A cartada do Pelicans com Mirotic e o “tank” do Bulls

Luís Araújo

Depois de tomar um soco no rosto de Bobby Portis que o deixou com uma fratura na mandíbula e o afastou das quadras por cerca de um mês e meio, Nikola Mirotic voltou a tempo de conduzir o Chicago Bulls a uma série de sete vitórias consecutivas. A sequência já seria notável de qualquer jeito, mas chamou ainda mais a atenção por se tratar de um time que havia perdido 20 dos 23 jogos que fizera na temporada até então.

Não é que Mirotic tenha sido o único motivo por trás disso, mas dá para atribuir a ele uma parcela bem significativa desta transformação. Nas 25 partidas em que contou com ele nesta temporada, o Bulls tem campanha de 14 vitórias e 11 derrotas. Pode até não ser nada de outro mundo, mas pelo menos é um aproveitamento de time que briga por playoffs no Leste e que também representa uma melhora absurda em relação ao que vinha sendo apresentado antes.

Não é coincidência. O ala-pivô estava em seu melhor momento desde que chegou à NBA, em 2014, o que passa basicamente pela evolução nas finalizações. O aproveitamento nos tiros de longa distância subiu para 42,9%, passando da casa dos 40% pela primeira vez. Até por causa disso, os índices de 58,8% em eficiência nos chutes (que dá um peso maior às bolas de três) e de 62,5% em “total shooting” (que soma todos os tipos de arremessos que um jogador pode dar em quadra) também são recordes dele na NBA até agora.

Isso tudo só passou a fazê-lo ser considerado uma moeda de troca cada vez mais valiosa e mais óbvia para um time que, apesar da melhora, não tinha aspiração alguma de chegar aos playoffs e que está mais interessado mesmo é em uma escolha alta de Draft. De acordo com o que contou John Paxson, presidente do Bulls, enquanto Mirotic mostrava essa evolução dentro de quadra a cada partida pelo time, fora dela seus representantes deixavam claro a vontade de que ele fosse negociado.

Esse desejo acabou sendo atendido no fim das contas. O Bulls o mandou ao New Orleans Pelicans ao lado de uma escolha de segunda rodada do próximo Draft. Em troca, recebeu o pivô Omer Asik, o ala Tony Allen, o armador Jameer Nelson e uma escolha de primeira rodada do Draft deste ano. E para o negócio sair mesmo, duas outras coisas precisaram acontecer. Uma foi o Pelicans garantir que exerceria a “team option” no contrato do ala-pivô para a próxima temporada, fazendo com que ele vire agente livre de novo só em julho de 2019. Outra foi o Bulls dispensar o ala Quincy Pondexter — de contrato expirante — para abrir espaço no elenco para o trio que estava em Nova Orleans.

Essa escolha de primeira rodada é o grande atrativo para o Bulls no negócio. Era isso o que John Paxson e companhia buscavam por sua principal moeda de troca. Ela tem proteção para as cinco primeiras posições no Draft deste ano e tem algumas outras restrições entre as primeiras posições pelos anos seguintes. Se não sair até 2021, então essa escolha vai se transformar em duas de segunda rodada para serem usadas em 2022 e 2023. Mas é muito provável que isso tudo não passe nem perto de acontecer. Ainda que o Pelicans caia de rendimento nas próximas semanas e fique fora dos playoffs, a campanha não será ruim o suficiente para que essa escolha fique entre as cinco primeiras posições. O Bulls deverá aproveitá-la já neste anos mesmo.

O Pelicans não tinha mesmo outra escolha que não fosse abrir mão de uma escolha de primeira rodada para tentar reforçar o elenco imediatamente. Por motivos relacionados a Anthony Davis, já descritos por aqui no texto sobre a lesão de DeMarcus Cousins, a franquia já tinha uma mentalidade toda voltada a resultados no presente. É compreensível que o senso de urgência tenha ficado ainda maior depois da baixa do pivô.

Não dá para dizer que essa movimentação resolve todos os problemas que apareceram para o time depois da lesão de Cousins. Davis ainda vai ter de jogar na posição cinco praticamente o tempo todo em que estiver em quadra. Por mais que Mirotic seja mais alto e mais capaz de executar a posição cinco do que Dante Cunningham nos momentos em que Davis estiver no banco, o técnico Alvin Gentry continuará tendo problemas quando quiser usar alguém que seja realmente um pivô. Com a saída de Asik, que já vinha contando muito pouco com a confiança do treinador, a única opção é Cheick Diallo, que estava ainda menos prestigiado do que o turco na rotação. Seria ótimo se Greg Monroe, que rescindiu com o Phoenix Suns, fosse mesmo contratado. Aí muito buraco deste quebra-cabeça seria tapado. Mas o namoro não deu em casamento. O pivô acabou assinando com o Boston Celtics.

