Diário dos playoffs da NBA – Um obstáculo novo para LeBron

Luís Araújo

A primeira rodada dos playoffs da NBA nunca foi um problema para os times de LeBron James. Seja pelo Cleveland Cavaliers ou pelo Miami Heat, ele não só nunca foi eliminado nesta fase como jamais chegou a se ver em posição de desvantagem na série. Além disso, não perdia desde 2012. A última derrota tinha sido em 2012, quando o Heat eliminou o New York Knicks por 4 a 1. Desde então, foram 21 vitórias consecutivas.

Mas essa série invicta ficou nisso. O Indiana Pacers tratou de quebrar essa invencibilidade. Ao limitar o Cavs a 80 pontos, conquistou a vitória fora de casa, despertou vaias do público na Quicken Loans Arena e deixou LeBron nesta situação inédita de ficar atrás em uma série da primeira rodada dos playoffs.

“Eu já estive perdendo uma final por 3 a 1”, disse LeBron após a partida, referindo-se à decisão contra o Golden State Warriors de 2016 que o Cavs acabou vencendo. “Então eu serei a última pessoa a quem vocês devem perguntar sobre como estará se sentindo nos próximos dias.”

Não parou por ai. Ele ainda falou sobre como a falta de experiência pode ter pesado. “Alguns dos jogadores do nosso elenco estavam estreando nos playoffs. E eles definitivamente sentiram isso. A experiência é a melhor professora para esse tipo de coisa. Eu acho que todo mundo vai ficar muito mais calmo e muito mais preciso sobre o que queremos fazer dentro de quadra”, opinou LeBron.

É verdade que Larry Nance e Jordan Clarkson nunca haviam jogado uma partida de playoffs antes e que Rodney Hood só tinha participado no ano passado. São três peças importantes da rotação sem tanta rodagem assim em momentos como esse. O quanto isso de fato pesou para o resultado final? É difícil saber ao certo. Não tem como entrar na cabeça de cada um deles e medir o quanto ficaram abalados por estarem nos playoffs — se é que estavam, claro.

O fato é que o Cavs teve uma atuação horrorosa no ataque. Os 80 pontos foram a segunda pior marca da equipe nesta temporada, superando apenas os 79 pontos anotados em uma derrota para o Miami Heat no dia 27 de março. O aproveitamento nos arremessos em geral foi de apenas 38,5%. Nas bolas de três, o desempenho foi de 23,5%. Kevin Love e JR Smith ainda combinaram para 6/12 nestas bolas, mas os demais jogadores somaram 2/22.

Desta maneira, adiantou muito pouco LeBron ter saído de quadra com um triplo-duplo: 24 pontos, 12 assistências e dez rebotes. Para um time que tanto vem dependendo da sua produção ofensiva para superar os seus oponentes ao longo desta temporada, fica praticamente impossível mesmo conquistar uma vitória deste jeito.

Aliás, se não fossem alguns tiros certeiros de JR Smith nos momentos em que saiu do banco de reservas, talvez a história teria sido ainda pior para o Cavs nesta abertura de playoffs. Depois de abrir 33 a 14 no primeiro quarto, o Pacers até viu o time da casa ensaiar algumas reações. Mas sempre que isso acontecia, não demorava muito para aparecer uma ducha de água fria do outro lado. Como essa de Victor Oladipo, por exemplo.

Oladipo acabou a partida com 32 pontos, seis rebotes, quatro assistências e quatro roubos de bola, acertando seus das nove bolas de longa distância que chutou. Foi mais uma atuação de gala nesta temporada especial que ele tem vivido e que contou com uma motivação extra: a de Dan Gilbert, dono do Cavs, que chegou a declarar que o Pacers merecia receber mais talento do que recebeu na troca envolvendo Paul George. “Dá para dizer que ele colocou mais combustível no incêndio, mas não dá para controlar a opinião dele”, disse o Oladipo.

Ainda é cedo para pânico em Cleveland. Até porque não é todo dia que esse time ficará restrito a 80 pontos, errando alguns arremessos com espaço que poderiam muito bem terem caído. De qualquer maneira, o mando de quadra foi quebrado e já existe alguma pressão sobre o Cavs, que não pode perder o próximo jogo de jeito nenhum. Será interessante acompanhar que tipo de resposta LeBron e companhia darão.

