Grandes astros, reuniões e programa de TV: como a free agency de 2010 marcou a NBA

Luís Araújo

O tempo passou. A maior e mais intensa janela de agentes livres da história da NBA completou dez anos. Em julho de 2010, algumas dos grandes astros da liga ficaram disponíveis no mercado. LeBron James era o principal deles, mas não o único. Dwyane Wade, Chris Bosh, Amar’e Stoudemire, Carlos Boozer e Joe Johnson também estavam na mesma situação.

Isso explica o motivo pelo o qual algumas equipes se movimentaram bastante ao longo dos meses anteriores para limpar a folha salarial. Brooklyn Nets (New Jersey na época), New York Knicks, Chicago Bulls, Miami Heat e Los Angeles Clippers queriam não só tirar LeBron do Cleveland Cavaliers. A ideia era poder ir além: assinar também com pelo menos uma outra grande estrela para colocar ao lado dele no elenco.

O mercado abriu de fato no dia 1º de julho. Drew Gooden assinou com o Milwaukee Bucks e se tornou o primeiro agente livre da janela a definir seu destino. Pouco depois, foi a vez de Darko Milicic aceitar se juntar ao Minnesota Timberwolves. Mas com relação aos grandes astros, nada ainda. Nem tinha como ter. Eles ainda estavam se preparando para ouvir as propostas das franquias interessadas neles. E é claro que era em cima disso que as atenções realmente estavam.

Como seriam as reuniões de LeBron com os times que se colocaram em condição de contratá-lo? Para onde será que Wade e Bosh pareciam mais inclinados? Em que pé estavam as negociações envolvendo Stoudemire? Quantas e quais estrelas resolveriam jogar juntas? Eram essas as coisas que as pessoas realmente queriam saber.

A primeira grande movimentação no quebra-cabeças se deu no dia 5 de julho. Foi quando saiu a notícia de que Stoudemire havia chegado a um acordo com o Knicks. O que sabia na época é que ele tinha uma vontade muito grande de jogar em Nova York e reencontrar o técnico Mike D’Antoni, com quem trabalhou no Phoenix Suns até pouco tempo antes.

apresentação de Amare Stoudemire no Knicks em 2010

“Eu me sinto muito bem em ter sido um pioneiro. É uma situação em que ninguém queria dar o primeiro passo, mas eu senti confiança para dar esse primeiro passo. Espero que agora mais gente possa se juntar a mim”, disse Stoudemire, em uma entrevista à ESPN norte-americana na época.

Ao falar em “mais gente”, Stoudemire tinha muito mais LeBron James em mente do que qualquer outra pessoa. Ele admitia que os dois andavam conversando algumas vezes durante aqueles dias. Dizia não ter certeza sobre para qual lado LeBron estava mais inclinado naquele momento, mas o via totalmente aberto e acreditava que a ida para Nova York talvez pudesse influenciá-lo a também ir para lá.

A confiança do ponto de vista da franquia também era muito grande. Não por ter ali uma mera estrela que pudesse atrair LeBron, mas por ser especificamente Stoudemire. Alguns meses antes, quando ainda estava atrás do título de 2010 da NBA com o Cleveland Cavaliers, LeBron pediu para que a direção tentasse fazer algum negócio com o Phoenix Suns que colocasse Stoudemire jogando ao seu lado. Não rolou naquela oportunidade, então o Knicks parecia ali como uma oportunidade perfeita para fazer isso enfim acontecer.

Só tinha um problema: o próprio Knicks, que tratou de estragar tudo. De acordo com o que apurou o jornalista Bill Simmons, do The Ringer, Nova York era o destino preferido de LeBron quando o mercado de agentes livres de 2010 se abriu. Mas a reunião entre jogador e direção foi um desastre, o que acabou frustrando LeBron e o afastando definitivamente de lá.

Essa reunião entre LeBron e Knicks aconteceu ainda no dia 1º de julho. Foi logo depois do encontro com o Nets, que também não saiu muito bem. “Foi um circo. Nós estávamos muito empolgados. Mas, honestamente, ainda não estávamos prontos como franquia para aquilo”, admitiu Avery Johnson, técnico da equipe na época.

Pat Riley e LeBron James juntos no Miami Heat

A reunião com o Clippers no dia seguinte também não pareceu ter deixado impressão muito positiva em LeBron. Mas as coisas mudaram quando ele recebeu os representantes do Miami Heat. Foi uma conversa longa, que contou com as presenças do presidente Pat Riley, do técnico Erick Spoelstra, do proprietário Micky Arison e do ex-pivô Alonzo Mourning.

