Como o Celtics tirou 21 pontos e acabou com a invencibilidade do Cavs?

Luís Araújo

Faltavam pouco menos de sete minutos para o fim do terceiro quarto quando JR Smith tentou um arremesso de três do canto da quadra. A bola não entrou, mas Tristan Thompson apareceu para pegar o rebote de ataque e colocar a bola na cesta, deixando o Cleveland Cavaliers à frente por 77 a 56. Essa diferença de 21 pontos e tudo mais que tinha ocorrido nos dois duelos anteriores levavam a crer que o jogo já era para o Boston Celtics.

Brad Stevens pediu tempo imediatamente. Poucas pessoas, evidentemente, poderiam acreditar em uma reviravolta naquele momento, mas ele era uma delas. “Quando ganhamos aqui em Cleveland no ano passado, também chegamos a ter uma desvantagem grande”, lembrou o técnico do Celtics. “Em um outro jogo aqui em que tivemos a chance de vencer no fim, o mesmo aconteceu. Já tínhamos passado por esse tipo de situação. Nós estávamos jogando melhor do que parecia. Estávamos tendo boas oportunidades de arremesso e com boas ações no ataque, ao passo que nossa defesa, para mim, estava muito melhor do que o placar indicava.”

Depois do pedido de tempo, o jogo não foi mais o mesmo. O Celtics emplacou uma reação impressionante, aproximou-se ainda no terceiro quarto, manteve o equilíbrio no último período e acabou ganhando no fim das contas. Essa reviravolta toda começou com essa bola de três pontos de Marcus Smart.

No arremesso em questão, Kyrie Irving resolveu passar por trás do bloqueio, algo que faz bastante sentido diante de um sujeito cujo aproveitamento nas bolas de três ao longo da carreira não chega a 30%. Mas o Celtics estava totalmente disposto a aceitar o que o adversário resolveu oferecer. “Eles insistiram em passar por trás, aí meu técnico e meus companheiros me falaram para continuar chutando. Eles confiaram em mim e no trabalho que fiz durante toda a temporada para melhorar meu arremesso”, contou Smart após a partida.

Um outro lance curioso veio pouco depois. De um lado da quadra, Smart fez um bom trabalho na hora de atrapalhar a finalização de LeBron James dentro do garrafão. Do outro, chutou de muito longe sem demonstrar qualquer hesitação, como se fosse um Stephen Curry da vida.

Smart terminou a partida com sete bolas de três em dez tentativas, totalizando 27 pontos. Além disso, deu sete assistências, pegou cinco rebotes e teve dois desarmes. Isso sem falar nas trocentas ações importantes defensivamente para ajudar a conter o Cavs nos momentos em que o Celtics tanto precisou ficar sem tomar cesta. Foi uma produção importantíssima para ajudar a compensar a ausência de Isaiah Thomas, que virou desfalque pelo restante dos playoffs após a partida anterior. “Quando chega uma hora importante, esse garoto aparece. Tem sido sempre assim”, elogiou Stevens.

Ofensivamente, não foi só com bolas de três, punindo os espaços deixados pela defesa adversária, que Smart contribuiu. No lance a seguir, ele atacou a marcação de Irving, cortou pelo fundo e atraiu quatro marcadores para dentro do garrafão. Um deles foi JR Smith, o que acabou abrindo a possibilidade para que Avery Bradley fosse acionado e chutasse com espaço.

Na jogada abaixo, Smart levou Irving para o “post-up”, forçando LeBron James a abandonar Jae Crowder para aparecer na ajuda por ali. Em seguida, pegou o rebote de ataque e fez a ligação com Al Horford.

Tiveram ainda as colaborações de Smart no ataque que não constam nas estatísticas. Como esse bloqueio que pegou em cheio Irving, possibilitando que Bradley infiltrasse e atraísse as atenções dos defensores antes de soltar a bola para o chute longo de Jonas Jerebko.

O lance anterior tem o envolvimento de outros dois jogadores que tiveram participação fundamental na virada do Celtics. Avery Bradley teve 20 pontos, quatro assistências, fez a bola da vitória e, tal qual Smart, também foi essencial diversas vezes na defesa. E Jonas Jerebko, que vinha sendo muito pouco utilizado nos playoffs até então, saiu do banco de reservas para produzir dez pontos e cinco rebotes em 13 minutos, acertando todos os quatro arremessos que tentou.

