A combinação de talento, intensidade e excessos de Garnett

Luís Araújo

Rick Mahorn deixou a fama de durão um pouco de lado e derrubou lágrimas no documentário “Bad Boys” ao se lembrar de quando foi para o Minnesota Timberwolves. Por mais que possa ter surpreendido, a reação é compreensível. Em um momento, ele fazia parte de um grupo de jogadores unidos por um sentimento de irmandade e acabara de ser campeão da NBA. Logo em seguida, viu-se selecionado no Draft de expansão por uma franquia caçula na liga e forçado a sair de onde se sentia tão bem.

O destino acabou o carregando para um outro lugar. Mahorn foi trocado para o Philadelphia 76ers antes mesmo de entrar em quadra pelo time que o havia tirado do Detroit Pistons. Poderia ter sido o primeiro símbolo marcante na história do Timberwolves? Vai saber. Ainda que fosse, porém, algo muito maior estava guardado para 1995. Foi quando Kevin Garnett saiu direto do colegial para enterrar qualquer desconfiança que poderia existir em torno de alguém tão jovem e começar a criar um grau especial de identificação, daqueles que não acontecem com facilidade por aí.

Foram 21 temporadas de uma carreira que começou e terminou em Minnesota, com passagens também por Boston e Brooklyn. O talento e a versatilidade para se destacar em meio aos jogadores da sua posição nos dois lados da quadra formaram uma combinação especial, mas não dá para ignorar nesta equação a absoluta entrega ao basquete. Coisa que o próprio Mahorn tratou de observar.

“O que mais me impressiona nele é a maneira como ele aborda o jogo, deixando os apertos de mão de lado e mantendo o foco o tempo todo. Esse comportamento dele é que me chamava a atenção. Ele não ia jogar bola. Ia trabalhar. Eram mesmo negócios. Foi isso o que amei nele. Era alguém que não ligava para as amizades, e sim para a competitividade, o foco e as coisas necessárias para se vencer na liga. Era da ética de trabalho dele que eu gostava”, afirmou Mahron, em entrevista à rádio SiriusXM.

“Ele nunca faria como Kobe Bryant, não passaria um último ano relaxando”, prosseguiu Mahorn, já falando sobre a aposentadoria de Garnett. “Ele é um competidor. É como Tim Duncan. Alguém que vai embora quieto e que deixa a gente falar. São caras que deixam para a gente a tarefa de dar a glória a eles e de colocá-los entre os melhores alas-pivôs da história da NBA, como jogadores assustadores e icônicos”, completou.

Falar do quanto Garnett jogou é chover no molhado. Foi mesmo um dos melhores alas-pivôs que a NBA já viu, com movimentos precisos para criar oportunidades de pontos perto e longe da cesta, usando a altura e a mobilidade para tirar os oponentes do caminho e aproveitando justamente essa condição atlética privilegiada para encarar qualquer desafio na hora de marcar — ou algo perto disso. Mas não era só isso. O senso de posicionamento e a comunicação com os companheiros também o tornavam especial. É justo, sim, colocá-lo também entre os grandes defensores de todos os tempos.

Tão evidente quanto isso tudo é a identificação dele com o Timberwolves. O único anel de campeão foi conquistado no Boston Celtics. A trajetória lá foi especial, claro, tendo o levado às finais de 2008 e 2010 — e poderiam ter sido três decisões seguidas se uma lesão no joelho não tivesse o afastado dos playoffs de 2009. Mas é inegável que os melhores dias dele foram mesmo em Minnesota, onde se sagrou MVP e fez a franquia viver sua fase mais vitoriosa até agora.

Tudo isso foi acompanhado de uma intensidade fora do comum. Era algo que fazia parte da personalidade dele e que certamente o ajudou, motivando-o a extrair o melhor que poderia oferecer dentro de quadra e fortalecendo essa identificação com os torcedores. A essência ultra competitiva o levou a formar essa imagem que ele construiu enquanto jogador.

Por outro lado, esse mesmo aspecto da personalidade o fez extrapolar o bom senso, cruzando diversas vezes a linha tênue entre a provocação e o desrespeito. Não faltaram episódios do tipo ao longo destas 21 temporadas.

Certa vez, ele deu um tapa nas partes íntimas de Channing Frye enquanto o rival tentava um chute de três. Em outra oportunidade, chamou Charlie Villanueva, que é portador de uma condição que o faz perder os pelos do corpo, de “paciente com câncer”. Teve também o caso com Carmelo Anthony, que perdeu o controle e o perseguiu depois de uma partida em Nova York após ouvir algumas ofensas à sua mulher. Isso sem falar em vários bloqueios ilegais e outros lances sujos que acabaram passando batido pelos árbitros.

O amor de Garnett pelo jogo é o tipo de coisa que une um profissional muitíssimo bem pago aos tantos cidadãos comuns que são apaixonados pelo basquete ao redor do mundo. Mas levar o nível surreal de competitividade dele enquanto atleta apenas para o lado romântico da coisa seria um erro porque isso também o fez ser babaca por muitas vezes, nas quais o “trash talk” resultou em deslealdade.

Não é também que não havia um coração ali. Tem o outro lado da balança. Aquele abraço em Kevin McHale logo depois de o então treinador do Houston Rockets perder a filha, por exemplo, foi espetacular. Vale ainda ressaltar que muita gente ao redor da NBA reagiu à aposentadoria dele com palavras doces. Chauncey Billups chegou a classificá-lo como um companheiro altruísta e um ótimo líder. Os jovens que hoje fazem parte do Timberwolves também pareceram estar se despedindo de alguém querido, e não de um pentelho.

Ter passado do ponto diversas vezes como jogador não quer dizer que Garnett seja necessariamente um cidadão desprezível. Aliás, quem pode fazer esse tipo de julgamento? Nós, daqui de longe, sem conhecê-lo enquanto pessoa, certamente não. O que está ao nosso alcance é apenas olhar o que foi construído ao longo destas 21 temporadas e a maneira como tudo se desenrolou.

A intensidade foi realmente determinante para que ele se colocasse entre os grandes gênios do basquete em todos os tempos. A energia, os berros, o olhar feroz e a ética de trabalho o impulsionaram em toda santa partida. Mais do que isso: o fizeram carregar um espírito vencedor por onde passasse. Mas os excessos que resultaram em condutas questionáveis, ainda que não ofusquem o seu gigantesco talento, acabaram compondo uma parte representativa da trajetória de Garnett pela NBA.

Que fique claro: as imperfeições são comuns a quase todos os grandes personagens deste esporte que tanto amamos. Algumas delas têm até participação fundamental no impacto do jogador, como foi com o próprio Garnett. Aí vai de cada um interpretar o quanto e se de fato elas afetam na hora de se admirar aquele determinado atleta.

Tags: , , , ,

COMPARTILHE