Curiosidades e balanço do Jogo das Estrelas de 2018

Luís Araújo

Mais uma vez, o Triple-Double acompanhou de perto o Jogo das Estrelas. Algumas observações e declarações colhidas nesta experiência aparecem listadas a seguir.

Varejão MVP

Foram 18 pontos e 15 rebotes em 22 minutos na vitória dos brasileiros por 130 a 121 sobre os estrangeiros. O suficiente para o agora pivô do Flamengo faturar o prêmio em sua primeira participação no evento.

“Foi um jogo legal, nos divertimos muito. Acho que a coisa ficou mais séria no segundo tempo. É normal, todo mundo quer ganhar. No final, conseguimos fazer boas jogadas, garantir rebotes e segurar bem a defesa para ganhar o jogo”, afirmou Varejão.

A alegria e a tristeza de Leandrinho

Uma lesão na perna direita o fez virar desfalque de Franca na reta final da temporada regular e, consequentemente, o tirou do Jogo das Estrelas. Nas outras duas outras passagens que teve pelo NBB, ele acabou voltando para a NBA antes de o evento ser realizado. Desta vez, pelo menos, deu para ficar bem próximo de tudo.

“O evento foi maravilhoso”, disse Leandrinho. “Fico triste não ter tido a oportunidade de entrar em quadra e jogar no ginásio do Ibirapuera assim, desta maneira que estava. Mas fico muito feliz pela festa, pelo entretenimento e tudo mais.”

Mas Leandrinho ainda deu um jeito de ter pelo menos uma participação dentro de quadra. Nos minutos finais, mesmo sem estar com o uniforme de jogo, ele saiu da cadeira onde estava sentado, invadiu a quadra, recebeu um passe e tentou um arremesso para três pontos, que acabou não caindo.

“Aquilo foi ideia do Gustavo (De Conti, técnico do time brasileiro). Ele que me falou para entrar e fazer a cesta, mas a bola rodou pelo aro e não caiu”, contou Leandrinho.

“Querem vir jogar aqui”

A primeira passagem de Leandrinho pelo NBB aconteceu em 2011, durante o locaute da NBA, quando defendeu o Flamengo. Dois anos mais tarde, no final de 2013, assinou com o Pinheiros enquanto ainda se recuperava de uma cirurgia no joelho. Deu tão certo que um retorno aos Estados Unidos para acertar com o Phoenix Suns apareceu já em janeiro do ano seguinte.

Agora, em meio a essa trajetória com Franca, Leandrinho se mostrou completamente admirado pelo nível que o campeonato alcançou nesta décima edição. “O NBB vestiu a camisa e o nosso basquete melhorou demais. Existe hoje uma grande visibilidade”, disse o jogador, que não parou por aí.

“As coisas têm acontecido de uma maneira positiva depois que o NBB surgiu. Vem sendo feito ótimo trabalho. O basquete está sendo mais valorizado. Muitos amigos meus me perguntam sobre o campeonato e alguns querem vir jogar aqui para viver esse momento também. A organização está fazendo grande trabalho. Agora é continuar neste ritmo, não pode parar”, declarou.

Pelo o que afirmou, Varejão se encaixa neste perfil descrito por Leandrinho: de jogadores que querem viver o atual momento do NBB.

“Tinha ofertas da Europa e até da NBA. Elas não eram tão atrativas. Mas voltei porque acredito no NBB. Acredito no que vem sendo feito e, mais do que isso, sentia saudades de jogar no país. Tenho certeza que o basquete brasileiro está em um momento muito legal. E essa festa que foi o Jogo das Estrelas só reforça isso ainda mais”, disse.

Pivôs

As opções para o garrafão no time estrangeiro, que já eram curtas, ficaram ainda mais reduzidas com a lesão de David Nesbitt, do Paulistano. Restaram, portanto, apenas MJ Rhett e Tyrone, que são mais baixos do que os jogadores da posição que estavam à disposição no elenco brasileiro.

Foi um fator que acabou tendo bastante influência no desenrolar da partida. “Acho que nossa grande chave foram os rebotes”, declarou Larry Taylor, um dos 12 representantes da equipe brasileira. “Tivemos os pivôs maiores do que eles.”

“Eu tive de jogar de pivô em alguns momentos”, contou Shamell, que estava do outro lado. “Briguei com Rafael Hettsheimeir, JP Batista e Anderson Varejão. É difícil. Eles têm altura e largura. Eles pegaram bastante rebote e fez a diferença.”

Mas a declaração mais curiosa de todas sobre pivôs não teve nada a ver com a partida entre brasileiros e estrangeiros. Foi, na verdade, uma reflexão de Murilo Becker logo após o título do torneio de habilidades sobre a mudança da posição ao longo dos anos.

