Cousins foi para o Warriors, mas a NBA não acabou

Luís Araújo

“Viu aí? DeMarcus Cousins fechou com o Golden State Warriors!”

O primeiro pensamento após essa pergunta foi de que aquilo não era possível. Afinal de contas, o Warriors está bem acima do teto salarial. Então como é que seria possível contratar um cara desse? Não, bobagem. Vai ver isso é coisa de alguma conta falsa do Adrian Wojnarowski no Twitter. Destas aí que vira e mexe algum engraçadinho faz e consegue enganar os mais desatentos.

Não era. Era real, mesmo. Cousins no Warriors. Por um ano, através da “mid-level exception” — um mecanismo que permite a times acima do teto salarial contratar jogadores, mas por valores bem reduzidos (mais detalhes aqui). Então quer dizer que o atual campeão, essa máquina de jogar basquete comandada por Steve Kerr nos últimos anos, se reforçou com um dos maiores talentos da NBA atual sem perder nenhuma das suas peça-chave? É isso mesmo? E agora? A NBA perdeu a graça!

Horas se passaram. A cabeça esfriou, a razão voltou a querer dar as caras. A NBA não morreu coisa nenhuma. Nunca vai morrer. A não ser que um dia alguém, sabe-se lá como, resolva acabar com a brincadeira de uma vez por todas, mas aí já é uma outra história. Por mais que boa parte dos torcedores possam ter todos os motivos do mundo para não gostar de ver uma movimentação como essa, que dá uma dose gigantesca de qualidade individual a um time já extremamente poderoso, não faltarão histórias interessantes para se acompanhar ao longo da próxima temporada. Nunca falta. E é exatamente por isso que essa liga é tão espetacular.

Tem uma música do Pearl Jam chamada “I Am Mine”, que faz parte do álbum Riot Act, lançado em 2002. Dá para dizer com tranquilidade que é um dos maiores hits da banda. Tocou bastante nas paradas de sucesso de rádios e na MTV em uma época em que paradas de sucesso de rádios eram relevantes e a MTV ainda existia. Em um determinado momento da canção, aparece o verso: “I know I was born and I know that I’ll die / The in between is mine”. O que em uma tradução bem livre significa: “Eu sei que nasci e que um dia morrerei / O que está no meio disso pertence a mim.”

É uma coisa óbvia, pois todos nós já sabemos que vamos um dia morrer a partir do momento em que passamos a ter alguma lucidez em nossas vidas. Mas é nesta obviedade que aparece um exercício de reflexão tão simples quanto fascinante: nem mesmo a certeza de que o fim eventualmente aparecerá nos impede de aproveitar o que acontece antes disso da melhor maneira possível. O que importa mesmo na vida é a trajetória e como ela é construída.

É assim na NBA também. Nem precisa ir longe para buscar exemplos disso. Na primeira rodada dos playoffs de 2018, o New Orleans Pelicans varreu o Portland Trail Blazers. Foi um resultado que chamou a atenção por se tratar de um time que não tinha o mando de quadra na série, contra um oponente que estava voando após a pausa para o “All-Star Game”. Mas o que tornou isso tudo especial foi a maneira como o negócio se desenrolou. O Pelicans emplacou uma estratégia defensiva que minou a dupla Damian Lillard e CJ McCollum, forçando a equipe rival a erros atrás de erros. Anthony Davis foi demais, como sempre, mas não trabalhou sozinho. Jrue Holiday parecia um “all-star”. Rajon Rondo resgatou seus melhores momentos. Nikola Mirotic marcou tão bem longe da cesta que não lembrava em nada o jogador de defesa limitada dos tempos de Chicago Bulls. E Lillard declarou que nunca tinha encontrado um obstáculo como esse na carreira até então.

Ainda que o Pelicans não tenha passado da semifinal do Oeste, essa história escrita na série contra o Blazers foi muito legal de se acompanhar. Não dá para negar isso. O mesmo vale para a classificação do Utah Jazz sobre o Oklahoma City Thunder, também na primeira rodada. Um time que havia perdido seu principal jogador um ano antes conseguiu se reerguer nas mãos de um novato e de um novo armador, ao ponto de passar por cima de um adversário teoricamente mais poderoso, que contava com o MVP da temporada anterior e que havia se reforçado com outras duas estrelas.

E o Boston Celtics, que ficou a uma vitória de vencer o Leste mesmo desfalcado de Gordon Hayward e Kyrie Irving? Não foi divertido acompanhar Brad Stevens cavando fundo no elenco para encontrar maneiras de manter essa equipe competitiva? O Philadelphia 76ers, comandado por Joel Embiid e Ben Simmons, não encantou o suficiente para nutrir esperanças de um futuro brilhante? Que tal a caminhada de Victor Oladipo rumo ao estrelato em um Indiana Pacers desacreditado? Não foi curioso ver Chris Paul e James Harden desenvolverem um bom entendimento em quadra e acabarem com as dúvidas que existiam sobre o encaixe deles no Houston Rockets? Até o Dallas Mavericks, que não foi a lugar nenhum, conseguiu oferecer entretenimento durante a fase de classificação com os quintetos ultra baixos e excêntricos que Rick Carlisle colocava em quadra, mas que de algum jeito dava bons resultados.

Então a NBA não morreu coisa nenhuma com a ida de Cousins ao Warriors. Ainda que esse time destrua todo mundo que apareça pela frente, outras histórias interessantes aparecerão para que a gente possa acompanhar e se divertir.

E isso aí serve se tudo acontecer de acordo com o melhor cenário possível para o Warriors. Porque, na verdade, não dá para ter certeza alguma de que esse experimento vai funcionar. Cousins, vale lembrar, está se recuperando de uma cirurgia no tendão de Aquiles. A lesão que sofreu é uma das mais complicadas para um jogador de basquete. Mesmo que volte completamente saudável, ele não é lá muito conhecido pelas coisas defensivas que o Warriors adora fazer para tomar conta dos jogos. Isso sem falar nas questões de adaptação a um novo lar por parte do dono de uma das cabeças aparentemente mais complicadas da NBA.

Será que o temperamento vai atrapalhar? Como Cousins vai reagir por ter de se encaixar em um sistema ofensivo que não vai girar em torno dele? Como a defesa será escondida? Qual será o saldo dos “mismatches” que tendem a aparecer em quadra com a presença dele em quadra? E se o Warriors, que tem revezado seus pivôs nos últimos anos de acordo com as armas que os oponentes mostram, precisar deixá-lo esquecido no banco em alguma série dos playoffs? E o tendão de Aquiles? Vai aguentar bem? Vai deixá-lo manter o mesmo grau de mobilidade de antes?

Cousins carrega muito talento, mas também leva uma série dúvidas aos atuais campeões. Que justamente por esse motivo se transformam em uma história irresistível para a próxima temporada, tanto se derem muito certo como se falharem miseravelmente. Motivos para continuar acompanhando a NBA, definitivamente, não faltarão.

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