Como a defesa de Bauru ganhou a série contra Franca

Autor Convidado

* Texto enviado por Vinícius Guimarães

Leandrinho, Léo Meindl, Jefferson, Rafael Mineiro, Rafael Luz e Gruber. Com a chegada do patrocínio do SESI, o orçamento de Franca para a temporada 2017/18 do NBB foi astronômico. Seis novos jogadores foram contratados, todos com passagem pela seleção brasileira na carreira. A equipe era uma das favoritas ao título, mas foi varrida pelo Bauru na primeira série que disputou. Nem o torcedor bauruense mais otimista poderia imaginar que esse seria o resultado da série. Nem mesmo os jogadores do Dragão esperavam que o confronto terminaria em três jogos. Bauru fez o inesperado e o inimaginável.

Quatro jogadores de Bauru aparecem no top 10 dos arremessadores de três pontos nas quartas de final. Matulionis e Isaac tiveram os dois melhores aproveitamentos entre todos os atletas, com 64% e 57%, respectivamente. Kendall Anthony (44%) e Duda (43%) ficaram na sétima e oitava posição. Essas bolas de fora foram importantíssimas, assim como o ótimo desempenho de Hettsheimeir e Jaú dentro e fora do garrafão. No entanto, foi a defesa o grande diferencial da série.

Franca teve aproveitamento de 40% dos arremessos ao longo das três partidas. Eles fizeram mais de 20 pontos em apenas três dos 12 quartos da série. Léo Meindl, supostamente o jogador de perímetro que puxaria a equipe em pontuação, teve aproveitamentos de 29% das bolas de três e 38% das bolas de dois. Pelos números já dá para perceber que Bauru dominou esse lado da quadra, mas é ainda mais impressionante ver como isso foi feito.

Antes de falar da crucial defesa por zona implantada por Demétrius, é importante destacar que a marcação individual também foi muito impactante. Franca dificilmente conseguiu espaços com bloqueios fora da bola e os jogadores de Bauru se mostraram bem à vontade para realizar dobras e ajudas. Na defesa de “pick and roll” sempre tinha alguém para cobrir o pivô que saía do bloqueio. Kendall Anthony, por exemplo, não hesitava em deixar Coelho livre para fazer tais ajudas. Gabriel Jaú, contudo, foi quem roubou a cena no quesito impacto defensivo. Ele aparece em praticamente todas as jogadas destacadas no vídeo a seguir por conta de sua boa leitura do ataque adversário.

Outro ponto positivo da defesa de Bauru foi Hettsheimeir. Isso mesmo. Ele se virou muito bem para defender Léo Meindl no “pick and roll”, o que teoricamente seria uma situação vantajosa para o ala francano. Os exemplos abaixo mostram isso.

No primeiro quarto do jogo 1, Bauru também foi muito eficiente em não permitir que Franca explorasse Kendall Anthony no poste baixo. Os jogadores de garrafão se posicionavam para negar os passes e se entrassem, sempre teria alguém pronto para fazer a dobra. Já no terceiro período, Rafa Luz conseguiu criar boas jogadas a partir do ataque a Kendall Anthony no poste baixo. Esse foi um dos motivos para a utilização da defesa por zona de Bauru.

Para quebrar a zona e conseguir cestas fáceis, é necessário intensidade e movimentação constante e rápida. Colocar essa defesa foi um jeito de aproveitar que Franca estava 20 dias parado, sem ritmo, segundo Demétrius. Outro ponto que pesou nessa decisão foi a diminuição das faltas de Bauru, já que a rotação estava curta.

A defesa que começa como 1-1-3 tem como objetivo inicial congestionar o lado da bola e obrigar um passe para o lado contrário. O último homem da linha de 3 sobe para cobrir esse passe e depois desce quando o defensor de cima chega. Dá para ver como essa movimentação acontece.

Esse tipo de defesa por zona, ao contrário das outras, não busca priorizar um ponto do jogo e consequentemente abrir mão de outro, como acontece no 2-3, 3-2 e 2-1-2 fixos. Os homens das pontas têm liberdade para subir e mudar o panorama defensivo dependendo de como o ataque se posiciona. Isaac fez isso muito bem. Matulionis também foi ótimo nas decisões rápidas que tinha que tomar.

Por mais que Franca conseguisse movimentar a bola, a flexibilidade e comunicação fizeram com que Bauru sempre tivesse alguém para contestar a bandeja ou o arremesso:

No segundo quarto do Jogo 2, o banco de Franca entrou desligado e sofreu contra a defesa bauruense. Foram três desperdícios de posse de bola em quatro ataques. Aí a vantagem de Bauru, que era de sete, subiu para 14.

Franca esboçou uma reação no último período ao acelerar o ataque para pegar a defesa de Bauru fora de posicionamento, mas já era tarde demais.

Após ver sua equipe ter aproveitamento de 29% das bolas de 3 nos três primeiros quartos do jogo 2, Helinho aplicou ajustes ofensivos que deram certo, em parte, no primeiro tempo do Jogo 3. Franca teve boas oportunidades de cesta ao criar vantagens numéricas nos lados da quadra. O problema foi que as bolas não caíram. As situações de dois contra um surgiam a partir de bloqueios ou com jogadores cruzando pela linha de fundo. O que pode ser observado na primeira e na última jogada do vídeo a seguir.

Isso não durou muito tempo. Bauru voltou do intervalo com uma defesa mais flexível. Os pivôs começaram a sair mais do garrafão para evitar esse 2 contra 1 e os jogadores que cruzavam pelo fundo passaram a ser acompanhados por um defensor. Resultado: Franca fez 9 pontos no terceiro quarto.

Vale reparar como Hettsheimeir e Shilton subiam para marcar no perímetro e como Kendall Anthony perseguiu Alexey na última jogada.

Bauru simplesmente deu uma aula de defesa na série. Contestar bem a maioria dos arremessos tem suas consequências: Franca teve seu psicológico abalado em alguns momentos da partida. Mesmo livres, os jogadores não conseguiam converter os arremessos. Isso vira uma bola de neve e acarreta desperdícios ofensivos e erros defensivos. Sem falar da pressão de ser favorito ao título e estar perdendo nas quartas de final.

“Ataque ganha jogos, mas defesa ganha campeonatos” já dizia o velho ditado. Bauru provou isso na temporada passada e na série contra Franca. Quão longe pode ir esse time? Para Demétrius, depende de quão rápido eles se adaptarem ao Paulistano, de Gustavo de Conti.

Apenas três jogadores do elenco campeão permaneceram na equipe e Alex Garcia lesionou o joelho contra o Vasco e está fora da temporada. Mesmo se não avançarem, os Playoffs do NBB provaram mais uma vez o tamanho de Bauru, que novamente está entre os quatro melhores.

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