Enterrando fantasmas

Luís Araújo

Apesar da vantagem na série, era natural que o torcedor de Mogi das Cruzes estivesse com um pé atrás. O time já esteve em posição semelhante em outros tempos, e as experiências não terminaram nada bem. Em 2015, abriu 2 a 1 contra Bauru e teve a chance de carimbar o passaporte à final do NBB dentro de casa. O mesmo ocorreu no ano seguinte, diante do Flamengo.

As duas histórias tiveram desfecho idêntico: Mogi deixou escapar a chance de fechar a série no seu ginásio e depois acabou sucumbindo no Jogo 5 fora de casa. Portanto, por mais convincente que tenham sido as coisas no começo da semifinal deste ano contra o Flamengo, havia um fantasma grande o suficiente em volta desta equipe para deixar a preocupação na mesma proporção da empolgação.

Mas desta vez a história teve final feliz para Mogi. A mesma defesa forte, entrosada e extremamente obediente taticamente do começo da série deu as cartas no Jogo 4. O Flamengo até foi para o intervalo ganhando por um ponto, mas a impressão já naquele momento era que o time da casa tinha um pouco mais do controle da partida, fazendo as ações corretas para se combater um adversário tão poderoso.

Um indicativo disso foi a atuação de Anderson Varejão no primeiro tempo. Eram pontos demais em bolas de média distância atras de bolas de média distância. Tudo bem que estavam funcionando, mas até que ponto isso se sustentaria? Dá para dizer com alguma segurança que aquilo não estava no plano tático do Flamengo para o duelo. E a hora que a estratégia desse algum sinal de queda de rendimento, a situação da equipe no confronto poderia ficar complicada.

Dito e feito. Mas muito por mérito de Mogi também, que voltou do intervalo com uma formação baixa, sem pivôs — com Tyrone e Fabrício em quadra, Caio Torres e Wesley Sena no banco. A aposta era em usar a mobilidade para trocar mais vezes a marcação quando preciso e fechar um pouco mais dos espaços para os tiros de média distância de Varejão, desafiando ele e Olivinha a tentarem vencer seus marcadores na estatura, perto da cesta. Funcionou.

Não foi uma perfeição porque vez ou outra David Cubillan sobrava com algum espaço para o chute de três quando a marcação trocava após um bloqueio. Ou porque raras falhas de comunicação deixavam livre alguém que não poderia ter tanta liberdade para o chute. Mas, na maioria das vezes, a estratégia deu certo demais. Até por entregar um melhor trabalho de combate ao “pick and roll” envolvendo Marquinhos, que se beneficiou das dificuldades de Caio Torres de se virar em situações do tipo.

Do outro lado, as bolas de longa distância de Mogi caíram, o que criou uma diferença no placar da qual o Flamengo não conseguiu mais se recuperar. Mas não foi só uma questão de sorte. Foram arremessos bem trabalhados em sua maior parte, frutos de jogadas com bloqueios sem bola que confundiram a marcação ao ponto de render finalizações com liberdade. Na esteira disso, vale também destacar o mérito de quem não se omitiu em dar tais tiros. Eram situações nas quais quem aparecia com espaço realmente precisava dar o chute logo, com confiança, para realmente fazer a defesa pagar pelo buraco que cedeu. Um pouco de hesitação já seria o bastante para permitir a recuperação da marcação.

Muita gente se destacou neste processo. Larry também foi um personagem importante em vários momentos, seja infiltrando na marra contra uma defesa ainda desajustada ou nos tiros de média distância que tirou da cartola quando a marcação não quebrava. Mas ninguém mais do que Shamell.

Foram 40 pontos para ele, que registrou um novo recorde pessoal justamente na partida em que conquistou classificação à final do NBB pela primeira vez. As jogadas de costas para a cesta contra Cubillan, cavando faltas e carregando o Flamengo no terceiro período, foram importantes. Mas ele também foi bastante usado nestas situações de bom trabalho sem bola, em que ele recebia já em posição de apenas definir.

Foi a melhor versão de Shamell. Não só pelos acertos e pelos pontos, mas pelo conjunto da obra. Assim como a série mostrou a melhor versão deste time nos dois lados da quadra. Se não dá para cravar favoritismo na decisão, ao menos é possível enxergar um Mogi muito mais confiável na busca pelo título inédito do NBB depois da maneira como exorcizou o velho fantasma do Jogo 4 da semifinal.

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