Clássico Ginóbili

Luís Araújo

Um corte em velocidade contra uma defesa ainda desarrumada a partir de um passe de Jonathon Simmons terminou em uma enterrada com a mão direita. Esse lance, ainda no começo do segundo quarto, já fez despertar a sensação de que Manu Ginóbili tinha voltado no tempo. “Como é possível esse homem ter 39 anos de idade?”, questionou o narrador Marv Albert durante a transmissão da TNT.

“Foi uma jogada inesperada demais”, admitiu o argentino após a partida. “Não sei o que aconteceu, eu só quis partir com força em direção o aro”, completou.

Aquilo foi só o começo. A série de acontecimentos ao longo dos minutos seguintes fez com que Ginóbili tivesse uma carga de protagonismo cada vez maior e terminasse o jogo como o grande herói da vitória do Spurs, que agora está a um passo de voltar a disputar a final da Conferência Oeste.

O ápice, é claro, foi o toco em cima de James Harden no último lance da prorrogação.

Fazia mais de um ano que Ginóbili não dava um toco. Em cima de Harden, então, isso nunca tinha acontecido antes. Mas ele entendeu que era a hora perfeita para tentar mudar isso. “Eu sei de qual ponto ele costuma soltar a bola quando arremessa. Ele estava bem próximo a mim, então tentei atrapalhar o máximo que pude e ficar perto da bola. Foi uma ação muita arriscada, mas também seria arriscado da minha parte deixá-lo chutar”, comentou.

Além do toco decisivo, o argentino anotou 12 pontos, pegou sete rebotes e deu cinco assistências durante os 31 minutos em que permaneceu em quadra. Mais importante do que esses números todos foi a capacidade de exercer papeis decisivos nos dois lados da quadra, executando boas ações na defesa e assumindo uma postura agressiva no ataque para ajudar a compensar a ausência de Kawhi Leonard, que sentiu uma lesão no tornozelo e ficou fora de toda a prorrogação.

No lance a seguir, por exemplo, Ginóbili passou por trás de um bloqueio que Clint Capela fez para Harden. Mas conseguiu voltar a se aproximar e contestar o arremesso, apesar do “stepback“.

Pouco depois disso, Ginóbili aproveitou que a defesa do Rockets não conseguiu ficar sem trocar a marcação após o bloqueio e explorou bem o “mismatch” contra Capela, anotando dois pontos em um momento crucial para as chances do Spurs na partida.

Teve também esse roubo de bola em um passe de Harden que tinha as mãos de Ryan Anderson como destino. É importante reparar que faltava pouco mais de um minuto para o fim da prorrogação e que o Rockets estava um ponto à frente. Uma bola de três ali poderia deixar as coisas extremamente complicadas para o Spurs.

“O que Manu nos deu foi uma atuação de Manu do passado”, afirmou o técnico Gregg Popovich. “Nós recorremos a ele depois que Kawhi precisou sair de quadra para gerar algum poder de fogo no ataque e fazer as coisas acontecerem. Ele entregou um grande trabalho, seja distribuindo a bola ou pontuando. Foi um fator gigantesco para a gente.”

A exemplo de Ginóbili, Jonathon Simmons também fez 12 pontos em 31 minutos e ganhou o reconhecimento de Popovich. Muito mais pelo trabalho que entregou na defesa do que qualquer coisa relacionada à produção ofensiva. “É óbvio que ninguém gosta de marcar Harden, mas entendo que Kawhi e o Simmons fizeram um grande trabalho em cima dele nesta partida”, observou o treinador.

Há um dado curioso que serve para reforçar o comentário de Popovich. Levando em conta a reta final do último quarto e os cinco minutos da prorrogação, Harden cometeu quatro desperdícios de posse de bola. O principal defensor dele em todos esses lances era justamente Simmons.

Um destes lances aconteceu em um momento crucial do último quarto, forçando uma falta de ataque e impedindo que o Rockets assumisse a liderança.

O vídeo a seguir termina com um “floater” de Simmons que não deu certo, mas vale a pena observar o desarme em Harden antes disso. Foi algo que voltou a acontecer alguns minutos mais tarde, contribuindo para que o principal jogador do Rockets tivesse um desempenho para se esquecer na prorrogação.

Uma série de outros fatores foram determinantes para que os comandados de Popovich pudessem superar a lesão de Kawhi Leonard e conquistar essa importante vitória dentro de casa. Os vários rebotes de ataque, as finalizações bem-sucedidas de Danny Green e as decisões equivocadas tomadas por Harden pesaram demais na reta final.

Mas não tem jeito. A grande história do quinto duelo desta série entre Spurs e Rockets foi Ginóbili aparecendo para o resgate e refrescando a memória de quem possa ter esquecido o grande gênio que ele é. “Manu é um dos maiores competidores e um dos maiores vencedores de todos os tempos. E o que ele fez hoje foi nos ajudar mais uma vez a ganhar”, resumiu Popovich.

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