Danny Green admite que chegou a perder as esperanças de continuar na NBA

Luís Araújo

No dia 25 de junho de 2009, o ala-armador Danny Green teve o nome chamado pelo Cleveland Cavaliers na segunda rodada do Draft da NBA. Quase cinco anos depois, sagrou-se campeão ao ajudar o San Antonio Spurs a derrotar o Miami Heat na decisão. O caminho que separa um momento e outro não foi dos mais tranquilos. Muitas dúvidas apareceram na cabeça dele ao longo da trajetória.

Entre o ingresso na liga e o título, Green passou por dispensas no Cavaliers e no próprio Spurs, defendeu três times da D-League (Liga de Desenvolvimento) e chegou até a se aventurar na Eslovênia. Tempos que ele julga terem sido difíceis ao ponto de fazê-lo questionar a própria capacidade de competir entre os melhores jogadores de basquete do mundo.

“Tive muitas dúvidas e fiquei desapontado. Comecei a perder a esperança que tinha quando cheguei à liga, mas contei muito com o apoio da minha família e dos meus amigos, que me encorajaram e me fizeram não desistir de lutar por um lugar”, disse Green ao Triple-Double, em entrevista exclusiva concedida na cidade de Barueri — em São Paulo, onde ele compareceu durante um evento promovido pela NBA no final de semana.

Além do apoio de amigos e familiares, outra pessoa teve participação fundamental para que Green conseguisse se estabelecer na NBA. Trata-se de Gregg Popovich, treinador do Spurs. “Ele me ajudou a ser mais inteligente dentro e fora da quadra”, revelou o ala-armador.

Além disso, Green comparou os estilos de Anderson Varejão e Tiago Splitter, os dois brasileiros com os quais já teve a oportunidade de jogar, e saiu em defesa dos ex-companheiros de Cleveland. Para ele, é injusto dizer que LeBron James se mandou de lá porque não tinha talento suficiente ao redor.

Veja a entrevista abaixo:

Triple-Double: Você jogou com Anderson Varejão em Cleveland e hoje é companheiro de Tiago Splitter em San Antonio. Quais semelhanças e diferenças você enxerga entre os dois?

Danny Green: Anderson é um cara mais enérgico, mas Tiago consegue fazer as mesmas coisas que ele. Os dois são bem parecidos. São dois homens de garrafão muito bons, que sabem fazer bloqueios, têm técnica para finalizar perto da cesta e defendem bem ao redor dela. Anderson é capaz de incomodar armadores e roubar bolas lá na frente, mais longe da cesta. Mas ele e Tiago são bem semelhantes na maneira de jogar e são muito bons. Por isso, têm carreiras bem-sucedidas.

Triple-Double: Muita gente costuma dizer que LeBron James foi para o Miami Heat em 2010 porque jogava sozinho em Cleveland. Você concorda com esse tipo de análise?

Danny Green: Não, não concordo com isso. Existia um bom time ao redor dele em Cleveland. Não era o melhor, com duas estrelas no elenco, como ele encontrou em Miami. Mas era bom e acredito que estava ficando melhor ano a ano. Tinha caras como Shaquille O’Neal, Mo Williams, Jamario Moon, Anthony Parker, Delonte West e J.J Hickson. Eram peças boas. Às vezes as coisas não saem como o imaginado, mas aquele time era bem sólido.

Triple-Double: Antes de ser campeão com o Spurs, você foi dispensado do Cavaliers e teve passagens pela D-League e pela Europa. Como foram esses tempos?

Danny Green: Muito difíceis, mas me ajudaram a chegar onde estou hoje. Passei por técnicos, ligas e ambientes bem diferentes. Valorizei muito mais o jogo e percebi que nunca podemos estar confortáveis em situação nenhuma na NBA. As coisas mudam muito de um ano para outro.

Triple-Double: O que passou pela sua cabeça neste período longe da NBA?

