Confiante e à vontade como nunca na NBA

Luís Araújo

Quem é assinante do Triple-Double teve a oportunidade de ler na última edição do Radar da NBA sobre como Michael Beasley andou aproveitando as oportunidades que recebeu como titular do New York Knicks, substituindo o então lesionado Kristaps Porzingis. Em uma destas partidas, na vitória sobre o Oklahoma City Thunder, ele acertou 11 dos 18 arremessos que deu em pouco mais de 37 minutos de ação e fez 30 pontos.

Foram cestas atrás de cestas diante de múltiplos defensores, em lances nos quais recebia a bola entre o garrafão e a linha de três, trabalhava o jogo de pés e encontrava espaço para finalizar. Com essa pontuação diante do Thunder, Beasley igualava ali o seu recorde na temporada, que acabou virando a primeira dele desde 2010/11 com mais de um jogo com pelo menos 30 pontos. Naquela oportunidade, ele estava no Minnesota Timberwolves, para onde tinha ido como um dos movimentos que o Miami Heat fez para viabilizar a união de LeBron James, Dwyane Wade e Chris Bosh no time.

Mas o melhor ainda estava por vir. Diante do Boston Celtics, já com Porzingis de volta ao Knicks, Beasley saiu do banco de reservas para anotar 32 pontos, sendo 28 depois do intervalo e 18 só no último quarto. Foram 13 finalizações certas em 20 tentativas, incluindo 11 em 15 só na segunda metade de jogo. Isso diante da defesa mais eficiente da temporada e que vem limitando seus oponentes a um aproveitamento de apenas 44,1% nos arremessos em geral. Não é qualquer um que az um negócio desses, definitivamente.

Teve bola de três e até cesta de tapinha, transformando o rebote ofensivo em dois pontos. Mas, assim como acontecera diante do Thunder, o grosso da produção ofensiva de Beasley neste duelo com o Celtics se deu em lances nos quais ele foi acionado na média distância, em que ele trabalhou no um contra um para encontrar algum espaço qualquer para a finalização. Foi o que aconteceu, por exemplo, neste lance contra Semi Ojeleye — que vem conquistando espaço na rotação de Brad Stevens muito mais pela qualidade defensiva do que qualquer outra coisa.

Essa outra jogada mostra os dois de novo frente a frente. Beasley até pareceu ter considerado a ideia de fazer o passe para alguém cortando em direção à cesta, mas não sentiu confiança o bastante para isso e resolveu ele mesmo finalizar. Ojeleye fechou melhor as portas de entrada para o garrafão desta vez, então o jeito foi tentar um chute da cabeça do garrafão mesmo, saltando para trás. Sem problema.

Quando Al Horford foi colocado como responsável por marcá-lo, Beasley tratou de colocar a bola no chão e apostar que levaria a melhor na velocidade para finalizar perto da cesta. Deu certo.

Mas também deu para vê-lo sendo usado com eficiência em jogadas de “pick and roll” como o responsável por bloquear e girar.

Essa atuação de gala contou ainda com 12 rebotes, dando a ele o seu primeiro duplo-duplo pelo time nova-iorquino, que precisou mesmo de cada gota de suor do esforço dele para sair de quadra com a vitória sobre o líder do Leste em uma das piores noites de Porzingis na NBA. Nos 23 minutos de atuação, o letão errou todos os 11 chutes que deu e só não saiu de quadra zerado porque acertou um dos dois lances livres que cobrou.

Mais ou menos na metade do terceiro quarto, Porzingis saiu de quadra e acabou não voltando mais. Foi aí que Beasley assumiu de vez o comando das coisas, acertou esses chutes todos, conduziu o Knicks à vitória e até ouviu gritos de “MVP” do público no Madison Square Garden.

Depois do jogo, ele fez de tudo para tratar aquilo como se fosse o dia mais normal da vida. Disse que só estava fazendo o que costuma fazer e que tem sentido a mão quente desde o dia 9 de janeiro de 1989, que foi a data em que nasceu. Coisas que chegam a ser natural para um cidadão que falou no início da temporada que está pau a pau com LeBron James e Kevin Durant em termos de talento.

No dia seguinte ao jogo com o Celtics, na derrota do Knicks para o Detroit Pistons, Beasley recebeu só 13 minutos. Fez seis pontos, acertando três dos seis chutes que tentou, e deu três assistências. Esse espaço reduzido passa muito pelos 29 pontos em 38 minutos de Porzingis. Como Beasley tem sido usado quase que exclusivamente na posição quatro, o tempo será menor mesmo quando as coisas estiverem dando tão bem assim para o letão. Ainda mais porque é raro o técnico Jeff Hornacek manter os dois juntos nas partidas. Tirando Ramon Sessions e Joakim Noah, nenhum outro jogador do elenco passa menos tempo em quadra com Beasley do que Porzingis.

Em uma declaração que deu recentemente ao ser questionado sobre como tem sido trabalhar com Beasley nesta temporada, Hornacek o classificou como um jogador “fantástico” e concordou que algumas coisas que faz em quadra parecem sair sem esforço, tamanha é a naturalidade que ele consegue executar certos movimentos. Coisas que realmente aparecido e que são mais do que suficientes para justificar seu espaço na NBA nos dias de hoje. De qualquer maneira, existe um dado que ajuda a mostrar que o treinador realmente o admira e deposita confiança nas ações de Beasley: o índice de uso em 30,8% das posses de bola durante o tempo que permanece em quadra é o mais alto da carreira dele e o segundo maior do atual elenco — só atrás de Porzingis (33,8%), naturalmente.

Beasley nunca será MVP. Muito provavelmente, jamais conseguirá virar titular do Knicks ou de qualquer outro time. Talvez nem chegue a aparecer um dia nas conversas sobre o prêmio de melhor reserva, mas tem dado sinais de que pode se encaixar neste papel de jogador que sai do banco para produzir faísca ofensiva durante o tempo em que precisar ficar em quadra e, eventualmente, comandar o show se as coisas estiverem dando certo demais. E tudo bem. Depois de anos de altos e baixos, de frustrações por não corresponder a expectativas que se criaram em outros momentos e até de passagens pela China, a segunda escolha do Draft de 2008 parece à vontade como nunca na NBA e tem escrito um capítulo que é, de longe, o mais interessante da sua trajetória desde que chegou à liga.

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