Como o Warriors se transformou na potência que hoje domina a NBA?

Luís Araújo

Dois títulos em três anos, recordes e mais recordes no meio do caminho, um estilo de jogo tão cativante para quem assiste quanto desafiador para quem está do outro lado e justas citações na discussão sobre os melhores times da história da NBA. O Golden State Warriors é tudo isso e muito mais.

Tem sido um privilégio ver essa equipe em ação, mas é interessante ter em mente que muita coisa aconteceu durante os últimos anos para que isso tudo acontecesse. Essa dinastia que vemos hoje é resultado de um processo longo, que passou por decisões importantes, apostas e um pouco de sorte, claro.

2009/2012 – Acertando a mão no Draft

A base do time foi formada com escolhas extremamente acertadas. Sinal de competência de quem está à frente da franquia, mas também de uma generosa dose de sorte. Tudo começou em 2009, quando o Warriors usou a sétima posição para selecionar Stephen Curry. Técnico da equipe naquela época, Don Nelson chegou a declarar o seguinte: “Nós não achávamos que ele estaria à disposição quando chegasse a nossa vez, acabamos ganhando um belo presente.”

É muito fácil entender o sentimento de sorte de Nelson e todo torcedor do Warriors no planeta com relação a Curry. Isso porque as duas escolhas anteriores foram do Minnesota Timberwolves, que usou ambas para recrutar armadores. O primeiro foi Ricky Rubio, considerado uma das maiores promessas do basquete europeu na época e que até hoje é titular do time. Pode não ser a estrela que Curry é hoje na NBA, mas trata-se de alguém que se consolidou na liga e que tem uma carreira vitoriosa no basquete internacional. Passa longe demais de ser um fracasso. O problema é o que aconteceu em seguida: o escolhido foi Jonny Flynn, que não durou mais do que três temporadas na NBA e hoje atua no basquete italiano.

Foi um golpe de sorte danado para o Warriors, mas Curry também tem muito a agradecer o destino. Afinal de contas, o New York Knicks estava pronto para selecioná-lo na oitava posição. O próprio armador estava animado com a possibilidade. “Jogar todo dia no Madison Square Garden e morar em Nova York teria sido divertido”, chegou a admitir Curry durante a temporada de novato.

Oito anos se passaram desde então, e é seguro imaginar que as coisas acabaram se saindo muito melhor para ele. Há males que realmente vêm para o bem.

Em 2010, o Warriors gastou a sua escolha de primeira rodada para recrutar Ekpe Udoh, pivô que acabou de se tornar campeão da Euroliga com o Fenerbahce e que se valorizou ao ponto de ter boas chances de voltar para a NBA em breve, mas que não foi tão útil assim durante a sua passagem por Oakland. Nos dois anos seguintes, porém, a franquia continuou adicionando peças valiosas para a história especial que estava por vir. No Draft de 2011, veio Klay Thompson na 11ª posição. E em 2012 chegaram Harrison Barnes (sétima escolha), Festus Ezeli (30ª) e Draymond Green na (35ª) — que será comentado com um pouco mais de profundidade daqui a pouco.

2012 – A troca

Em março de 2012, a cerimônia de aposentadoria de Chris Mullin acabou sendo marcada pelos protestos da torcida do Warriors, revoltadíssimos com a negociação que mandou o armador Monta Ellis para o Milwaukee Bucks em troca do pivô Andrew Bogut. O próprio Mullin tratou de pedir calma ao público no ginásio. “Mudanças são inevitáveis às vezes. As coisas vào ficar bem. Se vocês apoiarem, tiverem paciência e usarem essa paixão do jeito certo, tenho confiança de que as coisas vão caminhar na direção certa”, ele falou.

Em seguida, foi a vez de Rick Barry pegar o microfone e usar um tom mais duro com os torcedores. “Mostrem um pouco de classe. Esse homem vai mudar essa franquia. Isso é loucura. Sério. Vamos lá. Vocês estão fazendo um desserviço ao tratar desta maneira esse homem, que está gastando dinheiro e trabalhando muito para mudar a direção desta franquia”, disse o ídolo do Warriors, referindo-se a Joe Lacob, proprietário majoritário da franquia.

E o mais curioso nisso tudo é que essas duas declarações de ícones históricos do Warriors foram feitas depois de Lacob ser interrompido pelo grito de “We want Monta” que veio de algum canto do ginásio. Hoje é fácil torcer o nariz para Ellis, mas cinco anos atrás ele era o cestinha do time e uma figura extremamente popular em Oakland.

