Davi Rossetto: “Quem sabe a gente não acaba fazendo história?”

Luís Araújo

Não chegaria a ser algo inédito se alguma zebra desse as caras nos playoffs do NBB. Esse tipo de coisa aconteceu pelo menos duas vezes nos últimos anos. Em 2015, por exemplo, Macaé passou por Minas nas oitavas e ficou a um passo da semifinal depois de ter feito apenas a 12ª campanha na fase de classificação. Na temporada anterior, Mogi das Cruzes também entrou como o 12º lugar e foi ainda mais longe, terminando o campeonato entre os quatro melhores.

Davi Rossetto espera que o Basquete Cearense seja capaz de escrever nas próximas semanas mais um capítulo do tipo. Seria uma maneira de superar as frustrações de um time que chegou às quartas de final no ano passado, mas que decepcionou na atual temporada com uma campanha que teve mais derrotas do que vitórias e que rendeu apenas a 11ª posição na fase de classificação.

Para reforçar essa crença de que as coisas ainda podem ser melhores nos playoffs, o armador se agarra na lembrança de que a equipe conseguiu fazer jogos duros contra adversários que terminaram na parte de cima da tabela e que alguns destes confrontos só escaparam mesmo na reta final. “Precisamos deixar isso para trás. O que aconteceu não conta mais. Daqui para frente, temos de aprender com o que aconteceu para chegarmos com mais força e confiança aos playoffs. Quem sabe a gente não acabe fazendo história?”, disse Davi.

Veja o bate-papo completo a seguir:

Triple-Double – A campanha do Basquete Cearense foi bem inferior em relação à temporada passada. Mas ter feito bons jogos contra times fortes serve como esperança para os playoffs?

Davi Rossetto – Exatamente. Conseguimos fazer jogo duro contra praticamente todas as equipes do campeonato, mesmo não ganhando todas essas partidas. O que devemos agora é não ficar muito preocupados com a nossa posição e com qual adversário pode aparecer na nossa frente nos playoffs. O negócio é tentar chegar do melhor jeito possível fisicamente e com confiança. Os playoffs passam muito pela maneira como você encara isso e pela parte mental, então precisamos ter cabeça forte agora.

Triple-Double – A força mental foi um grande defeito de vocês nesta temporada, até por muitos jogos terem escapado no fim?

Davi Rossetto – Sim. Porque isso vem muito da confiança que você tem também. Nós sofremos muito com desfalques e tivemos alguns resultados ruins, muitos deles na parte final do jogo, nos quais deixamos a partida escapar. Isso pesa muito no emocional. Precisamos deixar isso para trás. O que aconteceu não conta mais. Daqui para frente, temos de aprender com o que aconteceu para chegarmos com mais força e confiança aos playoffs. Quem sabe a gente não acabe fazendo história?

Davi Rossetto, líder do Basquete Cearense dentro de quadra (Foto: Stephan Eilert/Solar Cearense)

Triple-Double – Uma coisa que chama a atenção nesta temporada é você atuar bastante tempo sem a bola nos ataques. Isso foi algo que vocês realmente buscaram como estratégia?

Davi Rossetto – É uma estratégia dos outros time de tirar a bola da minha mão. Só que, ao mesmo tempo, a gente tem condição de jogar assim. Não é algo tão ruim para a gente. Então temos algumas jogadas nas quais eu vou para o ataque sem a bola, mas acabo finalizando com um “pick and roll”, um bloqueio indireto ou de algum outro jeito. Foi uma maneira que encontramos de nos adaptar. Até porque tinha uma época em que os outros armadores estavam machucados, só tinha eu, e então os outros times passaram a fazer isso, deixando quem estivesse mais perto de mim com a responsabilidade de me negar o passe. Aí, ao invés de fazer uma força descomunal para receber a bola ou para me livrar da marcação, eu comecei a jogar sem bola e, no final, na hora de decisão, eu a pego. Ou então, mesmo que acabe não sendo acionado, eu tento fazer com que o meu marcador fique grudado a mim e não ajude tanto os companheiros dele.

Triple-Double – Alguns números seus são melhores do que os da temporada passada. Acha que individualmente tem feito um campeonato melhor?

Davi Rossetto – Não porque nós não estamos ganhando. O papel do armador e de um capitão do time é botar todo mundo em boa condição e deixar todos confiantes. E nosso time não está assim. Meus números até melhoraram, mas minha sensação é de que não estou fazendo as coisas pelo meu time de uma maneira tão boa como imagino que posso fazer. Até pelas noites de sono que perdi depois de cada derrota, não posso dizer que essa temporada foi melhor do que a anterior.

Triple-Double – Você falou que é de perder o sono pelas derrotas. Como costuma ser seu comportamento depois dos jogos? Vê vídeos, busca observar o que fazer de diferente?

Davi Rossetto – Demais. Mas isso também porque eu sou um cara que vai na contramão do resto. O meu biotipo não é o ideal, não sou alguém que foi o destaque de tudo e nem aquele que todo mundo esperava grandes coisas. Então eu peguei isso tudo e usei como características minhas, de me cobrar muito e de não me satisfazer tão fácil com o meu desempenho. Eu não sei onde vou chegar no fim das contas, mas quero extrair o máximo do meu potencial.

Triple-Double – Uma outra coisa curiosa sobre a temporada do Basquete Cearense é que a defesa estatisticamente continua sendo muito boa. O problema tem sido no ataque, com poucas assistências e muitas jogadas individuais?

Davi Rossetto – Sim. Esse negócio de usar poucas assistências é negativo ao extremo até por não termos muita gente no elenco com essa característica de definir no um contra um. A gente se cobra muito sobre isso, para darmos passes extras e buscarmos a melhor situação de definição, coisas que fazíamos bem na temporada passada, mas que perdemos em algum momento. É uma coisa que cobramos demais porque sabemos que é esse o caminho. Nos jogos em que passamos mais a bola, tivemos a sensação de que jogo fluiu melhor. É claro que há times que não usam tanto assistências e que estão bem colocados no campeonato porque são capazes de atacar assim. Mas equipes que apostam em passes extras e em movimentações de bola intensas são as mais duras de se enfrentar. O um contra um você marca. Mas correr o tempo inteiro atrás do adversário depois que alguém desequilibra a sua defesa é muito frustrante de se lidar. Acho que mora aí o grande segredo do basquete no nosso nível.

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