Como entender as estatísticas avançadas?

Luís Araújo

Ainda não se sente totalmente familiarizado às estatísticas avançadas? Sente alguma confusão quando elas aparecem por aqui nos textos ou nos podcasts? Esse guia a seguir pode ajudar a acabar com as dúvidas.


Estatísticas por 36 minutos

Antes de entrar de cabeça nas estatísticas avançadas, vale explicar por que existe essa conta que mede a produção média de um jogador a cada 36 minutos. O objetivo disso é dar uma ideia de como seriam os rendimentos dos jogadores se eles tivessem a quantidade de tempo nivelada.

Desta maneira, seria possível comparar as médias de pontos, rebotes, assistências, roubos de bola, tocos e desperdícios de posse de bola de um sujeito que recebe, por exemplo, 25 minutos por partida e um outro que atua por uma média de 40 minutos.

Mas é importante ter muito cuidado e bom senso na hora de se olhar para os resultados disso. Não dá para simplesmente olhar para os números que um jogador produz a cada 36 minutos e tomar isso como verdade absoluta. Principalmente se for alguém que tenha tempo de quadra reduzido.

Por exemplo: vamos supor que um determinado atleta tenha médias de 11 pontos em 18 minutos por partida. A média por 36 minutos seria de 22 pontos, mas não quer dizer necessariamente que ele realmente faria esses 22 pontos de média se tivesse 36 minutos por jogo. Haveria o desafio de superar o cansaço e manter a consistência ao longo do duelo, o que nem sempre acontece.

Eficiência ofensiva e defensiva

São, respectivamente, as médias de pontos que um time produz e sofre a cada 100 posses de bola. Isso também aparece em estatísticas individuais. Neste caso, os números mostram a eficiência ofensiva e a defensiva da equipe com o jogador em quadra.

E por que esse cálculo a cada 100 posses de bola? A ideia é acabar com as distorções que surgem a partir das diferenças entre os diferentes ritmos de jogo e nivelar os rendimentos, assim como as médias por 36 minutos fazem com as produções de jogadores com tempo de quadra diferentes.

Um exemplo: na temporada 2016/17 da NBA, o Dallas Mavericks tomou 100,8 pontos por jogo. É uma média menor que a de 104,3 do Golden State Warriors. Só que havia uma diferença enorme entre os ritmos de jogo dos dois. O Mavericks teve um dos cinco mais lentos (o que significa menos posses de bola por confronto). E o Warriors, um dos cinco mais acelerados (mais posses de bola).

É aí que entra o cálculo a cada 100 posses de bola: para deixar a comparação justa e com resultado mais realista. Neste caso, a média de pontos tomados pelo Warriors foi de 101,1, segunda menor marca da liga. Já o Mavericks apareceu só em 15º neste ranking. A média foi de 106,3 pontos tomados a cada 100 ataques que defendeu ao longo da temporada.

O mesmo vale, obviamente, para o ataque. O Utah Jazz, por exemplo, fez 100,7 pontos por partida na temporada 2016/17, terceira média mais baixa da NBA. Sinal de sistema ofensivo frágil? Não exatamente. O ritmo de jogo era ainda mais lento que o do Mavericks, o que significa menos oportunidades de atacar. A média a cada 100 posses de bola foi de 107,4 pontos, 12ª melhor marca da liga.

“Net Rating”

É o saldo de pontos de um time a cada 100 posses de bola. A fórmula para se chegar a esse número é bem simples. Basta pegar a eficiência ofensiva e subtrair a eficiência defensiva.

Isso também pode aparecer em estatísticas individuais. Neste caso, o “Net Rating” que aparece é o resultado do saldo de pontos da equipe a cada 100 posses de bola durante os momentos em que esse jogador está em quadra.

“Pace”

É o número de posses de bola que uma equipe tem em média por partida ao longo da temporada. Quanto maior for esse índice, mais acelerado costuma ser o ritmo de jogo deste time em questão.