Mas o Warriors sabia que um dos seus armadores titulares precisava sair. “Não dá para jogar com dois caras tão baixos juntos”, afirmou na época Jerry West, que trabalhava como executivo da franquia. “Eu amo o Monta. Ele compete duro todo santo jogo. É isso que amamos nele. Mas no fim das contas, nenhum time vai ganhar alguma coisa com uma dupla tao baixa de armadores.”

Quando a conversa sobre essa troca começou, o primeiro nome que apareceu foi o de Curry. Era quem o Bucks queria, e há quem acredite até hoje que ele de fato seria incluído no negócio se não estivesse machucado. Mas depois que o martelo foi batido e que Ellis se mandou para Milwaukee, o recado ficou claro: era em Curry que o Warriors estava apostando para comandar esse time dali em diante. Mesmo com as lesões que insistiam em atrapalhá-lo e que o tiraram de ação do restante daquela temporada 2012/13.

Outras duas consequências importantes surgiram a partir desta troca. Uma delas é que Klay Thompson acabou virando titular e usou isso para se desenvolver no monstro que é hoje nos dois lados da quadra. Foi o nascimento dos “splash brothers”. Além disso, Bogut teve uma grande participação no sucesso do Warriors com sua proteção de aro, capacidade de encaixar bons passes e finalizações precisas ao redor da cesta, combinação que o tornou muito valioso para o título de 2015 e para o vice do ano seguinte.

2012 – A extensão de Stephen Curry

Os problemas atrás de problemas no tornozelo direito o limitaram a apenas 26 atuações durante a temporada 2011/12. Ainda assim, o Warriors acertou uma extensão de contrato com ele que muita gente considerou arriscada na época, dado esse histórico de lesões: US$ 44 milhões por quatro anos, que iniciaria na temporada 2013/14.

O que aconteceu depois mostrou que o Warriors acertou em cheio na aposta que fez. Curry ganhou dos troféus de MVP enquanto liderou a construção da identidade deste time. E esse salário relativamente baixo em comparação a tantos outros armadores da NBA dos dias de hoje, aliado à explosão do teto em 2016, acabou permitindo que a equipe tivesse condições financeiras de contratar Kevin Durant.

2013 – A chegada de Andre Iguodala

Depois de uma passagem muito boa pelo Denver Nuggets, ele virou agente livre em julho de 2013 e decidiu assinar um contrato de 48 milhões por quatro anos com o Warriors. Logo na primeira temporada com o novo time, foi eleito para o quinteto ideal de defesa da liga.

As coisas estavam só começando a ficar especiais para Iguodala. Na temporada seguinte, passou a ser usado como reserva para que Harrison Barnes fizesse parte do quinteto inicial. Foi uma experiência nova para ele, que fora titular em todas as partidas que disputou na NBA até então. Mas deu certo. O Warriors virou uma potência em 2015, o ala rendeu muito bem como sexto homem e levou para casa o prêmio de MVP das finais daquele ano. Além de tudo isso, virou peça chave para o “quinteto da morte”, formação que mudou a história da decisão contra o Cleveland Cavaliers e que até hoje é uma tremenda carta na manga que Steve Kerr tem nas mãos.

2014 – A não troca

Mesmo em grande fase, Kevin Love não conseguia disputar os playoffs com o Minnesota Timberwolves. A possibilidade de ele virar agente livre em 2015 fez com que o time se abrisse à possibilidade de negociá-lo um ano antes, tudo para que a grande estrela da companhia não saísse de graça. Naturalmente, portanto, o nome dele apareceu em uma série de rumores de trocas. Um dos mais fortes relacionava justamente o Warriors, envolvendo o nome de Klay Thompson.

Como sabemos, a coisa não foi para frente. Muito graças a Jerry West, que estava certo de que as habilidades defensivas de Thompson seriam vitais para o que o Warriors estava construindo em termos de identidade. Então o Timberwolves decidiu negociar seu grande astro com o Cleveland Cavaliers em troca de Andrew Wiggins.

Love rapidamente passou a fazer parte de uma potência e hoje tem um anel de campeão. Wiggins foi para um time jovem, que deu início a um novo processo de reformulação que o permitiu ter maior liberdade para ir se desenvolvendo como referência ofensiva. E Thompson tem se provado o pilar defensivo que West imaginava, além de entregar trocentas outras coisas boas do outro lado da quadra. É difícil imaginar esse Warriors dando tão certo assim sem ele.