Finalmente, LeBron se encontrou com os dois times restantes no dia seguinte. Bulls e Cavs, até então, eram tidos como os favoritos para vencer a corrida. As esperanças em Cleveland rodavam em torno da manutenção de uma equipe pronta, competitiva, que já vinha brigando pelo título da NBA. Em Chicago, o pessoal que conversou com o astro ficou com a sensação de que havia o balançado.

“Estávamos preparados para ir embora depois de abordarmos tudo o que foi planejado, mas LeBron e sua equipe nos perguntaram se a gente queria ficar mais um pouco lá e comer alguma coisa”, contou Jerry Reinsdorf, proprietário do Bulls, em entrevista ao Bleacher Report. “Nós ficamos e conversamos sobre várias outras coisas. Tivemos o encontro de negócios, mas também uma conversa muito agradável com eles que foi além disso. E em um determinado momento, LeBron nos perguntou qual dos outros dois a gente achava que ele deveria trazer junto para Chicago. Isso nos deixou com as esperanças lá no alto.”

Tom Thibodeau também foi um fator que pareceu jogar a favor das chances do Bulls. Ele tinha acabado de ser contratado para ser o técnico do time e passou boa parte da reunião com LeBron dizendo como seria o encaixe dele no seu sistema de jogo. “Eles tiveram uma grande troca de ideias. Isso foi também um fator que nos deixou otimistas. Thibodeau e LeBron pareceram se dar tão bem”, relatou Reinsdorf.

LeBron James e Tom Thibodeau: os dois conversaram bastante quando LeBron ouviu a proposta do Bulls em 2010

O Bulls também havia tido uma boa reunião com Dwyane Wade. Tão boa que acabou acontecendo uma segunda vez, dias depois. A diferença entre um encontro e outro é que Wade chegou a esse segundo querendo saber como seria possível a franquia viabilizar a contratação não de duas estrelas, mas de três. Em resposta, o Bulls iniciou uma corrida intensa contra o tempo e tentou negociar Luol Deng. Abriu conversas com o Clippers, mas não teve sucesso. Aí chegou a conversar com o Toronto Raptors para engatar um “sign and trade” por Bosh. Coisa que, aliás, o Cavs também estava tentando fazer para colocar uma segunda estrela ao lado de LeBron em Cleveland.

Acontece que, enquanto isso, o Heat estava acelerando com seu plano de juntar três estrelas. O time da Flórida tinha vantagem diante de todos os outros na briga por Wade porque ele já jogava lá. Podia, portanto, oferecer um contrato maior. E Bosh saiu com impressões muito boas da conversa com Pat Riley.

Então, no dia 7 de julho, os dois foram colocados ao vivo em uma edição do Sportscenter da ESPN dos EUA. Wade anunciou a decisão de permanecer em Miami. Bosh disse que também estava indo para lá. Mais duas peças importantes desse quebra-cabeças de grandes estrelas tinham definido seus destinos. Dá até para dizer três, na verdade, pois já estava na cara a essa altura que Joe Johnson iria reassinar com o Atlanta Hawks.

Algumas horas depois do anúncio de Wade e Bosh, o Bulls acertou com Carlos Boozer. Hoje sabemos que os anos dele em Chicago não tiveram muito brilho, mas na época tratava-se de um “all-star”. O time já tinha em Derrick Rose um jovem astro, que viria a ser o MVP no ano seguinte, além de outros bons nomes como Joakim Noah e Luol Deng. A esperança era que esse núcleo, reforçado pelo peso que Boozer ainda tinha, pudesse parecer sedutor o bastante para LeBron.

E então chegou o dia 8 de julho. LeBron anunciaria seu destino em um programa que seria exibido pela ESPN, chamado “The Decision”. O Bulls continuava otimista. O Heat talvez tivesse motivos para estar ainda mais confiante, depois dos acertos com Wade e Bosh. O Cavs esperava a permanência dele em Cleveland. Tinha gente apontando até o Knicks como um candidato forte. Mas certeza mesmo ninguém tinha de nada. LeBron resolveu parar de responder as mensagens de todo mundo durante aquele dia 8. Ninguém parecia ter pista de nada.

“Todo mundo estava animado, mas LeBron sumiu. E aí todos nós ficamos um pouco preocupados. Nem mesmo Wade estava totalmente seguro do que ia acontecer”, disse David Fizdale, técnico que passou por Knicks e Memphis Grizzlies nos últimos anos, mas que na época era assistente de Spoelstra em Miami.

Quando a hora de “The Decision” finalmente chegou, LeBron anunciou: “Vou levar meus talentos para South Beach”. Ao ser perguntado ao vivo o motivo por trás da sua escolha de ir para Miami, respondeu: “Sinto que me dá a maior chance de vencer por vários anos. E não digo só vencer alguns jogos consecutivos na temporada regular, eu quero é ganhar títulos.”