Danny Green: Tive muitas dúvidas e fiquei desapontado. Comecei a perder a esperança que tinha quando cheguei à liga, mas contei muito com o apoio da minha família e dos meus amigos, que me encorajaram e me fizeram não desistir de lutar por um lugar. Dei 100% de mim para conseguir meu espaço na D-League e conquistar uma nova oportunidade na NBA. Para a minha sorte, isso aconteceu ainda antes do que eu imaginava.

Triple-Double: Qual o peso que Gregg Popovich teve para você conseguir estabilidade na liga?

Danny Green: Ele foi muito importante. É um grande técnico e não tem uma carreira de sucesso à toa. Ele dá as oportunidades aos atletas, os joga no meio do fogo e vê o que cada um é capaz de fazer. Foi assim comigo também, e tive a sorte de conseguir aproveitar. Ele me ajudou a ser mais inteligente dentro e fora da quadra, me fez jogar explorando meus pontos fortes e conhece também as minhas fraquezas. É alguém que sabe tirar o melhor de cada um e que me faz atuar no limite. Tenho sempre que fazer tudo o que ele cobra da minha função.

Triple-Double: Além do Popovich, quem mais em San Antonio te ajudou a crescer como jogador?

Danny Green: Todo mundo, na verdade. O time todo se ajuda bastante, e a gente aprende demais com os veteranos. Só de Manu (Ginóbili), Tony (Parker) e Tim (Duncan) estarem ao redor todos os dias, você aprende e cresce profissionalmente.

Triple-Double: Você encarou o Miami Heat dois anos seguidos nas finais e os conhece muito bem. Acredita que o time ainda pode seguir brigando pelo título, mesmo após a saída de LeBron?

Danny Green: Sim. O Leste está muito equilibrado. O Miami Heat segue com duas estrelas no elenco e boas peças de apoio ao redor delas, podem continuar fortes. Alguns times novos estão sendo formados e lesões estão aparecendo. O Indiana Pacers, por exemplo, era um dos melhores da conferência na última temporada, mas agora Paul George se machucou e não sabemos ainda quando ele estará de volta. Por outro lado, o Chicago Bulls conta com o retorno de Derrick Rose. Muita coisa está mudando. Acredito que o Miami tem chance de se manter no topo porque segurou caras importantes e já conta com uma boa química no elenco.

Triple-Double: Falando em Paul George, você acredita que os times da NBA podem passar a não querer liberar seus principais jogadores para competições internacionais após a lesão dele?

Danny Green: Acho que vão todos ficar mais cautelosos, mas será difícil segurar os jovens jogadores que estiverem dispostos a representar suas seleções nas Olimpíadas. Alguns times podem até querer não liberá-los, mas não acredito que a situação vá mudar drasticamente em relação ao que acontece agora.

Triple-Double: Muitas pessoas reparam apenas nos seus chutes de três pontos e não observam tanto o trabalho defensivo, algo pelo qual você se destaca desde os tempos de atleta universitário. Sente-se injustiçado nesse sentido?

Danny Green: Não ligo muito para o que o resto das pessoas pensam. Só ligo para o meu técnico, e a defesa é a primeira coisa que ele olha e cobra de todo mundo. Sempre. Então, não me importa muito o que gente de fora pensa. O treinador e meus companheiros de time confiam nos meus serviços marcando, em como eu e Kawhi (Leonard) colocamos pressão em cima dos adversários no perímetro.

Triple-Double: Nenhum outro jogador na história do basquete universitário tem mais vitórias por North Carolina, a mesma que revelou Michael Jordan, do que você. Como é estar nesta posição?

Danny Green: É uma loucura pensar nisso e é difícil de acreditar também. Joguei quatro anos lá. Isso influencia muito, já que muita gente saiu para jogar profissionalmente depois de um ou dois anos. Mas é uma honra enorme ocupar um espaço como esse em um lugar com um programa de basquete tão bom e que revela tantos craques.

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