2014 – A troca no comando

Mesmo tendo feito boas campanhas durante o tempo em que foi técnico da equipe, Mark Jackson foi demitido e deu lugar a Steve Kerr, que trabalhava como comentarista até então e que estava também na mira do New York Knicks. Ele próprio faz questão de dar crédito ao trabalho do seu antecessor, principalmente pela solidez do sistema defensivo. Mas é inegável que muita coisa mudou para melhor no time sob novo comando.

O ataque melhorou demais e começou a se transformar neste pesadelo que é hoje para os oponentes, o ritmo de jogo passou a ser ainda mais acelerado e até a defesa, que já era ótima, subiu de nível. Além disso tudo, algumas outras ideias que Kerr levou acabaram tendo efeito positivo. Como, por exemplo, a substituição de Iguodala por Barnes no quinteto inicial.

2014 – Draymond Green titular

Até pouco tempo atrás, era comum a desconfiança sobre garotos considerados “presos entre posições” — como, por exemplo, alguém baixo demais para ser pivô e não tão leve quanto gente que joga fora do garrafão. Parecia ser o caso de Green antes do Draft de 2012. Afinal, em que pesem as amostras de versatilidade por Michigan State na NCAA, ele seria um ala ou um ala-pivô na NBA?

“Eu sabia que ele era pau para toda obra, mas eu estava preocupado com a possibilidade de ele virar um meste em nada”, admitiu Kerr. “Afinal, o que ele sabia fazer realmente bem? No fim, vimos que ele sabe fazer tudo extremamente bem”, completou o treinador do Warriors.

Mas não foi pelo olhar do técnico que ele teve a condição necessária para virar isso tudo o que sabemos que é hoje. A oportunidade apareceu com a lesão na perna esquerda que afastou David Lee do começo da temporada 2014/15. Green aproveitou isso como poucos, mostrando-se extremamente versátil em todos os cantos da quadra, defendendo perto e longe da cesta e agindo de múltiplas maneiras também no ataque, seja levando a bola, sendo acionado a partir dos “pick and rolls” para dar sequência às jogadas ou até mesmo chutando de longe.

2016 – Kevin Durant e o novo teto salarial

O Warriors já tinha um timaço. O título de 2015, as históricas 73 vitórias e o vice de 2016 são alguns sinais disso. Aí Durant resolveu se mandar para Oakland. É claro que alguns sacrifícios precisaram ser feitos. Andrew Bogut e algumas outras peças importantes de apoio tiveram de ser deslocadas para outros cantos. Mas é inegável que qualquer equipe fica muito mais poderosa quando ganha um MVP.

E para reforçar ainda mais essa sensação de aumento de domínio de quem já estava no topo do Oeste, vale lembrar que Durant saiu do time que mais passou perto de colocar um ponto final no reinado do Warriors dentro da conferência. O Oklahoma City Thunder chegou a abrir 3 a 1 e ficou a uma vitória de se classificar para decidir o título de 2016 com o Cleveland Cavaliers.

Mas existe um motivo óbvio pelo qual LeBron James diz que essa constelação do Warriors foi formada de maneira diferente em relação ao que ocorreu com ele no Miami Heat em 2010. Naquela oportunidade, ele se juntou a outros dois astros e o resto do time passou a ser construído só depois disso. O Warriors não. Os pilares, o sistema de jogo e a identidade já estavam estabelecidos.

De qualquer maneira, não bastou só a vontade de Durant para fazer isso acontecer. Nada disso seria possível se o Warriors não tivesse condição financeira para viabilizar essa contratação. Um fator que ajudou neste sentido foi a já citada extensão de Stephen Curry em 2012. E o que pesou ainda mais foi o novo e muito mais lucrativo acordo da NBA relacionado a direitos de televisão. Uma das consequências deste dinheiro a mais que passou a entrar na liga foi o aumento considerável do teto salarial das equipes. Na temporada 2015/16, esse valor era de US$ 70 milhões. Em 2016/16, subiu para US$ 94 milhões.

Em resumo: tudo se alinhou de maneira perfeita. Esse aumento não só apareceu de uma hora para outra como veio no momento preciso. Se aparecesse um ano depois, por exemplo, a história seria completamente diferente. Sorte do Warriors e de todo mundo que conseguiu apreciar um dos grandes times da NBA em todos os tempos.

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