Porcentagem de assistências

É uma maneira de tornar mais justas as comparações entre times ou jogadores nestes fundamento, ajustando diferentes ritmos de jogo e deixando tudo na mesma proporção. Na hora de se tentar entender as caraterísticas ofensivas de uma determinada equipe, por exemplo, essa porcentagem diz muito mais coisas do que as médias por partida. Não adiantaria muito ter em mãos o número de assistências por confronto sem saber da quantidade de arremessos dados.

Na temporada 2016/17 da NBA, por exemplo, o Washington Wizards distribuiu 23,9 assistências por partida. Foi a sexta maior média da liga. Só que isso não quer dizer que o ataque da equipe usava tantas assistências assim. O índice de cestas feitas a partir de um passe foi de 57,7%, o que nem é tão alto . Tanto que isso representou apenas a 16ª melhor marca da liga.

Esse índice de 57,7%, que refere-se às cestas que o time fez a partir de assistências, é o que aparece no campo da porcentagem de assistências (AST%) nas estatísticas avançadas. No caso de um jogador, esse número diz respeito às cestas para as quais ele deu assistência durante o tempo que permaneceu em quadra.

Porcentagem de rebotes

É uma maneira de tornar mais justas as comparações entre times ou jogadores neste fundamento, ajustando diferentes ritmos de jogo e deixando tudo na mesma proporção. Na hora de se tentar entender a eficiência de uma equipe na briga pela bola depois de um arremesso errado, essa porcentagem é muito mais reveladora do que as médias tradicionais de rebotes por partida.

Na temporada 2016/17 da NBA, por exemplo, o Brooklyn Nets teve 35,1 rebotes de defesa por jogo. Foi a maior marca da liga — empatado com o New Orleans Pelicans. Sinal então de eficiência máxima neste quesito, certo? Não. Longe disso. Afinal, de todos os rebotes de defesa que disputou ao longo da temporada, o time conquistou 76,1%. Número pior do que o de outras 17 equipes no campeonato.

A razão por trás desta distorção é que o Nets teve um ritmo de jogo muito acelerado. Tanto que ficou em primeiro lugar no ranking de “pace”. Quanto mais posses de bola, mais arremessos dados, mais rebotes disputados. Então o time teve essa média alta de 35,1 rebotes de defesa. Mas a quantidade de rebotes ofensivos cedidos aos adversários também foi alta: 11,0 por jogo.

Esse índice de 76,1% citado no exemplo do Nets é o que aparece no campo da porcentagem de rebotes de defesa (DREB%) nas estatísticas avançadas. No caso de um jogador, esse número diz respeito aos percentual de rebotes defensivos que ele pegou durante o tempo que permaneceu em quadra.

O raciocínio é o mesmo para os rebotes de ataque. Nas estatísticas avançadas, eles aparecem como OREB%.

Porcentagem de roubos de bola

É a quantidade de roubos de uma equipe ou de um jogador a cada 100 posses de bola. Vamos supor que um time teve índice de 8,5% nesta estatística ao longo de uma temporada. Isso significa que um desarme aconteceu em 8,5% de todos os ataques que essa equipe defendeu.

Em uma avaliação sobre o quanto os roubos de bola costumam ser frequentes por parte de um time ou de um jogador, essa porcentagem é muito mais reveladora do que a média por partida.

Porcentagem de tocos

É a quantidade média de tocos de uma equipe ou de um jogador a cada 100 posses de bola. Vamos supor que um time teve índice de 6,5% nesta estatística ao longo de uma temporada. Isso significa que um toco foi dado em 6,5% de todos os ataques que essa equipe defendeu.

Em uma avaliação sobre o quanto os tocos costumam ser frequentes por parte de um time ou de um jogador, essa porcentagem é muito mais reveladora do que a média por partida.

Porcentagem de desperdícios

É quantidade média de erros ofensivos cometidos por uma equipe ou de um jogador a cada 100 posses de bola. Vamos supor que um time teve índice de 10% nesta estatística ao longo de uma temporada. Isso significa que de todos os ataques dados por essa equipe, 10% terminaram em desperdício.