Todos os resultados do dia

Milwaukee Bucks 107 x 113 Boston Celtics
Indiana Pacers 98 x 80 Cleveland Cavaliers
Utah Jazz 108 x 116 Oklahoma City Thunder
Minnesota Timberwolves 101 x 104 Houston Rockets

Falando nisso…

O jogo em Boston foi decidido só na prorrogação, que veio depois de uma reta final de último quarto espetacular. O Celtics vencia por três pontos nos segundos derradeiros, mas Malcolm Brogdon apareceu para acertar um chute de longe e empatar a partida. Vale reparar em como a ação envolvendo Giannis Antetokounmpo, que cobrou o lateral e recebeu de volta logo em seguida, despertou a preocupação de Terry Rozier, que ameaçou sair para fazer a cobertura no grego e acabou dando o espaço que Brogdon precisava para ser acionado e arremessar.

Só que restaram alguns segundos no relógio para o Celtics tentar retomar a liderança. E foi justamente o que aconteceu. Rozier gastou o tempo o quanto pôde, tentou driblar Eric Bledsoe, deu um “stepback” e acertou um arremesso de três bastante complicado.

Durante a temporada regular, Rozier foi assunto por aqui em uma das edições do Radar da NBA justamente pela confiança com a qual tem atuado desde que precisou virar titular para suprir a baixa de Kyrie Irving. “Sei que tendo de dar um passo à frente neste momento e que preciso assumir um papel mais importante. Não sinto nenhum tipo de pressão. O que sinto é satisfação por estar nesta posição”, ele declarou.

A boa de Rozier entrou deixando meio segundo apenas no relógio. Mas quando a vitória parecia certa, Khris Middleton conseguiu acertar um arremesso do meio da rua, dado meio que de qualquer jeito. O Bucks empatou e levou o duelo para a prorrogação. Mas nos cinco minutos finais, o time da casa venceu por 14 a 8 e saiu na frente na série.

“Take That For Data”

Durante toda a temporada regular, o Rockets teve médias de 15,3 bolas de três convertidas em 42,3 tentadas por jogo, números mais altos da NBA. Mas na vitória apertada para começar a série contra o Timberwolves, foram só 10 acertos em 37 tentativas, o que representa uma baixa considerável em relação ao que vinha sendo apresentado — e que, em parte, explica a dificuldade encontrada para produzir pontos diante de um dos sistemas defensivos mais frágeis da fase de classificação.

Eric Gordon, Chris Paul, PJ Tucker, Trevor Ariza e Gerald Green amassaram o aro de longa distância. Juntos, esses cinco tiveram aproveitamento de apenas três bolas convertidas em 25 arremessadas (12%). Os espaços até continuaram aparecendo, como mostra o lance abaixo que terminou com um raro acerto de Tucker. Os tiros é que não estavam entrando mesmo.

Quem destoou foi James Harden, que converteu sete dos seus 12 tiros de três e liderou o Rockets com 44 pontos. Na reta final, só deu ele. Nenhum defensor do Timberwolves que era deslocado para marcá-lo conseguia dar conta. Andrew Wiggins, por exemplo, ficou preocupado demais em não estender o braço para não correr o risco de ver o oponente cavando a falta. Ao invés disso, o que aconteceu foi um “stepback” seguido de um chute certeiro para três.

Mas é claro que a defesa do Timberwolves, tão problemática durante a temporada regular, deu lá as suas colheres de chá. Na volta para marcar após um ataque que terminou em roubo de bola do Rockets, Jeff Teague correu até a cabeça do garrafão de defesa enquanto Wiggins também passou correndo em direção à área pintada. Essa falha de comunicação e entrosamento entre os dois deu espaço demais para o chute de Harden. Quando Teague tentou contestar, já era tarde demais.

Esses 44 pontos de Harden o deixaram a cinco de igualar Hakeem Olajuwon como o maior cestinha da história do Rockets em um jogo de playoffs. O recorde do ex-pivô aconteceu no sexto e último duelo da série em que a franquia foi eliminada pelo Seattle Supersonics, nas semifinais do Oeste de 1987. Foram 49 pontos para Olajuwon naquela partida, além de incríveis 25 rebotes e seis tocos.

Para quem tiver curiosidade, o vídeo abaixo mostra os melhores momentos da partida em questão dos playoffs de 1987.

Uma outra estatística interessante diz respeito a Jayson Tatum, que teve 19 pontos e dez rebotes na vitória sobre o Bucks. Com esses números, o ala virou o terceiro calouro na história do Celtics a registrar um duplo-duplo em sua estreia nos playoffs. Os outros dois foram Tom Heinsohn e Bill Russell, que fizeram isso no mesmo dia: 21 de março de 1957, em uma vitória sobre o Syracuse Nationals.

Tatum começou acertando todos os seus quatro primeiros arremessos. Alguns deles bem complicados, finalizados depois de alguns recursos que mostram o tanto que esse rapaz é interessante.

