A final que a NBA não viu

Luís Araújo

É inevitável que o último confronto entre Kobe Bryant e LeBron James tenha mexido com o imaginário de quem acompanha a NBA. Afinal de contas, o mundo jamais irá vê-los novamente frente a frente. São jogadores que não só aparecem entre os melhores da história do basquete como foram dominantes em determinados da carreira, naquele degrau ainda acima das demais estrelas. Desde 2007, todas as decisões contou com um deles em ação. Mas nenhuma, nem mesmo antes disso, reuniu os dois ao mesmo tempo.

Por tudo o que representaram para o basquete de maneira geral ao longo da última década, chega a ser até frustrante imaginar que eles jamais tenham decidido um título. Até porque outros grandes símbolos da NBA de tempos passados já se cruzaram em finais. Kobe e LeBron, não. Grandes oportunidades para isso não faltaram.

Quando Kobe ganhou a companhia de Pau Gasol, em fevereiro de 2008, o Los Angeles Lakers se fortaleceu ao ponto de virar uma potência do Oeste. Tanto é que chegou ao topo da conferência alguns meses depois e só saiu em 2011. Enquanto isso, o Cleveland Cavaliers, liderado por LeBron, vivia situação um pouco diferente. Até havia um crescimento gradual enquanto equipe, mas não em termos de resultado. Isso porque o time, depois de ter vencido Leste no ano anterior, viu o nível de competitividade ao redor se elevar com surgimento de um novo adversário poderoso: o Boston Celtics, que colocou Kevin Garnett e Ray Allen ao lado de Paul Pierce, em uma união que deu certo de forma tão imediata que resultou em título já em 2008.

O Celtics mostrou-se dominante no Leste naquela temporada regular desde o início e teve a melhor campanha da liga, com 66 vitórias e 16 derrotas. O Cavs venceu 21 jogos a menos. Era um time bem diferente do que havia ido para a final no ano anterior. Larry Hughes, Drew Gooden, Shannon Brown e Cedric Simmons foram trocados. Chegaram em seus lugares Ben Wallace, Joe Smith, Wally Szczerbiak e Delonte West. A mudança no elenco tinha uma motivação bem clara.

“Não acho que a gente era bom o bastante para ganhar o campeonato”, explicou Danny Ferry, gerente geral do Cavs na época. “Tínhamos uma equipe muito boa, mas acredito que deveríamos tentar se aparecesse uma chance de nos fazer melhores. Tem um risco nisso? Sim. Mas precisamos tomar algumas decisões importantes e correr alguns riscos se quisermos continuar evoluindo.”

Alguns testes foram feitos, mas a escalação titular se estabeleceu com West, Szczerbiak e LeBron no perímetro e um garrafão formado por Zydrunas Ilgauskas e Ben Wallace — algo difícil de imaginar dando certo nos dias de hoje. Depois de se classificar em quarto na conferência, o Cavs eliminou o Washington Wizards na primeira fase dos playoffs e cruzou com o Celtics na segunda. Muito graças à boa marcação de LeBron sobre Paul Pierce, a série chegou ao sétimo jogo, que aconteceu em Boston. O time da casa venceu, mas foi um placar apertado: 97 a 92.

O Celtics avançou, conquistou o Leste e ganhou o título contra o Lakers na decisão. Ao pessoal em Cleveland, restou a missão de continuar se desenvolvendo. Se 2008 foi o ano em que o Cavs viu um novo gigante se formar na conferência, o que representou um passo atrás em termos de resultado para quem havia sido finalista antes, em 2009 as coisas ficaram bem mais animadoras para LeBron e companhia. Há duas razões que justificam dizer isso.

A primeira está relacionada ao grande salto que foi dado na temporada regular. A adição de Mo Williams, obtido em troca de Damon Jones e Joe Smith, ajudou muito neste sentido. Ele não só virou titular de imediato e se encaixou bem ao lado de LeBron como foi até selecionado para o “All-Star Game” de 2009. Desta vez, foi o Cavs que venceu 66 das 82 partidas que disputou e teve a melhor campanha geral da liga.

A segunda razão foi uma baixa extremamente considerável naquela que parecia ser a única grande ameaça na conferência: Kevin Garnett machucou o joelho direito algumas semanas antes dos playoffs e não conseguiu se recuperar a tempo de disputar a parte mais importante do campeonato. Sem ele, o Celtics não tinha a mesma força. As chances de um novo título praticamente foram embora com a notícia. Ao mesmo tempo, o Cavs se tornava ainda mais favorito.