Em uma avaliação sobre o cuidado com a bola por parte de um time ou de um jogador, essa porcentagem é muito mais reveladora do que a média por partida.

AST/TO (Assistência/Desperdício)

É uma relação direta entre o número de assistências e o de desperdícios de posse de bola de um jogador ou de um time. Quanto maior esse número, mais eficiente o atleta ou a equipe em questão é no que diz respeito a movimentara bola antes de uma cesta.

Na temporada 2015/16 da NBA, o Golden State Warriors cometeu 14,8 desperdícios por partida ao longo da fase de classificação. Foi a nona maior marca da liga. Mas o time ficou em primeiro lugar no ranking de assistências por jogo, com média de 30,4. O índice de assistência/desperdício, portanto, foi de aproximadamente 2,06. Número superior ao de qualquer outra equipe da NBA.

Em outras palavras: o número de desperdícios de posse de bola por jogo poderia até parecer alto em um primeiro momento, mas acabou se tornando um risco que valia totalmente a pena de se correr diante da quantidade de assistências que foram distribuídas.

Eficiência nos arremessos (eFG%)

É um cálculo que mede o aproveitamento de um time ou de um jogador nos arremessos com um ajuste diferente. Neste caso, as bolas de três ganham um valor um pouco maior em relação às de dois. Esse peso é de 1,5.

A fórmula é a seguinte: quantidade de chutes certos + (0,5 x quantidade de chutes de três convertidos) / total de arremessos tentados.

Exemplo: vamos supor que um jogador tenha dado 18 arremessos em uma partida e acertado seis, incluindo três cestas de três. O cálculo tradicional apontaria aproveitamento de 33,3%, já que ele converteu um terço do que tentou (6/18), certo?

Mas o resultado em eficiência nos arremessos seria diferente. O cálculo ficaria da seguinte maneira:

eFG = 6 + ( 0,5 x 3) / 18

eFG = 6 + 1,5 / 18

eFG = 7,5 / 18

eFG = 0,4166

Ou seja: o índice de eficiência em arremessos seria de aproximadamente 41,7%. O que daria uma diferença considerável em relação ao aproveitamento de 33,3% de chutes em geral que apareceria nas estatísticas básicas.

“True Shooting” (TS%)

É uma outra fórmula que busca dar mais detalhes sobre a eficiência de um jogador ou de um time nos arremessos. Uma diferença importante em relação ao item anterior é que o “True Shooting” leva também em conta os lances livres, que são considerados uma das maneiras mais eficientes de se pontuar.

Na temporada 2016/17, James Harden teve aproveitamento de 44% nos arremessos em geral, enquanto Andre Roberson teve 46,4%. Só que Roberson registrou desempenho bem inferior nas bolas de três e cobrou menos lances livres por jogo. Portanto Harden acabou tendo um “True Shooting” maior: 61,3% a 51%.

A fórmula para se determinar esse índice é a seguinte: pontos/ [2 x (arremessos de quadra tentados + lances livres tentados x 0,44)]

Vamos supor que um determinado jogador tenha anotado 26 pontos em uma partida, com aproveitamentos de 6/18 nos arremessos em geral, 3/12 nas bolas de três e 11/13 nos lances livres. O cálculo para se encontrar o “True Shooting” dele seria:

TS = 26/ [2 x (18 + 13 x 0,44)

TS = 26/ [2 x (18 + 5,72)

TS = 26/ [2 x 23,72]

TS = 26/47,44

TS = 0,5480

Ou seja: o “True Shooting” seria de 54,8%. Uma diferença e tanto em relação ao aproveitamento de 33,3% de arremessos em geral que apareceria nas estatísticas básicas.

“FTA Rate”

É a proporção entre o número de lances livres cobrados em relação à quantidade de arremessos tentados na partida. Pode ser aplicado para um time ou para um jogador, tanto faz.

