Como a WNBA mudou nos últimos anos

Autor Convidado

* Texto enviado por Roberta Rodrigues

No dia 13 de abril, a WNBA realizou o Draft de 2017, em Nova York. Diferente de todas as edições já recepcionadas pela entidade, o evento deste ano teve como sede o Samsung 837, um espaço-conceito da empresa de eletrônicos, localizado no Chelsea, bairro de alta-classe em Manhattan.

A decisão do novo local e formato do processo de seleção do futuro do basquete profissional vai ao encontro do que Lisa Borders, presidente da organização desde fevereiro de 2016, disse em uma transmissão ao vivo do Facebook em comemoração aos seus 365 dias como comandante: a WNBA é uma liga de entretenimento.

Essa afirmação chegou a deixar torcedores desconfiados. Uma parte importante da base de espectadores – principalmente os “season ticket holders”, que compram ingresso para uma temporada inteira – passou a se perguntar se Borders realmente tinha noção do que estava dizendo e até mesmo duvidar de seu comprometimento com o basquete como um esporte em si.

Isso se deve ao fato de que o publico fiel da WNBA pode ser divido em dois grupos: um composto por torcedores locais, que acompanham seus times desde suas temporadas mais longínquas – ou seja, mais tradicionais; o outro, pelos jovens que foram atraídos pela geração do Draft de 2013, quando Brittney Griner, Elena Delle Donne e Skylar Diggins entraram na liga profissional.

O trio mencionado acima foi um fenômeno completamente novo para o campeonato àquela época. Apesar de não ser o trio de primeiras escolhas mais talentoso da história do torneio, as garotas já começaram a vida profissional com uma carga midiática muito forte. Mesmo como universitárias essas jogadoras eram vividamente acompanhadas pela imprensa e por fãs nas redes sociais. Skylar Diggins, inclusive, ainda usando o uniforme da Universidade de Notre Dame, era a atleta do sexo feminino com mais seguidores no Twitter.

Brittney Griner, pivô de 2,03m foi uma voz ativa para as questões LGBTQ, e a liberdade com a qual expressava sua orientação sexual chamou a atenção de um publico que não necessariamente tinha como interesse prioritário o seu talento com o basquete. Chegou a lançar um livro (“In My Skin”), no qual relata a dificuldade de crescer como uma mulher homossexual, principalmente estudando em uma faculdade cristã (Universidade de Baylor). Isso tudo sem contar o fenômeno que se tornou por enterrar facilmente.

Os anos anteriores a Griner, Delle Donne e Diggins viram jogadoras do mais altíssimo nível do basquete feminino ser escolhidas no Draft. Lauren Jackson (2001), Sue Bird (2002), Diana Taurasi (2004), Seimone Augustus (2006), Candace Parker (2008) e Maya Moore (2011) são só alguns dos exemplos. Porém, ainda quando universitárias essas mulheres não tinham o que as da geração de 2013 tinham: as redes sociais em plena ascensão, os movimentos pelos direitos LGBTQ em um dos seus melhores momentos, e o escalado retorno dos movimentos em prol do empoderamento feminino.

Depois do Draft de 2013 a WNBA viu jovens muito talentosas entrando em seu rol de estrelas. Porém, elas ofereciam à liga muito mais do que isso. Em 2014, por exemplo, a primeira escolha foi Chiney Ogwumike. Além do fato de que a formanda da Universidade de Stanford se juntou à sua irmã como a única família a ter um casal de irmãos como first pick em uma liga profissional dos Estados Unidos desde os irmãos Manning na NFL, a ala foi responsável por atrais os seus dezenas de milhares de seguidores da universidade, onde era um dos ícones da “nerd nation”, para a liga.

Neste mesmo ano, Shoni Schimmel, a armadora da Universidade de Louisville, foi escolhida na oitava posição, pelo Atlanta Dream. A jovem, na faculdade, já era ícone da luta pelos direitos dos “native americans” (descendentes dos índios que estavam em terras americanas antes da chegada dos europeus) nos Estados Unidos e celebridade nas redes sociais. Um dos efeitos de sua presença na equipe da Geórgia foi a criação da Native Night, que homenageava essa etnia e atraiu esse público – que comprou ingressos e produtos do time – para uma noite na Phillips Arena.

Em 2015, o Seattle Storm escolheu Jewell Loyd, armadora campeã da Universidade de Notre Dame que também era destaque com o público jovem. Hoje, Loyd, uma jogadora mais “low key” nas redes sociais em contrapartida às garotas de sua geração, é quem está em um outdoor da Times Square, 24 horas por dia, sete dias por semana. Não é Sue Bird nem Diana Taurasi. É Jewell Loyd, que vai entrar, agora em seu terceiro ano como profissional. E não é um anúncio relacionado a basquete – é sobre seguros. Ou seja, um público mais a ser atingido e atraído.

O ano de 2016 foi mais um marco para a WNBA, dessa vez na história do Draft. Desde 2008, quando Candace Parker foi a primeira escolha, não se via uma expectativa tão grande em relação ao evento. Isso se deu porque a “prospect” número um era Breanna Stewart, primeira jogadora na história da NCAA a ganhar quatro títulos seguidos com a sua faculdade.

A cobertura do Draft não foi somente na semana do evento, como costuma se comportar a imprensa tradicional, que normalmente não se importa com o desenrolar do basquete feminino como um todo, somente a conclusão. Foi diferente, porque Breanna Stewart é diferente. Indo contra uma tendência muito forte na modalidade masculina, a ala/armadora – que também atua confortavelmente como pivô – não abriu mão de seus quatro anos na Universidade de Connecticut para virar uma profissional mais rapidamente.

Stewart ficou os quatro anos sob o comando de Geno Auriemma, e fez história. Do fim do seu terceiro ano na faculdade – quando definiria o seu destino – até o fim da sua carreira universitária – quando se consagrou campeã pela quarta vez – a imprensa acompanhou de perto seu desenvolvimento. Como consequência, a jovem teve grande visibilidade na mídia, além de sua credibilidade como uma das maiores da história da NCAA atrair ainda mais fãs aos basquete feminino.

Sem surpresas, Breanna foi a primeira escolha do draft pelo Seattle Storm. A equipe já havia se estruturado para receber sua terceira grande primeira escolha (já tinham experiência com esse calibre por Lauren Jackson e Sue Bird) e não poupou em usar sua imagem para garantir um grande público na Key Arena. Individualmente, Stewart já garantia contratos com gigantes como Nike e Skittles.

O papel de Breanna Stewart como a cara da nova geração do basquete feminino, porém, não se reduz a isso. Até ela, as jogadoras que chegavam na WNBA se destacavam ou por jogar bem, ou por ter voz ativa em questões sociais. A primeira escolha do draft de 2016 tinha ambos muito fortemente ao seu favor.

No mesmo ano, recebeu o prêmio de Atleta do Ano no ESPY’s (principal premiação do esporte, promovido pela ESPN), derrotando Elena Delle Donne Katie Ledecky e, sim, Simone Biles. Seu discurso foi um forte protesto contra a imprensa esportiva, que ignora as modalidades femininas.

Um ano depois, a ESPN fez algo nunca antes visto na história da cobertura esportiva profissional: depois das semifinais da NCAA feminina, dedicou uma noite inteira à cobertura do Final Four das mulheres. Foi uma das noites com o maior índice de audiência do canal.

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