Curiosidades e balanço do Jogo das Estrelas de 2017

Luís Araújo

A intenção da Liga Nacional de Basquete era claramente fazer com que o Jogo das Estrelas de 2017 do NBB fosse a melhor edição do evento até hoje. Já dava para prever que isso aconteceria quando todos os ingressos foram vendidos com muita antecedência. Quando a hora chegou, veio a confirmação de que o objetivo estabelecido de fato foi alcançado.

Mais uma vez, Triple-Double acompanhou de perto o Jogo das Estrelas. Assim como já tem sido feito nos últimos anos, estão listadas a seguir algumas observações a partir desta experiência.

MVP de novo e experiência de NBA

A exemplo do que aconteceu no ano passado, Shamell comandou a vitória dos estrangeiros e ganhou o troféu de MVP da partida. Foi, na verdade, a terceira vez que ele ganhou esse prêmio, já que teve ainda a edição de 2009, passando à frente de Alex e tornando-se o maior vencedor da história. Mas não foi só por causa disso que o fim de semana foi especial para o norte-americano.

“Ser MVP foi uma coisa extra, o mais importante foi a gente conseguir dar um show para os torcedores”, declarou o jogador do Mogi das Cruzes. “Esses dias aqui foram bacanas. Estou muito feliz. Lá fora do ginásio estava cheio. Já vi muitos jogos da NBA e quando cheguei aqui me senti um jogador da NBA. Quando falaram meu nome na apresentação, comecei a me arrepiar.”

Competitividade

Jogo festivo é jogo festivo. Nunca vai ter o mesmo grau de intensidade de uma partida oficial, muito menos de uma dos playoffs. Mas sempre dá para tirar o pé totalmente do acelerador, reduzir a praticamente zero a competitividade e tornar a partida extremamente chata, como aconteceu no último “All-Star Game” da NBA. Mas não dá para dizer que foi o mesmo caso deste Jogo das Estrelas.

Tudo bem que não foi a partida mais pegada do mundo, e nem teria como ser mesmo. Mas deu para ver desde o começo um atrito, alguma rivalidade qualquer, que realmente fizesse daquilo um jogo, não um mero desfile de arremessos como se estivessem todos se aquecendo — como foi com a NBA neste ano, é bom dizer de novo.

“A gente sempre entra forte, entra para ganhar. Nós não queremos que ninguém se machuque, mas nos últimos três, quatro minutos, tem uma pegada diferente. Não é só o show que as pessoas querem, mas um jogo competitivo. No fim, teve isso e tiveram lances muito bonitos”, declarou Shamell.

Grandalhão habilidoso

Jefferson ganhou o torneio de três pontos e Corderro Bennett levou a melhor nas enterradas. Mas o que mais chamou a atenção nas competições individuais foi a vitória de Tyrone, ala-pivô do Mogi das Cruzes, no desafio de habilidades. Justo neste primeiro ano em que o NBB seguiu a mesma linha da NBA para essa atração em especial e passou a colocar jogadores mais altos para competir com armadores menores — e, em tese, mais rápidos.

“Eu só ganhei de caras mais baixos, com mais habilidade que eu. Por dois anos seguidos na NBA jogadores grandes foram campeões e desde o início eu falei que iria ganhar. Ninguém acreditou, mas agora eu sou o campeão”, declarou Tyrone.

Jota Quest: atração do intervalo do Jogo das Estrelas (Fotojump/LNB)

Show do intervalo

Uma grande novidade para o evento deste ano foi a apresentação musical no intervalo, que ficou sob responsabilidade do Jota Quest. Gostar ou não da banda é uma questão subjetiva, vai de cada um. O fato é que trata-se de uma das mais relevantes da música brasileira ao longo das últimas duas décadas, conhecida por uma parte enorme do público e que tem uma coleção vasta de hits que explodiram nas rádios.

Tinha tudo para ser um tiro certeiro da organização e foi mesmo. Durante os cerca de dez, 15 minutos em que a banda mineira tocou, tanto o público no Ibirapuera como os convidados na quadra e os próprios jogadores mostraram envolvimento com as músicas e parecem ter gostado bastante da atração.

Foi uma novidade que só veio a engrandecer o Jogo das Estrelas, certamente.

Celebridades

Thiago Braz foi responsável por um dos ouros olímpicos mais emocionantes que o Brasil já teve. Fabiana Murer, também no salto com vara, tem uma carreira como atleta olímpica bastante sólida e reconhecida. Raí era o camisa 10 da seleção brasileira de futebol que conquistou o tetra em 1994. Magic Paula foi uma das jogadoras mais geniais da história do basquete feminino, dispensa maiores comentários. Simone é uma cantora importante da MPB. Emicida é um fenômeno da atualidade. Isso sem falar nos youtubers que são acompanhados por milhões de seguidores e em mais algumas outras celebridades que também estiveram no Ibirapuera neste domingo. A presença de cada um deles também foi importante para ampliar a chance de o evento — e o basquete, por consequência — ser levado para novos públicos.