Além de saber até que ponto Mirotic poderá ajudar essa carência de gente para o garrafão nos minutos sem Davis, será importante também observar o tamanho do papel que ele conseguirá assumir ofensivamente durante esse descanso da principal estrela da companhia. Quanto melhor ele responder, mais segurança Gentry terá. De qualquer maneira, é uma aquisição representa um acréscimo no nível geral de qualidade da equipe, que ganha alguém capaz de colocar a bola dentro da cesta e de ajudar a abrir a quadra com arremessos de longa distância.

Na esteira de toda essa melhora no aproveitamento dos chutes nesta temporada, Mirotic aparece em uma estatística muito interessante: de acordo com dados do Synergy Sports Tech, ele tem sido o quarto arremessador mais eficiente em situações de “spot-up” (que recebe a bola parado em uma região da quadra para daí partir para a definição), atrás só de CJ McCollum, Kyle Korver e Patty Mills. Pode até ser que isso não se mantenha a esse nível no decorrer do campeonato, mas é um desempenho bom demais para ser desprezado e que pode ser especialmente explorado durante o tempo em que dividir a quadra com Davis.

Em termos técnicos, mesmo que ainda existam alguns pontos de dúvida, está claro que o Pelicans parece ter ficado melhor de uma maneira geral. Sob o aspecto financeiro, não foram feitos grandes sacrifícios. Na verdade, dá até para dizer que foi um grande alívio poder despachar o contrato de Asik, que até tem um salário anual um pouco menor do que Mirotic, com uma diferença de quase US$ 2 milhões, mas era uma peça de pouquíssima utilidade ao elenco.

Foi uma boa cartada para uma franquia que precisa continuar buscando dar sinais de maior competitividade a Davis, só que o trabalho ainda não parece estar totalmente acabado. A intenção da franquia ao enviar os contratos baixos e expirantes de Nelson e Allen era abrir espaço no elenco para a chegada de Monroe, mas como o pivô resolveu ir para Boston, alguma outra solução deverá ser encontrada nos próximos dias.

Para os lados do Bulls, troca não só serve para dar uma escolha a mais de primeira rodada no próximo Draft como também favorece as chances de deixar a própria escolha em uma posição melhor. Afinal de contas, a expectativa agora é que o “tank” deslanche de vez. Então são dois objetivos que vão ao encontro da filosofia da franquia neste momento. Se uma estrela do porte de Jimmy Butler foi negociada há alguns meses em nome de uma renovação, fazia sentido seguir o mesmo caminho com Mirotic.

O contrato de Asik não é um problema, já que a folha salarial da equipe era a menor da NBA antes da troca e estava abaixo do mínimo permitido — mesmo ainda pagando pouco mais de US$ 18 milhões a Dwyane Wade e a Rajon Rondo. Ou seja: é uma grana que seria desembolsada de qualquer maneira. Allen será cortado e poderá assinar com algum outro time que deseje se reforçar para os playoffs, mas Nelson deverá mantido em Chicago pelo restante da temporada para servir como uma espécie de mentor para os jovens do elenco.

O que fica um pouco mais difícil de se compreender nesta história é por que o Bulls precisou enviar também uma escolha de segunda rodada. É a mesma coisa que aconteceu na negociação envolvendo Jimmy Butler, quando enfiou também a escolha de número 16 no pacote para o Minnesota Timberwolves. Times em reconstrução deveriam trabalhar para aumentar a quantidade deste tipo de ativo, não simplesmente trocá-los.

Apesar desta ressalva, foi uma troca que satisfez todos os envolvidos. Mesmo com algumas dúvidas ainda a serem respondidas dentro de quadra, o Pelicans parece mais forte para se manter na zona de classificação aos playoffs neste restante da temporada. O Bulls amplia o “tank” e agora conta com uma escolha a mais de primeira rodada no próximo Draft. E Mirotic se muda para uma nova casa, atendendo a um desejo que seus representantes tanto expressavam a John Paxson. Resta agora descobrir se ele realmente vai manter essa crescente que vinha mostrando.

Tags: , , , , , , ,

COMPARTILHE