César Guidetti, a condição de interino na seleção e o valor da Copa América

Luís Araújo

Depois de muito tempo, restando já menos de um mês para o começo da Copa América, a CBB anunciou o substituto de Rubén Magnano no cargo do de treinador da seleção brasileira masculina. O escolhido foi César Guidetti, que comandou o Pinheiros à semifinal do último NBB — passando no caminho pelo Flamengo, em uma das grandes histórias do campeonato em todos os tempos e que ganhou texto por aqui na época. Bruno Savignani, técnico do Brasília, e Felipe Santana, do Palmeiras, serão os auxiliares.

É natural que muitas dúvidas apareçam em torno do nome de Guidetti. Seria assim com qualquer um que viesse a assumir esse cargo mesmo. A trajetória como treinador principal ainda é curta e faz sentido que se questione como seria a relação dele com os jogadores considerados pesos pesados da seleção. Mas é um técnico de ideias muito boas para os dois lados da quadra e que mostrou capacidade interessante de fazer ajustes, especialmente durante essa caminhada do Pinheiros nos playoffs da última temporada do NBB. É muito melhor um sujeito com esse perfil do que alguém com pensamentos retrógrados ou que estivesse há um tempo sem treinar equipe nenhuma.

“Ele fará um bom trabalho na Copa América. Estamos na torcida por ele. É uma das pessoas que melhor desempenharão esse papel”, disse ao Triple-Double o ala-pivô Marcus Toledo. O jogador é uma das novidades do Pinheiros para a próxima temporada e terá a oportunidade de reencontrar o treinador, mas já trabalhou com ele na sua passagem pelo time paulista há dois anos, quando Guidetti ainda era assistente.

Mas há muitas coisas importantes a serem pontuadas a partir do anúncio da CBB. A principal delas é que tanto Guidetti como todos os outros auxiliares assumem na condição de interinos. Como a Copa América não garante mais a vaga para o próximo Mundial, a ideia é utilizá-la para dar inicio a um processo de renovação da seleção, dando bagagem internacional para jovens que têm chamado a atenção e, assim, ampliar o leque de convocação para quando chegar a hora de encarar desafios mais importantes — algo que o próprio Guidetti deixou claro em entrevista ao UOL Esporte. Isso tudo significa que a competição continental do mês que vem será um teste não só para os jogadores que forem convocados, mas também para toda a comissão técnica.

Outro ponto que merece reflexão passa por algumas caras conhecidas da seleção: José Neto, Gustavo de Conti e Demétrius Ferracciú. É mais do que justo questionar os motivos pelos quais a CBB não considerou os nomes destes três, que trabalharam por um tempo ao lado de Rubén Magnano. Todos eles tiveram ótimos trabalhos à frente dos seus clubes nos últimos anos, e essa experiência em grandes competições pela seleção brasileira é valiosa demais. Qualquer um deles poderia ter sido escolhido. Em termos de bagagem para assumir um cargo tão importante, são técnicos que aparecem acima de Guidetti.

Ainda assim, não quer dizer que a nomeação de um destes três seria obrigatória. É claro que a CBB tem o direito de escolher quem bem entender com base no que julga ideal para o plano que traçou. Se as pessoas por trás da decisão chegaram à conclusão de que as ideias de Guidetti faziam mais sentido para o que se deseja colocar em prática, se ele for mesmo quem melhor atende ao perfil traçado para a função, que ele tenha então a chance de mostrar trabalho. Vale a pena repetir: é melhor que seja um sujeito de cabeça arejada e pensamentos modernos do que alguém ultrapassado.

A questão é exatamente essa: é preciso que a CBB, agora sob nova gestão, realmente esteja dando passos calculados para que isso tudo faça sentido. Seria uma ótima maneira de começar o ciclo olímpico, especialmente para uma seleção que precisa desesperadamente ampliar o número de opções convocáveis para competições importantes. Isso passa também por uma avaliação justa do trabalho de Guidetti. Na hora de julgar o que vier a acontecer, é fundamental ponderar o pouco tempo de preparação e as dificuldades de começar do zero uma equipe formada por jovens praticamente sem bagagem internacional. Seria errado olhar só para o resultado final e condicionar a isso a sequência do trabalho.

Mas caso Guidetti tenha sido uma indicação apenas para que a seleção tenha uma figura qualquer à beira da quadra para uma competição que agora não leva mais ao Mundial, aí é perda de tempo. Por mais que o anúncio tenha deixado claro que se trata de um técnico interino, só vai dar para levar todo esse processo a sério se a CBB de fato estiver considerando deixá-lo de vez na função após a Copa América e souber como realmente interpretar o que for apresentado dentro de quadra. Coisa que só poderemos saber com o tempo.

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