Parecia ser a situação perfeita para que finalmente o mundo visse LeBron e Kobe frente a frente em uma decisão. Mas o que pouca gente imaginava era que o Orlando Magic frustraria esses planos — ainda mais por também estar sem uma peça importante, já que Jameer Nelson havia lesionado o ombro e virado desfalque para os playoffs. Mas Rafer Alston jogou muito bem na vaga dele. Não foi só isso, obviamente. Hedo Turkoglu apresentou, muito provavelmente, o melhor basquete da vida naquela série. A estratégia de Stan Van Gundy de deixar em quadra Dwight Howard cercado por outros quatro homens bem abertos, com Rashard Lewis na posição quatro, matou o Cavs dentro e fora do garrafão.

A preocupação de Ferry em seguir fazendo de tudo para melhorar o Cavs e recolocar LeBron em uma decisão ficou ainda maior. Além da forma traumática como se deu a eliminação para o Magic, havia um outro fator para intensificar as coisas: sua principal estrela ficaria sem contrato em julho de 2010 e poderia sair de graça para qualquer outro lugar onde julgasse que teria maior chance de enfim ser campeão — algo que, sabemos bem, acabou acontecendo.

O Cavs, então, agiu para se reforçar. Acertou com Anthony Parker, Jamario Moon e Leon Powe, mas a principal novidade mesmo foi a aquisição de Shaquille O’Neal. Com o campeonato em andamento, a direção ainda buscou Anthony Jamison e Sebastian Telfair. Mais uma vez, a equipe avançou para os playoffs com a melhor campanha da liga. A expectativa de uma final entre LeBron e Kobe voltou a ficar gigantesca, já que os dois conduziam seus times ao topo de suas respectivas conferências. E as duas vitórias sobre o Lakers na fase de classificação só alimentavam o otimismo em Cleveland.

Depois de passar pelo Chicago Bulls na primeira fase, o Cavs encontrou na semifinal de conferência o Celtics, desta vez com Garnett e todas as suas principais peças à disposição. Ao contrário de 2008, era o time de LeBron que tinha o mando de quadra na série. Mas isso pouco importou, já que a eliminação veio em seis jogos — e após duas derrotas em casa.

A sexta partida foi emblemática. LeBron fez um triplo-duplo: 27 pontos, 19 rebotes e dez assistências. Ainda assim, o Cavs foi dominado no segundo tempo, perdeu por 94 a 85 e viu o sonho de voltar à final acabar uma fase antes do que ocorrera no ano anterior. “O fato de a nossa campanha já ter acabado é uma surpresa para mim. Um amigo meu me disse que talvez a gente tenha de passar por um monte de pesadelos antes de realizar um sonho. É isso o que tem acontecido comigo neste momento”, disse LeBron ao final daquele jogo.

O caminho que ele encontrou para finalmente superar o Celtics, a grande pedra no seu sapato até então, foi se juntar a Dwyane Wade e Chris Bosh no Miami Heat. Foi uma união que levantou muitas dúvidas no primeiro ano, mas que conseguiu fazer LeBron finalmente bater o Celtics, retomar o topo do Leste e voltar a uma decisão. Só que, do outro lado, o Lakers viu seu domínio no Oeste cair com uma varrida para o Dallas Mavericks na segunda fase dos playoffs.

Kobe nunca mais chegou a uma final. O último suspiro para quem ainda queria vê-lo numa final contra LeBron aconteceu em 2012, quando o Lakers colocou Dwight Howard e Steve Nash ao lado dele e de Pau Gasol. Era algo promissor, só que a realidade foi bem diferente do que se poderia imaginar. Essas peças todas jamais se encaixaram, e o time passou longe de brigar pelo topo do Oeste.

Durante os anos nos quais as chances de se cruzarem uma final foram maiores, LeBron e Kobe acabaram desenvolvendo uma rivalidade muito grande com o Celtics, que entrou no meio do caminho de ambos e tratou de fazer com que os craques se encontrassem apenas, no máximo, duas vezes por temporada.

Foi o que levou Byron Scott, técnico do Lakers, a dizer o seguinte depois do último confronto entre os dois: “Eu não sei se existe mesmo uma rivalidade. Se existe, é amigável”. E é verdade. Sempre foi interessante acompanhar o respeito que eles têm entre si, apesar da maneira extremamente competitiva com a qual entraram em quadra nas vezes em que se enfrentaram. Mas isso é o de menos. Melhor mesmo teria sido se toda essa vontade de mostrar superioridade em relação ao outro enquanto jogador de basquete pudesse ter sido levada para uma série de playoff valendo um anel de campeão, ainda que essa relação de amizade ficasse um pouco para trás. É um capítulo que jamais vai constar na história da NBA. Para o azar de todo mundo.

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