Dava para sentir nessa declaração o quanto LeBron sentia que precisava de algo além do que havia à disposição ali em Cleveland. Vale lembrar que, naquele momento, ele ainda perseguia o tão sonhado primeiro título da NBA. Era uma estrela dominante na liga, que já parecia destinada a um lugar entre os melhores da história. Faltava ser campeão. O Cavs até vinha fazendo boas campanhas em temporadas regulares e parecia mesmo uma equipe competitiva. Mas quando os playoffs chegavam, vinha a decepção. O golpe sofrido pouco antes dessa janela de negociações havia sido duro demais. A derrota na semifinal de conferência de 2010 para o Boston Celtics, em uma série na qual o Cavs chegou a ter vantagem de 2 a 1, parece ter deixado bem claro para ele que era preciso mudar de ares.

Depois de um tempo, por mais que a ideia de permanecer em Cleveland fizesse bastante sentido na época, foram surgindo informações sobre o quanto LeBron já parecia determinado a deixar a cidade enquanto ainda negociava com outras equipes. No encontro que teve com o Cavs, foi perguntado sobre o que poderia fazer para convencer Bosh a ir jogar com ele. Respondeu que os dois não eram tão próximos assim, o que hoje sabemos que não era verdade. Outra pista sobre isso apareceu na reunião com o Bulls. Reinsdorf afirma ter ficado com essa sensação quando ouviu LeBron perguntar quem entre Wade e Bosh ele deveria levar para Chicago.

Melhor para o Heat. No dia seguinte a “The Decision”, LeBron, Wade e Bosh foram apresentados em Miami para um público eufórico. Não era para menos: três dos maiores astros da NBA naquele momento estavam agora no mesmo lado. Parecia bom demais para ser verdade e ficou ainda melhor. Depois de os três aceitarem cortes no salário, a franquia conseguiu ainda fisgar Mike Miller no mercado de agentes livres e manter Udonis Haslem, que tinha propostas do Denver Nuggets e do Dallas Mavericks.

Pouco depois de ver o grande nome de Cleveland indo embora, Dan Gilbert, proprietário do Cavs, escreveu uma carta aberta chamando LeBron de “covarde” e prometendo ao povo da sua cidade comemoraria um título da NBA antes do jogador. O que, sabemos bem, não aconteceu. A conquista até veio em 2016, mas só depois que LeBron decidiu retornar para o lugar que ele mesmo gosta de se referir como casa. Entre uma coisa e outra, um processo de reconstrução que fez o time amargar um monte de derrotas por um tempo.

O Bulls tentou seguir a vida. Kyle Korver, Keith Bogans e algumas outras peças de apoio foram contratadas para compor o elenco que seria comandado por Thibodeau. Foi claramente um plano B, mas acabou funcionando muito mais do que o esperado. Afinal, o time teve a melhor campanha da NBA na temporada 2010/11 e chegou à final da Conferência Leste. Só que o sonho de um sétimo título foi desfeito justamente pelo Heat, de LeBron, Wade e Bosh.

O trio de astros precisou esperar um pouco antes de dominar a NBA. Nesse primeiro ano juntos, acabaram sendo derrotados pelo Dallas Mavericks na decisão. Nos dois anos seguintes, foram enfim campeões, derrotando Oklahoma City Thunder e San Antonio Spurs. Muita gente pode se lembrar, não sem razão, do que LeBron falou no dia em que ele, Wade e Bosh foram apresentados em Miami. A promessa feita girava em torno de um número de títulos muito maior do que os dois de fato conquistados.

Pode-se debater à vontade sobre o quanto essa trajetória dos três juntos atendeu às expectativas que foram criadas na época. O que não dá para contestar é que esse mercado de agentes livres de 2010 representa um marco na história da NBA. Pela safra rica em termos de talento, claro. Pelas movimentações todas no mercado que as equipes fizeram nos meses anteriores para poderem brigar por essas estrelas. Pelo volume de cobertura de imprensa para atender um nível gigantesco de interesse sobre os destinos dos astros. E, principalmente, pela maneira como os jogadores assumiram o poder de negociação.

Começando por LeBron assinando uma extensão menor com o Cavs anos antes para também ser um agente livre em 2010. Passando pelo interesse das estrelas em saber se os times interessados nelas conseguiriam contratar outros jogadores de grande expressão. Até, finalmente, um programa de TV para comunicar ao mundo qual foi o lugar escolhido para se trabalhar pelos próximos anos.

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