Diário dos playoffs da NBA – O Warriors é um “time campeão”

Luís Araújo

O Golden State Warriors chegou aos playoffs com apenas sete vitórias nos últimos 17 compromissos da temporada regular. Ao final da primeira partida da série contra o San Antonio Spurs, a sensação era totalmente diferente em relação à desconfiança que poderia existir antes de a bola subir. Parecia até que a má fase jamais existiu. Onde foi que esse time andou durante os últimos dois meses?

O Warriors ganhou e de maneira expressiva. Depois de abrir 28 a 17 no primeiro quarto, até viu o Spurs ensaiar uma reação no período seguinte ao baixar a diferença para seis pontos. Mas, logo em seguida, respondeu com uma corrida de 16 a 6 e não deu mais chance nenhuma para o adversário durante a segunda metade.

“Nós somos um time campeão. Sabemos o que precisa ser feito nesta época do ano para se vencer. Queremos voltar a mostrar isso, apesar do que todo mundo tem falado. Estão dizendo que o Warriors perdeu o encanto dos anos anteriores. Que não está mais unidos. Que não consegue vencer sem Steph Curry. Que não é mais o mesmo time e blá, blá, blá”, disse Draymond Green após o confronto.

“Sabemos do que somos capazes. Já ganhamos jogos e até séries de playoffs sem o Steph. Também já ganhamos partidas sem o Kevin Durant, sem mim, sem o Klay Thompson e até sem nosso técnico. Então estamos acostumados a isso. Muita gente parece que se esqueceu do que somos capazes. Mas nós sabemos disso e vamos mostrar para todo mundo”, completou.

É compreensível — e até importante, de certa maneira — que ele tenha esse tipo de mentalidade de querer contrariar quem duvida dos atuais campeões. Mas isso não anula o quanto o Warriors realmente estava jogando mal na reta final da temporada regular. E essa vitória no começo da série contra o Spurs passa bastante pela defesa, coisa que não vinha mesmo funcionando tão bem nas últimas semanas.

O Spurs foi limitado a apenas 40% de aproveitamento nos chutes. Isso porque as coisas ficaram um pouco mais frouxas na reta final do jogo, quando tudo já estava definido e os dois times colocaram os reservas em quadra. Se for considerado só o primeiro tempo, por exemplo, esse rendimento da equipe comandada por Gregg Popovich foi de 34,1%. O mapa de arremessos abaixo mostra o quanto foi difícil finalizar perto do aro.

Fica difícil não olhar para o sucesso da defesa do Warriors neste jogo sem lembrar de duas mudanças importantes que o técnico Steve Kerr resolveu fazer no quinteto inicial. Uma delas foi colocar JaVale McGee como pivô titular, ao invés de Zaza Pachulia. A outra foi escalar Andre Iguodala na vaga de Stephen Curry, e não Quin Cook.

“Eu só quis botar em quadra desde o começo a nossa melhor formação defensiva possível. Acho que o grande ponto deste começo de playoffs para a gente é restabelecer a nossa defesa. Acho que vocês sabem bem o quanto a nossa defesa esteve abaixo do ideal nas últimas semanas. Não dá para vencer nos playoffs sem defender bem. Mas nosso time conseguiu fazer isso nesta partida.”

Essa questão do tamanho das suas peças teve um papel muito importante para que o Warriors atropelasse nesta primeira partida. McGee, por exemplo, conseguiu infernizar a vida de LaMarcus Aldridge, grande foco ofensivo deste Spurs sem Kawhi Leonard. Dá para ter uma ideia disso no primeiro lance do vídeo a seguir.

Mas não foi só isso. Como nos seus melhores tempos ao longo destes últimos anos, o Warriors mostrou uma precisão muito grande para fazer trocar de marcação, tanto em lances com a bola como fora dela, com uma comunicação de primeiro nível entre seus jogadores para fechar os espaços e forçar o ataque do Spurs a situações que passavam longe de serem confortáveis.

Uma amostra disso pode ser observada neste ataque em que o Spurs tentou explorar Aldridge de costas para a cesta. Assim que ele recebeu a bola, Draymond Green correu para ajudar McGee e a fazer a dobra. A rotação que aconteceu em seguida para fechar os espaços e não ceder arremessos livres foi simplesmente perfeita. Muita comunicação e leitura perfeita dos jogadores em quadra sobre o que estava se desenrolando.

“Nós não queremos ir para casa perdendo por 2 a 0”, disse Manu Ginóbili. “Mas, ao mesmo tempo, nós precisamos ser mais inteligentes. Ofensivamente, nós precisamos movimentar melhor a bola. Temos de ser mais agressivos e ver o que acontece. Nós somos azarões. Vamos precisar nos superar para vencer.”

Se quiser ter alguma chance de conquistar vitórias neste duelo, é bom mesmo que o Spurs dê algum jeito de encontrar mais espaços nesta defesa do Warriors. Do outro lado, esse começo de série foi tudo o que os atuais campeões precisavam para refrescar a memória das pessoas sobre o quanto podem ser bons.

Todos os resultados do dia

San Antonio Spurs 92 x 113 Golden State Warriors
Washington Wizards 106 x 114 Toronto Raptors
Miami Heat 103 x 130 Philadelphia 76ers
New Orleans Pelicans 97 x 95 Portland Trail Blazers

Falando nisso…

Pois é. A maldição caiu. Pela primeira vez em toda a sua história, o Raptors abriu a sua participação nos playoffs com uma vitória. Não foi fácil, mas no último quarto o time canadense conseguiu se desgarrar no placar. A turma que saiu do banco ajudou muito nisso aí. Delon Wright, por exemplo, anotou 11 dos seus 18 pontos no último quarto.

