos na posição quatro. Andre Roberson é outro titular que tem situação indefinida. Se ambos renovarem, a folha salarial vai ultrapassar a “luxury tax”, que será de US$ 119 milhões em 2017/18. Será que o Thunder vai aceitar essa condição, o que significa pagamento de multa à NBA? Algum outro jogador do elenco será negociado para dar uma aliviada na folha salarial? Enes Kanter, talvez? Ou serão encontradas alternativas mais baratas do que Gibson e Roberson?

Como se pode observar, sobram dúvidas para o Thunder. Mas essa etapa da construção do elenco da próxima temporada começou com uma jogada certeira. Afinal de contas, não é todo dia que aparece pela frente uma troca que tem tudo para dar bons frutos mesmo se acontecer o pior cenário possível. Era uma chance valiosa demais para deixar passar. Principalmente por envolver um jogador do nível de Paul George.

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