Depois de um bom primeiro passo, o Blazers empacou

Luís Araújo

Dar um bom primeiro passo em um trabalho de longo prazo e que se apresenta bastante desafiador é sempre animador. Fica a impressão de que a pior parte ficou para trás e alimenta a esperança de que coisas muito especiais podem aparecer pelo caminho, mas não adianta nada se as etapas seguintes forem um desastre, marcadas por decisões equivocadas. Foi mais ou menos o que aconteceu com o Portland Trail Blazers ao longo dos últimos meses.

Depois da eliminação para o Memphis Grizzlies na primeira rodada dos playoffs de 2015, o time perdeu quatro titulares: LaMarcus Aldridge assinou com o San Antonio Spurs, Robin Lopez se juntou ao New York Knicks, Wesley Matthews acertou com o Dallas Mavericks e Nicolas Batum foi enviado em uma troca para o Charlotte Hornets. Do quinteto que mais tempo passava em quadra, sobrou apenas Damian Lillard, que imediatamente recebeu uma extensão que o deixa sob contrato com o Blazers até julho de 2021. Assim, o armador seria responsável por comandar uma equipe em reconstrução, de baixo investimento em um primeiro momento e que em tese levaria algum tempo para voltar a ser competitiva no Oeste.

Aí veio a temporada 2015/16. Depois de um começo ruim, mais ou menos como previam quase todos os prognósticos, o Blazers passou a vencer muito mais vezes, foi se distanciando das últimas posições do Oeste, passou da marca dos 50% de aproveitamento e acabou em quinto lugar. Mesmo com uma das folhas salariais mais baixas da liga, o time ganhou 44 partidas, chegou aos playoffs, passou na primeira rodada pelo Los Angeles Clippers (que sofreu demais com lesões, é verdade) e até arrancou um jogo para evitar a varrida do Golden State Warriors na semifinal de conferência.

Uma das grandes histórias daquela temporada foi a maneira como CJ McCollum despontou. Depois de duas temporadas recebendo poucos minutos, ele aproveitou a debandada de gente importante para virar titular e entregou 20,8 pontos e 4,3 assistências em quase 35 minutos por partida, além de um aproveitamento de 41,7% nas bolas de três. Não à toa, ganhou o prêmio de jogador que mais evoluiu.

A campanha do time teve outras boas surpresas além de McCollum. Mason Plumlee se mostrou um ótimo passador e usou isso para possibilitar um ajuste importante do técnico Terry Stotts na série contra o Clippers. Al-Farouq Aminu foi uma ótima aquisição para defender na posição quatro e passar dos dez pontos de média por jogo. Allen Crabbe também teve mais de dez pontos de média e acertou mais de 39% dos chutes de três que tentou. Meyers Leonard foi outro que ajudou a abrir a quadra com os chutes de longe.

Parecia uma situação promissora. Depois daquilo tudo, era muito fácil imaginar que a evolução fosse continuar e que esse time poderia ter um futuro brilhante. Mas aí veio uma combinação de falta de sorte com decisões erradas para acabar com a festa. O teto salarial de todas equipes da NBA aumentou, o que naturalmente pode levar os gerentes-gerais a perderem um pouco a noção sobre o salário dos jogadores, e isso ocorreu bem no momento em que algumas das boas surpresas do Blazers viraram agentes livres. Moe Harkless assinou um novo contrato no valor de US$ 40 milhões por quatro anos. Meyers Leonard renovou por US$ 41 milhões também por quatro anos. Teve ainda a opção de cobrir a proposta do Brooklyn Nets por Allen Crabbe, que recebeu uma oferta de US$ 75 milhões ao longo de quatro anos. Além disso tudo, foram contratados Evan Turner (US$ 70 milhões por cinco anos) e Festus Ezeli (US$ 16 milhões por dois anos).

A cereja do bolo é que a extensões de Lillard — aquela oferecida em 2015 — e também a de CJ McCollum passaram a valer. Resultado: depois de ter uma das folhas salariais mais baixas da NBA no campeonato anterior, o Blazers entrou na temporada 2016/17 com uma das mais altas, pagando multa por estar acima da “luxury tax“. Isso tudo para apenas manter o time que surpreendeu no primeiro ano do processo de reconstrução e adicionar Turner e Ezeli — que foram bem úteis no Boston Celtics e no Warriors, respectivamente, mas que não davam pinta de que elevariam tanto assim o nível da equipe.