Outro reserva útil foi Lucas Bebê, que ajudou com bloqueios no perímetro para abrir espaços para os armadores infiltrarem e, principalmente, com proteção eficiente do garrafão. A decisão de Dwane Casey de colocá-lo para jogar ao invés de Jonas Valanciunas ou Jakob Poeltl até causou estranheza na hora, mas acabou dando certo. Durante os nove minutos em que ele ficou em quadra no último período, o Raptors teve um saldo de oito pontos.

Além disso tudo, vale a pena também destacar um outro feito marcante da equipe no jogo: as 16 bolas de três que foram convertidas. Trata-se de um recorde da franquia em partidas de playoffs.

“Take That For Data”

Faltou um rebote só para Ben Simmons marcar a sua estreia em playoffs com um triplo-duplo. Não deu, mas isso não significa que a atuação dele na vitória sobre o Miami Heat não tenha sido especial. As 14 assistências dele foram a segunda maior marca de um jogador estreante em playoffs, atrás apenas das 16 de Magic Johnson em 1980.

Mas talvez o lance mais legal de Simmons na partida não tenha a ver com nenhuma das suas assistências. Foi neste ataque que ajuda a ilustrar a versatilidade do Sixers. Foi JJ Redick quem levou a bola da defesa para o ataque e encontrou o calouro aberto na linha de três, pronto para fazer um “handoff”. A defesa do Heat se preparou para o que parecia ser a sequência óbvia do lance: Redick pegando a bola das mãos do companheiro com espaço para chutar de três. Só que Simmons enganou todo mundo e atacou a cesta. Não que tenha sido algo de outro mundo, mas é o tipo de coisa diferente que ajuda a dar uma ideia do quanto esse rapaz é especial.

Outra estatística interessante da rodada passa por Anthony Davis, que anotou 35 pontos na vitória do Pelicans sobre o Blazers. Esse foi o quinto jogo dele nos playoffs. Em cada um dos quatro anteriores, ele também fez pelo menos 25 pontos. O que o coloca ao lado de um seleto grupo de craques da história da NBA. Só outros quatro jogadores conseguiram iniciar a trajetória nos playoffs com pelo menos 25 pontos nos primeiros cinco jogos. São eles: Kareem Abdul-Jabbar (que fez isso nas suas 14 primeiras partidas), LeBron James (seis), Wilt Chamberlain (cinco) e Earl Monroe (cinco).

O grande lance do Pelicans foi conseguir envolver Davis perto da cesta, coisa que aconteceu demais ao longo da segunda metade da temporada e que tem relação direta com a forma avassaladora com a qual ele vem jogando desde a lesão de DeMarcus Cousins. Um exemplo disso pode ser acompanhado na jogada a seguir.

Tudo começou com Nikola Mirotic se posicionando para fazer um bloqueio em cima de CJ McCollum, que conseguiu escapar e continuou perseguindo Rajon Rondo. Só que Mirotic continuou flutuado ali no perímetro e recebeu o passe no momento em que Davis fez um bloqueio em Al-Farouq Aminu. Para evitar que o espanhol pudesse chutar livre de três, Jusuf Nurkic saiu correndo para tentar contestar. Aminu tomou a mesma decisão depois que se livrou do corpo de Davis, que girou sozinho em direção à cesta, recebeu o passe e enterrou.

Quem mais chamou a atenção?

Klay Thompson, Kevin Durant, Anthony Davis e Ben Simmons foram as grandes estrelas, mas o primeiro dia dos playoffs também teve alguns outros destaques individuais que merecem citação por aqui. Como, por exemplo, JJ Redick, que acertou quatro tiros de três pontos e anotou 28 pontos pelo Sixers contra o Heat.

Marco Belinelli e Dario Saric também converteram quatro bolas de longa distância cada um e colaboraram para a vitória do Sixers com 25 e 20 pontos, respectivamente. Em Toronto, Serge Ibaka somou 23 pontos e 12 rebotes para o Raptors contra o Wizards, incluindo três bolas de três pontos em quatro tentativas. O técnico Dwane Casey até falou depois do jogo o quanto essa capacidade dele de abrir a quadra ajuda a desafogar o ataque em momentos complicados.

Mas seria uma injustiça enorme não fazer nenhum tipo de menção a Jrue Holiday. Dá para dizer que o armador foi tão importante quanto Davis para que o Pelicans pudesse quebrar o mando de quadra do Blazers na série. Os 21 pontos e sete rebotes já são números vistosos, mas o importante mesmo foi o trabalho defensivo na reta final do confronto, evitando que a reação do adversário se transformasse em uma virada.

O toco em cima de Pat Connaughton a alguns segundos do fim foi providencial. Vale reparar em como o ala-armador do Blazers fez um bloqueio com a intenção de deixá-lo longe de Lillard e rapidamente correu para baixo da cesta. Foi até uma jogada interessante por parte de Terry Stotts. Mas Holiday não demorou para ler o que estava acontecendo, tomou a decisão correta e ainda mostrou um “timing” preciso para contestar a finalizaçao e dar o toco.

Não foi só isso. O toco fechou com chave de ouro uma sequência absurda de decisões e execuções corretas de Holiday na defesa. Antes disso, Damian Lillard infiltrou e tentou cavar uma falta que qualquer outro defensor um pouco menos inteligente e menos bem postado cometeria. E teve uma outra jogada em que Holiday conseguiu desarmar CJ McCollum e acabar com um contra-ataque do Blazers em um lance no qual também era fácil demais cometer a falta.

A agenda do dia seguinte

14h – Milwaukee Bucks x Boston Celtics
16h30 – Indiana Pacers x Cleveland Cavaliers
19h30 – Utah Jazz x Oklahoma City Thunder
22h – Minnesota Timberwolves x Houston Rockets

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