“Quando eu estava começando a minha carreira, o jogador da posição cinco ficava mais dentro do garrafão. Hoje, ele está saindo mais e chutando de três. As equipes têm isso como um diferencial. Alguns pegam o rebote na defesa e saem batendo a bola, outros são até mais rápidos que alguns alas. A gente vê muito isso nos jogos da NBA e cada vez mais por aqui também”, afirmou o pivô do Vitória.

Desfalques em cima da hora

Uma lesão na perna impossibilitou que David Nesbitt participasse do evento. Além de não entrar em quadra pelo time dos estrangeiros contra os brasileiros, o ala-pivô do Paulistano também ficou fora do torneio de enterradas. Em ambas as atividades, ninguém o substituiu. Elas prosseguiram com um a menos mesmo. E talvez passe por aí uma escorregada do Jogo das Estrelas.

Outra baixa no time estrangeiro foi Desmond Holloway. Neste caso, houve substituto, sim: Kendall Anthony, armador do Bauru. Mas o caderno distribuído à imprensa com a programação do evento ainda mostrava o ala-armador do Pinheiros, que mais tarde recorreu ao Instagram para postar uma mensagem dizendo que está com uma lesão no ombro já há três semanas.

“O mais legal é estar aqui”

Logo depois que conquistou o torneio de habilidades, ainda dentro de quadra, o pivô Murilo falou em alto e bom som para o Ibirapuera inteiro ouvir: “O mais legal é que estarei de novo aqui no ano que vem.”

Ao longo da carreira, Murilo acumula uma série de participações em Jogo das Estrelas. Em 2012, em Franca, chegou a ser o MVP, quando ainda defendia o São José e era um dos grandes destaques individuais do país. No ano passado, até chegou a ser convidado para participar do torneio de habilidades, mas não pôde comparecer e sentiu muito por isso. A vontade de fazer parte daquilo era enorme, principalmente pela proporção que o evento tomou.

Foi por isso que ele comemorou tanto a conquista, que certamente o levará ao próximo Jogo das Estrelas para defender o título.

“É uma festa muito grande para o basquete. Por mais que a partida em si não esteja valendo nada, os torcedores estão perto das estrelas. E isso para mim é uma honra muito grande. O prêmio é legal, mas o melhor de tudo é poder estar aqui de novo. Sei que já estou no fim da minha carreira, mas a única certeza que tenho agora é que estarei de volta no ano que vem e estou feliz por isso”, disse o pivô do Vitória.

Clima leve e interação

Teve mais gente que falou sobre como a melhor parte do Jogo das Estrelas é não estar fora dele.

“Estar aqui é muito gostoso”, disse Rafael Hettsheimeir, pivô do Bauru. “Apesar de rivais em quadra, somos todos amigos. Gostamos de reunir, encontrar esse ginásio lotado e manter um clima de zoeira entre a gente.”

“A gente compete um com o outro, mas o mais importante para mim é poder interagir com as crianças e os torcedores em geral”, afirmou Corderro Bennett, armador do Pinheiros.

O adeus a Marcelinho

Já está bem claro há muito tempo que a atual temporada é a última dele. É uma história que não poderia passar batida pela organização do Jogo das Estrelas de jeito nenhum. Não passou mesmo e acabou sendo, talvez, o ponto mais alto do evento.

Ao lado dos filhos, Marcelinho foi chamado para a quadra e recebeu um tênis personalizado da Nike. Mas o grande momento mesmo foi um vídeo no telão do ginásio com um recado de Kobe Bryant, que o parabenizou pelo o que classificou como “carreira fenomenal”.

“Não esperava a homenagem deste jeito”, disse Marcelinho. “O depoimento do Kobe me emocionou bastante. E estar ali com a minha família me deixou muito feliz. Estava conversando com a Hortência sobre existir um pouco de tristeza por estar deixando de fazer algo que amo. Mas tem a felicidade por ter vivido intensamente tantos anos de basquete. Só tenho a agradecer a todos por tudo isso.”

Essa cerimônia de reverência à carreira do ídolo do Flamengo era para ter sido ainda maior. Antes do tênis da Nike e da mensagem de Kobe Bryant, o telão no ginásio mostrou alguns lances dele em edições antigas do NBB. Presume-se que teriam ali no meio alguns depoimentos de figuras importantes. No momento em que o vídeo foi cortado, deu para ver Zico falando alguma coisa. O problema é que o som não saía, o que levou à interrupção. O depoimento de Kobe também saiu sem som, mas a legenda em português garantiu que a mensagem fosse compreendida por todo mundo.