A fórmula para se chegar a esse índice não é nem um pouco complicada. Basta pegar a quantidade de lances livres cobrados e dividir pelo número de arremessos tentados.

Por motivos óbvios, os lances livres são considerados uma maneira extremamente eficiente de se somar pontos. Portanto, quanto maior for essa proporção de lances livres cobrados para arremessos tentados, maior tende a ser a eficiência ofensiva do jogador ou do time em questão.

PER (“Player Efficiency Rating”)

É um índice que se propõe a determinar o índice de eficiência de um jogador por minuto. Foi um modelo criado por John Hollinger, ex-analista da ESPN dos EUA. Nas palavras dele próprio, o que estatística faz, resumidamente, é pegar todas as coisas positivas que um jogador faz em quadra, subtrair as negativas e aí oferecer um resultado do índice de contribuição por minuto.

O fato de esse resultado já determinar uma colaboração por minuto ajuda em uma comparação entre jogadores com diferentes tempos de quadra. Mas aí vale a mesma ressalva das estatísticas por 36 minutos: a consistência seria um grande desafio. Existe sempre a possibilidade (e nem é pequena) de quem atua menos tempo não conseguir manter o mesmo nível de produtividade se ficasse mais tempo em ação.

Na temporada 2016/17 da NBA, por exemplo, Enes Kanter teve índice de PER superior a John Wall. Só que o pivô, que na época estava no Oklahoma City Thunder, era um reserva que saía do banco para atuar cerca de 21 minutos por partida. Foram 15 a menos do que Wall. E existe um motivo pelo qual o armador foi titular do seu time e jogou por muito mais tempo ao longo do campeonato: ele é muito melhor.

Uma outra ressalva importante é que essa fórmula privilegia muito mais as contribuições ofensivas do que as defensivas. Claro que os tocos e os roubos de bola fazem parte da equação que determina o índice de PER. Mas também é evidente que esses dois fundamentos não são as únicas maneiras de um jogador causar impacto na hora de marcar.

Mais informações e a fórmula completa para se calcular o PER podem ser encontrados aqui.

PIE (“Player Impact Estimate”)

Também é uma fórmula que se propõe a determinar o índice de eficiência de um jogador por minuto, levando em conta tudo de bom e tudo de ruim que pode ser feito dentro de quadra em termos estatísticos. Só que esse modelo foi criado pela própria NBA.

“Usage Percentage”

É uma estimativa da porcentagem de posses de bola que um jogador define para o seu time durante o tempo em que está em quadra.

MVP da temporada 2016/17 da NBA, Russell Westbrook teve um índice de 41,7% nesta estatística. Isso significa que durante os minutos em que esteve em quadra ao longo do campeonato, o armador arremessou, sofreu uma falta que o mandou para o lance livre ou cometeu um desperdício de posse de bola em 41,7% dos ataques do Oklahoma City Thunder.

“Win Shares”

É uma estimativa do quanto um jogador contribuiu para as vitórias do seu time. O índice de 25,4 de Kareem Abdul-Jabbar em 1971/72 é o recorde até hoje de um atleta em uma única temporada da NBA. Ao longo de toda a carreira, o ex-pivô somou 273,4 pontos nesta estatística, o que também é um recorde histórico.

Esse índice é o resultado da soma do “win share” de defesa com o de ataque. Esses números são frutos de cálculos complexos (que podem ser vistos aqui) envolvendo as contribuições de um jogador nos dois lados da quadra e o quanto elas se destacam em relação à média da NBA.

Na temporada 2016/17 da NBA, Karl-Anthony Towns teve 11,0 de “win shares” — de acordo com o “Basketball Reference”. Foi a segunda maior marca da liga, perdendo apenas para os 12,3 de James Harden. Não quer dizer necessariamente que Towns tenha sido o segundo melhor jogador do campeonato, mas mostra o quanto ele foi determinante para as vitórias conquistadas pela sua equipe, o Minnesota Timberwolves.

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