Também foi uma maravilha acompanhar esse trabalho de pés espetacular para escapar da marcação de Malcolm Brogdon e criar espaço para a finalização perto da cesta.

Nem mesmo nos momentos mais tensos da partida ele deixou de aparecer bem demais. Nem parecia um moleque de 19 anos sem nenhuma experiência em playoffs. Essa cesta de Tatum a seguir foi fundamental para o Celtics manter o jogo sob controle e encaminhar a vitória.

E isso aconteceu nos dois lados da quadra. O toco em cima de Malcolm Brogdon no último minuto da prorrogação, em um lance no qual mostrou agilidade nas pernas e deslocamento lateral o suficiente para continuar próximo a um oponente mais baixo, teve um peso enorme para que o Celtics pudesse depois confirmar a vitória.

Quem mais chamou a atenção

Al Horford teve 24 pontos pelo Celtics contra o Bucks, além 12 rebotes, quatro assistências e três tocos. Destes 24 pontos, 13 foram produzidos na linha do lance livre. O que tem certa relação com o fato de Giannis Antetokounmpo ter saído de quadra na prorrogação após cometer seis faltas. O grego sofreu demais na marcação de Horford e chegou até a admitir que precisa encontrar uma maneira na próxima partida de defendê-lo melhor, sem fazer tantas faltas.

“Nós queríamos colocá-lo para atacar no garrafão contra o Giannis, para força-lo a defender perto da cesta mesmo”, contou o técnico Brad Stevens depois do jogo. “E acho que Al fez um grande trabalho. Ele conquistou esses 14 lances livres que cobrou. Digo isso porque vi o quanto ele trabalhou duro para sofrer essas faltas, dando duro para estabelecer posição perto da cesta antes do seu defensor. Sei que todos estavam cansados depois da prorrogação, mas não sei se tinha alguém mais cansado do que Al. Porque o esforço dele foi inacreditável.”

Não foi só perto da cesta que Horford incomodou Antetokounmpo. Esse “stepback” para cima do grego é um exemplo disso.

Na verdade, durante alguns trechos do jogo, Horford funcionou praticamente como se fosse um armador do Celtics, posicionado na cabeça do garrafão para descolar passes para os companheiros em movimento. Coisa que não é de hoje que acontece neste time. Muito pelo contrário.

E arremessos certeiros de três, como esse a seguir na cara de John Henson, só ajudarão a arrastar ainda mais os grandalhões do Bucks para longe do garrafão durante a série.

Por falar em bolas de três, Paul George acertou oito arremessos do tipo em 11 tentativas durante a vitória do Thunder sobre o Jazz. No fim das contas, saiu de quadra com 36 pontos. Foi o cestinha do encontro. E ainda pegou sete rebotes.

O vídeo a seguir mostra as cestas que levaram a esses 36 pontos. Em alguns lances, George aparece se aproveitando do estrago causado pela infiltração Russell Westbrook na defesa do Jazz. Em outros, ele recebe o passe depois de contar com um bloqueio de algum companheiro. E dá para vê-lo em situações com a bola nas mãos para produzir, atacando a marcação adversária a partir do “pick and roll”.

Era esse tipo de variedade ofensiva que se imaginava quando se pensava no melhor cenário possível para o encaixe de George em Oklahoma. De certa maneira, é possível afirmar que a maneira como esses 36 pontos foram produzidos reflete algo mais próximo do ideal para esse Thunder. O desafio é saber quantas vezes mais esse tipo de coisa vai aparecer no restante dos playoffs.

Do outro lado, Donovan Mitchell teve 27 pontos e dez rebotes. Foi uma ótima estreia em playoffs do calouro do Thunder, que conseguiu aparecer com brilho em alguns ataques seguidos do Jazz durante o terceiro quarto, em um momento no qual o time parecia justamente ter enormes dificuldades para superar a defesa adversária.

Mas foi pouco. Mitchell eventualmente acabou fazendo uma bobagem aqui e outra ali porque, afinal de contas, é ainda um novato. Depois vieram alguns desperdícios de posse de bola consecutivos de Dante Exum, que não parece chegar em perto da capacidade do calouro de tirar arremessos da cartola do nada. Do outro lado da quadra, a defesa até conseguiu pressionar Paul George e apresentar uma rotação bem encaixada, mas ainda assim Alex Abrines apareceu com duas bolas de três importantíssimas, aproveitando o mínimo espaço que tinha para chutar. E aí a partida fugiu de vez do alcance do Jazz.

A agenda do dia seguinte

21h – Miami Heat x Philadelphia 76ers
23h30 – San Antonio Spurs x Golden State Warriors

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