David Bowie, o gênio que usou a arte como poucos

Luís Araújo

Quando David Bowie se foi, músicos dos mais distintos estilos se pronunciaram para expressar o quanto estavam sensibilizados com a perda. De Kanye West a Iggy Pop, de Cher a Mick Jagger.

Não é para menos. Bowie não era um familiar ou uma figura presente fisicamente na vida de todo mundo que se sentiu comovido com sua partida, mas é como se fosse. A música é uma forma de expressão tão poderosa que é capaz de aproximar pessoas que nunca estiveram juntas e de conectar artistas a fãs como se fossem amigos íntimos. Basta que a obra tenha algum tipo de significado para quem está do outro lado.

E isso ele soube fazer muito bem. Pouca gente se entregou tanto à arte como Bowie, que se reinventou várias vezes através dos diferentes personagens que criou e que usou o dom que tinha até mesmo na hora de se despedir. Nem mesmo uma doença tão desgraçada quanto o câncer o impediu.

No vídeo da música “Lazarus”, lançado na semana anterior, ele aparece em uma cama de hospital e canta: “Look up here, I’m in heaven. I’ve got scars that can’t be seen”. Que em português significa: “Olhe para mim, eu estou no céu. Tenho cicatrizes que não podem ser vistas”.

Imaginar que alguém encontrou forças o suficiente para transformar o sofrimento que passou nas semanas derradeiras em um último trabalho é impressionante. Somente um gênio bastante comprometido com o que fez a vida toda poderia realizar esse tipo de coisa. Algo que, obviamente, sensibilizou ainda mais quem já tinha motivos de sobra para se emocionar com a partida dele.

“Ele experimentou diferentes estilos e foi preciso em muitos deles. Deixou talvez o maior legado do pop e influenciou grandes artista de diferentes estilos”, disse Gustavinho, armador do Caxias do Sul e grande fã do Camaleão do Rock, ao Triple-Double.

A porta de entrada para a admiração foi a MTV, que inevitavelmente acabava tocando alguma coisa de Bowie. “Mas comecei a gostar realmente na adolescência, quando passei a frequentar a cena alternativa de São Paulo, em baladas de rock dançante e GLS, nas quais ele, o The Cure, a Patti Smith e o New Ordem reinavam”, contou Gustavinho.

Em meio a tantas coisas boas que a música oferece no sentido de aproximação de pessoas, é possível que um efeito colateral apareça: o de músicos brilhantes serem tratados como grandes seres humanos. É importante sempre deixar claro que uma coisa não precisa ter relação com a outra. O Bowie-cidadão não era santo. Mas o Bowie-artista era especial e criou uma série de coisas mágicas que vão durar para sempre.

Quem não as conhece deveria ir atrás. O Youtube está aí para isso. Pode ser uma surpresa agradável também para os infelizes que encheram o peito, cheios de orgulho, para dizer na segunda-feira que nunca ouviram falar de Bowie. Como se a ignorância realmente fosse digna de troféu. Ninguém tem a obrigação de estar por dentro de tudo o que ele produziu, bem longe disso. Mas tratá-lo como um completo anônimo é demais. Seria mais ou menos a mesma coisa que alguém falar que não tem nem ideia de quem é Magic Johnson, por exemplo.

“Foi o maior artista pop de todos, uma verdadeira metamorfose ambulante, um gênio que precisa ser desbravado. Entre os diferentes discos que lançou, um deles você vai achar que é a sua cara”, recomendou Gustavinho.

“Eu gosto de várias fases, do glam rock do ‘Ziggy Stardust’ à pegada mais punk do ‘Young Americans’. Mas minha fase predileta é da euforia pop do ‘Let’s Dance’. ‘Modern Love’ é minha música favorita, mas também poderia apontar ‘Jean Genie’, ‘Ashes to Ashes’, ‘Ziggy Stardust’, ‘Let’s Dance’, ‘Changes’, ‘China Girl’ e ‘Fame'”, completou.

Antes de partir, Bowie nos disse que todos podemos ser heróis, mesmo que por um só dia. Também mostrou que temos a liberdade de sermos quem bem entendermos e de dizer como nos sentimos da forma que julgarmos mais apropriada, sem nos importar com aquilo o que pregam os padrões de comportamento e atitude impostos pela sociedade.

Tal qual uma partida de basquete, uma boa música pode nos fazer esquecer um pouco dos problemas que nos cercam ou, pelo menos, nos dar uma dose extra de motivação e força para encará-los. Bowie tem muitas assim.

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