Em defesa das bolas de três pontos

Luís Araújo

É bem possível que quem estivesse torcendo pelo Houston Rockets na final do Oeste tenha se irritado com o volume de bolas de três pontos arremessadas e que não entraram no Jogo 7. Foram 27 erros consecutivos em chutes de longa distância ao longo da partida que poderia ter levado a uma vaga na decisão. O que obviamente contribuiu demais para a virada do Golden State Warriors ao longo dos dois últimos períodos.

Não chega a ser difícil compreender a insatisfação com esses arremessos por parte de quem queria ver o Rockets na final, seja lá pelo motivo que for. Mas não seria justo transformar o chute de três pontos em grandes vilões do basquete. Como se fosse um luxo do qual todos os times deveriam abrir mão de uma hora para a outra quando a bola não está caindo.

Nestes casos em que os erros se acumulam, um discurso que aparece bastante é o de deve-se parar de arremessar de longe para trabalhar a bola mais perto da cesta. Na prática, porém, as coisas não são assim tão simples. Não é porque uma finalização acontece mais próxima ao aro que ela terá, necessariamente, maior probabilidade de acerto. Não é toda equipe que dispõe de material humano para simplesmente acionar alguém no garrafão e esperar uma cesta fácil.

A bola de segurança é aquela que tem a maior chance de entrar. Não depende do lugar da quadra em que a finalização acontece. Depende, na verdade, do esquema tático da equipe em questão e das características do jogador responsável pela finalização.

O Warriors, por exemplo, tem um leque ofensivo vasto demais que o permite, sim, criar alguns arremessos mais seguros perto da cesta. Mas esse processo de construção dos espaços para isso aparecer costuma se beneficiar demais do temor que as defesas têm de largar Stephen Curry ou Klay Thompson livres na linha de três. Talvez seja esse o grande poder dos chutes de longe: não só valem mais como forçam os oponentes a marcarem mais longe da cesta, o que aumenta a condição de cavar buracos na defesa.

As bolas de longa distância também fazem parte da identidade do Rockets desta temporada. O time nem foi lá essas coisas em termos de aproveitamento em si, mas liderou a liga em volume de arremessos por jogo e em acertos em si. Muitas vezes durante o campeonato, o que se viu foi uma equipe capaz de deslanchar a qualquer momento. Bastavam dois ou três acertos em sequência para transformar jogos até então equilibrados e deixá-los fora do alcance dos rivais.

Pode parecer chato para quem não se encanta por tanto chute de longe assim. Não tem problema nenhum. Gosto de jogo é algo completamente subjetivo. Mas o fato é que foi com essa identidade bem forte que o Rockets fez um enorme sucesso na fase de classificação, conquistando um número recorde de vitórias na história da franquia e avançando para os playoffs com a primeira colocação.

Durante a temporada, o Rockets foi assunto de várias edições do “Radar da NBA” — um conteúdo exclusivo para assinantes que reúne comentários e vídeos para tentar mostrar com um pouco mais de detalhe algumas coisas interessantes que ocorrem em quadra. Isso porque várias das movimentações que o time usava para criar seus pontos chamavam a atenção.

As finalizações se concentravam em grande parte nas bolas de três? Sim. Mas dava para ver como essas oportunidades de arremessos eram bem construídas e até mesmo o quanto a ameaça destes chutes ajudava no “pick and roll” entre James Harden e Clint Capela. Afinal de contas, é o tipo de jogada que força os marcadores a tomarem decisões e a conviverem com o risco, já que uma ajuda no garrafão para conter essa ação poderia deixar alguém livre na linha de três, ao mesmo tempo em que a opção por permanecer no perímetro poderia facilitar a vida de Capela e Harden no garrafão.

Diante disso tudo, não tem como dizer que o volume de bolas de três pontos em si foi o grande pecado do Rockets no jogo da eliminação. Tirar o arremesso de longe do leque ofensivo de uma hora para a outra iria contra uma identidade criada durante toda a temporada. O que não significa, no entanto, que boa parte destes 27 chutes errados consecutivos não poderiam ter sido melhor desenvolvidos.

O vídeo abaixo mostra cada um destes 27 chutes seguidos que teimaram em não entrar. O primeiro deles mostra Harden aproveitando a troca de marcação para chutar com algum espaço. Ele fez um monte de cesta assim durante a trajetória na temporada que deverá o premiar como o MVP.

De resto, dá para ver três coisas, basicamente: Harden excessivamente preocupado em cavar a falta no ato do chute; bolas completamente forçadas que foram frutos de erros em série de movimentação nos segundos anteriores da posse de bola; e, por outro lado, finalizações dadas em condições boas o bastante para somar pontos — principalmente no segundo tempo. No lance em que Trevor Ariza chutou completamente livre da zona morta, por exemplo, o Rockets não poderia torcer por uma oportunidade melhor do que aquela. Era um arremesso que precisava mesmo ser dado. O erro teria sido se ele tivesse refugado.

Sinal de que faltou cabeça no lugar? É difícil cravar qualquer coisa à distância, sem falar com os envolvidos, mas é possível. Faltou sorte? Claro. Também faltou Chris Paul, que poderia ter ajudado a construir movimentações ofensivas mais eficientes nos momentos de turbulência do terceiro quarto e aparecido com suas bolas de média distância a partir do “pick and roll”. É possível até argumentar que faltou Harden ser mais agressivo em direção à cesta, o que em alguns casos foi consequência de escolhas contestáveis de bloqueios que o ofereciam um bom “mismatch”.

Só não dá para dizer que faltou “trabalhar mais lá dentro” e chutar menos de três pontos. Tudo bem, é verdade que alguns arremessos foram dados em situações ruins. Mas, nestes casos, o problema foi justamente no processo de construção dos espaços para se finalizar — o que também comprometeria qualquer chute mais perto da cesta.

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