Lillard manteve o alto nível que se acostumou a apresentar e McCollum seguiu melhorando, mas o resto das peças, principalmente as que receberam contrato novo, não evoluíram tanto. Ou seja: continuaram mostrando mais ou menos a mesma coisa, mas ganhando salários bem maiores e mordendo uma parcela maior da folha salarial. Para piorar, Ezeli nem chegou a entrar em quadra por casa dos problemas recorrentes no joelho e Turner entregou mais ou menos o que se esperava: boa defesa, mas também muitos momentos de problema de encaixe por ser um jogador que gosta muito de ter a bola nas mãos e que não chuta tão bem de longe.

A cara nova que de fato ajudou o time a melhorar foi Jusuf Nurkic, que chegou pouco antes do “All-Star Game” em uma troca com o Denver Nuggets envolvendo Mason Plumlee. É que o bósnio deu muito mais certo do que se poderia imaginar, ajudando a tornar o sistema ofensivo um dos cinco mais eficientes da liga durante o seu período em Portland, mas a movimentação teve motivação financeira, pois a ideia foi a de basicamente pegar um contrato de novato e se livrar de um que estava mais perto de acabar e que fatalmente demandaria uma boa grana para renovar.

Muito graças ao impacto que Nurkic teve nos dois lados da quadra, o Blazers se recuperou depois de um começo de temporada muito fraco e mordeu o oitavo lugar do Oeste. Mas esse crescimento serviu só para tomar uma varrida do Warriors na primeira rodada. Mais uma vez, ficou clara a distância para as principais potências da liga. Só que, ao contrário do ano anterior, não havia flexibilidade financeira nenhuma.

Por isso que Ezeli foi dispensado — já que ele tinha apenas US$ 1 milhão garantido para a temporada 2017/18 — e que o gerente-geral Neil Olshey se viu forçado a aceitar mandar Crabbe para o Nets, um ano depois daquela oferta que cobriu, em troca do ala-pivô Andrew Nicholson. Crabbe é indiscutivelmente o melhor jogador do negócio e disparadamente mais útil para se ter ao lado de Lillard e McCollum, mas isso ficou em segundo plano diante da oportunidade que apareceu de poupar bastante dinheiro. Ao dispensar Nicholson e usar a “stretch provision“, diluindo os US$ 19 milhões aos quais ele ainda tinha direito em um tempo maior, mas em parcelas consideravelmente menores, o Blazers verá a multa por estar acima da “luxury tax” despencar. De acordo com Bobby Marks, especialista em regras salariais da NBA, esse valor passou de US$ 48,3 milhões para US$ 4,4 milhões.

A manobra também serviu para colocar a franquia em melhor condição para manter Nurkic, que poderá virar agente livre em 2018. Ainda assim, há coisas a serem feitas. A folha salarial continua entre as três mais altas da NBA e acima da “luxury tax”. Se isso já é incômodo para um time como o Warriors, atual campeão e em ótima posição para construir algo histórico nos próximos anos, para quem está longe disso é muito pior.

Nesta busca para economizar um pouco mais, o Blazers corre o risco de perder mais jogadores úteis a troco de nada, o que pode levar à perda de força em uma Conferência Oeste que promete ser especialmente competitiva na próxima temporada. No intervalo de um ano, a esperança deu lugar a uma série de preocupações que não deverá desaparecer até essa situação financeira se acertar e alguma flexibilidade salarial for criada. O cenário já não parecem mais tão animador.

Seria um erro dizer que aquele primeiro passo não teve valor. Ninguém vai poder tirar dos torcedores do Blazers o sentimento de ter visto um time desacreditado surpreender muita gente e alcançar a semifinal do Oeste em 2015. É sempre especial poder acompanhar esse tipo de história, a narrativa é irresistível. Mas isso já foi, a sensação de ser a zebra que derruba favoritos ficou para trás. O que esses torcedores precisam agora é que Olshey descubra uma maneira de fazer as coisas voltarem a andar.

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