“Ele é capaz de abrir espaços no ataque, mas acho que o mais importante foi a energia dele na defesa, dando toco, pegando alguns rebotes e mantendo a bola viva”, observou Stevens sobre o sueco. “Precisávamos desse tipo de coisa. Eu acredito que jogadores que ficam um tempo sem serem utilizados entram em quadra com uma energia forte e um desejo de entregar tudo ali. Sem Gerald Green, não teríamos passado pelo Chicago Bulls. Sem alguns jogadores do banco, não teríamos vencido o Washington Wizards. E Jonas nesta noite foi uma razão enorme por trás da nossa vitória.”

Um destes arremessos importantes de Jerebko veio nesta confusão que o ataque do Celtics conseguiu causar à defesa defesa do Cavs, que tinha como estratégia bem clara no terceiro quarto trocar sempre a marcação após bloqueios. O problema é que ninguém ficou em Jerebko depois do bloqueio que o sueco fez em Bradley e do passe de Kelly Olynyk para Bradley. Nem Kevin Love, nem JR Smith, nem Tristan Thompson.

Então, quando Bradley tentou ir para a cesta, Smith e Thompson estavam em cima dele, sinal de que Jerebko ficou livre. Kyle Korver ainda saiu correndo para tentar impedir o arremesso, mas foi facilmente driblado.

Defensivamente, talvez o lance que mais chamou a atenção envolvendo o sueco tenha sido esse a seguir, que começou com uma tentativa de bote de Bradley, que foi dobrar em Kevin Love e abandonou Irving sozinho. Mas aí o armador do Cavs foi infiltrar e não conseguiu passar por Jerebko. Não foi o tipo de lance mais desafiador para ele, bem como os ataques em direção à cesta de LeBron James contra Kelly Olynyk a partir do “pick and roll”. Eram jogadas que poderiam muito bem ter dado certo, mas que acabaram não funcionando. Vai entender.

Mas seria injusto não reconhecer as coisas boas que o Celtics realmente lutou para colocar em prática na defesa. O roubo de bola de Bradley que originou o contra-ataque foi muito bom. Mas vale a pena reparar na ótima ação de Crowder e Horford em cima de LeBron, um protegendo o garrafão e outro cobrindo a linha de três, oferecendo só o chute de média distância.

A rotação defensiva do Celtics também se mostrou precisa na reta final. Uma amostra disso pode ser observada no lance a seguir, em que Bradley e Olynyk reagem no mesmo instante e no momento certo para proteger a infiltração e dificultar a vida de Thompson ali embaixo da cesta.

E o jogo foi decidido em uma bola de três de Bradley, fruto de uma jogada muito bem desenhada por Brad Stevens. Antes de receber o passe e virar o herói com um tiro de três, Bradley fez um bloqueio no canto da quadra para Crowder, que cortou para a cesta e acabou atraindo JR Smith e Iman Shumpert, que bateram cabeça e tomaram a mesma decisão. Isso permitiu que Bradley corresse livre para receber, enquanto Al Horford se certificou de impedir a aproximação de Thompson.

“Brad faz um ótimo trabalho nestas jogadas e é nossa função saber reagir”, comentou Smart depois da partida. “Ele nos coloca em boa posição para ter sucesso, aí é com a gente conseguir seguir em frente com isso. Ele desenhou uma ótima jogada, Horford fez um ótimo bloqueio, Crowder cortou muito bem para a cesta e Bradley fez o trabalho dele.”

Do outro lado, LeBron encarou a derrota como um sinal que precisava aparecer para o Cavs, apesar da campanha invicta até então. “Eu estou satisfeito que isso tenha acontecido do jeito que aconteceu. Eu acredito que adversidades fazem parte dos playoffs. Se for para isso acontecer com a gente, que seja agora. Vamos nos reunir e voltar a jogar basquete de forma desesperada, que foi o que eles fizeram nesta noite. Nós certamente precisamos jogar muito melhor”, declarou.

Pode ser que fique nisso. É fácil de imaginar que o Cavs responda a esse alerta com duas vitórias cheias de propriedade e encerre a série em cinco jogos. De qualquer maneira, foi ótimo poder ver o Celtics emplacar uma virada como essa em uma partida que parecia perdida, impondo ao adversário algo que até então ninguém tinha conseguido e, mais importante ainda, mostrando um poder de reação que veio muito bem a calhar após aquela derrota por 44 pontos de diferença no confronto anterior.

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