Em algum momento esse vídeo vai chegar em Marcelinho. Ele ficará sabendo o que Zico e as outras pessoas que apareceram ali tinham para lhe dizer. Mas é uma pena que esse problema técnico tenha aparecido em um momento tão importante. A homenagem acabou emocionando de qualquer jeito, mas teria sido um momento muito mais especial se o som estivesse funcionando.

Shamell = 100% Jogo das Estrelas

Marcelinho Machado não foi a única lenda do campeonato a ser homenageado. O norte-americano do Mogi das Cruzes também recebeu festa no meio da quadra, viu um vídeo no telão e ganhou um par de tênis personalizado da Nike. Motivo: o fato de ser o único jogador a ter participado de todas as dez edições do evento até hoje.

“Meu amor e paixão é por causa de vocês. Eu fui criado como jogador aqui no Brasil, meu jogo se descobriu aqui. Sou muito grato por todo o carinho que recebo. Eu quero agradecer ao NBB e à Nike por esse momento. Meus filhos também têm dez anos. São dez anos de felicidade e muito basquete”, declarou Shamell.

Tyrone adorado

Shamell não é o único estrangeiro que pode falar sobre o quanto é adorado no Brasil. Tyrone, companheiro dele em Mogi das Cruzes, causou espanto pela festa que despertou do público no momento em que foi anunciado. O barulho foi muito maior do que quase todos os outros jogadores dos dois times. E não seria exagero afirmar que a recepção foi do mesmo nível que Anderson Varejão e Leandrinho tiveram.

Que Tyorne conta com a simpatia de boa parte dos torcedores que acompanham o NBB não é novidade nenhuma. Afinal de contas, foi ele o jogador mais votado pelo público na eleição daqueles que seriam titulares dos dois times.

“É muito bom ser o mais votado, nem sabia que tantas pessoas gostavam de mim assim”, disse o ala-pivô do Mogi das Cruzes.

Mas qual será que é o motivo por trás de tanta adoração? “Acho que é porque sou super normal, não sou estrela”, respondeu. “Eu brinco com as pessoas, sento para comer com elas no McDonald’s e elas gostam. Sou um cara normal, parceiro.”

Atrações musicais

Tudo bem não ser muito chegado na música que Thiaguinho e Péricles fazem. Gosto é gosto. Mas não dá para negar que o Jogo das Estrelas, mais uma vez, entregou ao público apresentações musicais de altíssimo nível. Péricles foi o responsável pelo hino nacional antes da partida entre brasileiros e estrangeiros. Mais tarde, foi convidado a subir ao palco no intervalo com Thiaguinho, que desfilou uma série de sucessos que boa parte do público tinha na ponta da língua.

O som no ginásio ficou limpo, bastante claro para os ouvidos espalhados pelo ginásio. Foi mais um tiro certeiro da organização, principalmente por serem artistas de alcance e pesados no cenário atual da música brasileira. Depois disso e do que o Jota Quest fez no ano passado, já surge uma expectativa grande pela atração musical do ano que vem.

Mais atrações

A exemplo do que já tinha acontecido na edição anterior, o público encontrou opções de entretenimento também do lado de fora do ginásio. A Sky, uma das patrocinadoras do campeonato, teve um espaço chamado “Arena Sky”, que funcionou tanto no sábado como no domingo e que recebeu uma série de atividades relacionadas ao basquete — desde competições individuais a sessão de autógrafos.

Tinha também tendas de outros patrocinadores com cestas de basquete, com brindes a quem acertasse o arremesso, além de uma loja da NBA com produtos oficiais e alguns “food trucks”. Dava para se fazer um bom passeio ali em volta e, de quebra, admirar algumas camisas pouco convencionais que apareciam por ali vez ou outra. Teve até uma de Timofey Mozgov no Los Angeles Lakers.

Esvaziamento

O Ginásio do Ibirapuera não chegou a ficar completamente lotado, mas recebeu o que pode-se considerar um bom público. Mas depois do show do intervalo, ficou bem nítido o quanto mais cadeiras passaram a ficar vazias. Boa parte dos torcedores não aguentou esperar até o fim do duelo entre brasileiros e estrangeiros e foi embora bem antes de Anderson Varejão receber o troféu de MVP.

A sensação que deu lá dentro do ginásio é que esse esvaziamento se intensificou depois que a pontuação centenária foi atingida — o que significava que todos os torcedores poderiam retirar um vale Big Mac lá na tenda do McDonald’s, localizada na parte de fora. O responsável por animar o evento até avisou que o brinde só seria dado após a partida, mas pouco adiantou.

É difícil saber ao certo a razão por trás disso. Talvez tenha sido a duração do evento, que começou às 10h e terminou por volta das 15h. Mas pode ser qualquer outra coisa também. A única certeza é que está aí um desafio importante para a organização visando à próxima edição.

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