Mais atrações

Não foi só dentro do ginásio que o público teve a chance de se entreter. Do lado de fora, a ativação de patrocinadores ofereceu atrações que acabaram atraindo as atenções do público. Tinha uma tenda da Caixa logo na entrada, com atividades interativas, e a “Casa Sky” a alguns passos dali, com jogos entre trios e que chegou a receber o armador Fúlvio para uma clínica no sábado. Também havia alguns “food trucks”. Dava para passar o dia todo se divertindo por ali, prova disso é que esses espaços continuaram sendo frequentados por algumas horas depois que Shamell foi anunciado o MVP do Jogo das Estrelas.

NBB Brasil e NBB Mundo participam da homenagem aos bicampeões com a seleção brasileira (Fotojump/LNB)

Homenagens

Não existe nenhum dado científico para cravar alguma constatação sobre a faixa etária da maior parte do público no Ibirapuera, mas dá para dizer que não era nem um pouco difícil bater o olho em gente muito nova que comprou ingresso e compareceu ao ginásio. Havia mesmo muitos jovens. E que bom que todos eles tiveram a oportunidade de reverenciar por alguns minutos alguns grandes personagens da história do basquete brasileiro.

Esse foi mais um ponto positivo para a organização do Jogo das Estrelas deste ano. Um dos maiores, certamente. Em momentos diferentes, foram chamados à quadra campeões mundiais em 1979 pelo Esporte Clube Sírio, os vice-campeões mundiais de 1985 pelo Monte Líbano e os bicampeões mundiais com a seleção brasileira em 1959 e 1963.

Também vale ressaltar o fato de os uniformes dos times Brasil e Mundo na partida principal do evento foram inspirados justamente nestes dois clubes que foram homenageados. E é o tipo de coisa que pode acontecer sempre. Ganham os homenageados e ganha o público também. Valorizar a história e contar para os mais jovens quem foram os gigantes do passado é algo essencial. A Liga Nacional de Basquete acertou demais a mão nessa.

LBF

Está aí um ponto que deixou a desejar e que precisa urgentemente ser repensado para as edições futuras: a representatividade da LBF, competição que também é organizada pela Liga Nacional de Basquete. É claro que seria legal demais ter um confronto entre jovens da LDB e que no melhor dos mundos a Liga Ouro seria incluída de algum jeito também, mas são coisas menos importantes e menos urgentes do que a lembrança das mulheres.

Já que aquela competição de trios foi tirada da programação, bem que poderiam ser chamadas jogadoras do campeonato feminino para pelo menos participar no duelo das celebridades, algo que ocorre no “All-Star Game” da NBA. Obviamente não se trataria da solução que resolva todos os problemas da LBF em termos de exposição, mas pelo menos seria alguma coisa. Elas precisam ser levadas para dentro do maior evento do basquete brasileiro e aparecer de qualquer maneira.

Sarrafo mais alto

Essa referência ao salto com vara provavelmente seria feita mesmo se Fabiana Murer e Thiago Braz não tivessem participado do evento. Mas é isso: o Jogo das Estrelas deu o seu maior salto neste ano, e o sarrafo está muito alto. Como fazer para manter o padrão de qualidade no próximo evento? Esse já passa a ser o grande desafio para a organização.

“O sarrafo vai ficar mais lá no alto? Então vamos nessa”, respondeu João Fernando Rossi, presidente da Liga Nacional de Basquete. “A edição deste ano foi um passo novo em questão de desafio. Era um momento de ativar patrocinadores, como foi tanto na parte externa e como dentro. Novos desafios virão, mas a gente gosta. Vamos colher novas expectativas e novos modelos. A NBA nos ajuda nisso. Neste ano, ela trabalhou muito mais em bastidores do que em ativação. Não teve jogador participando, nem cheerleaders, nada. Nós andamos com as próprias pernas, mas contamos com a supervisão da NBA. Acho que esse é o caminho. Elevar o basquete brasileiro a um patamar diferente do esporte nacional.

O melhor de tudo?

E ao ser questionado sobre o que mais gostou no fim de semana de Jogo das Estrelas, Rossi destacou a união de todas as partes envolvidas na organização.

“A parte mais gratificante foi ver tudo isso funcionando. Saio daqui com a certeza de que foi tudo muito bem feito. As pessoas foram embora falando que gostaram, os atletas gostaram também, os patrocinadores idem. O mais bacana foi ver essa engrenagem toda. Às vezes as coisas funcionam bem na quadra, por exemplo, mas não na ativação de patrocinadores. E não foi o caso agora”, declarou.

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