Hayward dentro, Bradley fora e as grandes expectativas em Boston

Luís Araújo

Jimmy Butler foi negociado com o Minnesota Timberwolves. Paul George, com o Oklahoma City Thunder. Blake Griffin resolveu permanecer no Los Angeles Clippers. De repente, três jogadores que andavam na mira do Boston Celics por um tempo ficaram fora de alcance. Mas a apreensão dos torcedores e o medo de o time ficar sem opção nesta busca por subir mais um degrau na escala de competitividade da NBA chegaram ao fim com a decisão de Gordon Hayward.

“All-Star” pela primeira vez neste ano, Hayward tinha a opção de assinar um contrato maior e mais vantajoso financeiramente com o Utah Jazz, time com o qual as primeiras sete temporadas da carreira. O Miami Heat também estava na briga e fez uma proposta. Mas ele sentiu que não havia como fazer uma escolha diferente. “Tem algo diferente sobre Boston e sobre ser um Celtic. É um sentimento especial falar sobre jogar para o Boston Celtics. E isso acabou me ganhando”, relatou.

Hayward também falou em “negócios não acabados” com Brad Stevens para justificar a decisão. Ele e o treinador estavam juntos na Universidade de Butler e foram vice-campeões da NCAA em 2010, perdendo a final no último segundo para Duke — que carregava enorme favoritismo naquele duelo. Ótimo para o Celtics, um time que já é muito bom, vem crescendo temporada a temporada e oferece uma possibilidade de chegar ao topo da sua conferência maior do que a do Jazz em um Oeste cada vez mais selvagem, além de ter um técnico espetacular e extremamente respeitado ao redor da liga. Essa combinação toda é poderosa mesmo para seduzir jogadores sem contrato.

O encaixe dentro de quadra não é difícil de se imaginar. Hayward se desenvolveu demais ano a ano ao ponto de ter se tornado um jogador bastante versátil, com uma lista de qualidades extensa que o possibilitaria se adaptar em qualquer equipe da NBA. Para o Celtics, dá até para dizer que é perfeito. Ele teve um aproveitamento que beirou 40% em chutes de três na última temporada, o que deve ajudar a espaçar a quadra quando estiver aberto para o chute, e sabe se virar muito bem de outras maneiras sem a bola, exigindo atenção constante do seu marcador mesmo se não for acionado. É uma arma poderosa para se ter ao lado quando Isaiah Thomas estiver armando o ataque.

Mas Hayward também é capaz de levar a bola para o ataque e criar jogadas a partir do “pick and roll” para os companheiros e para si mesmo. Apesar da melhor campanha do Leste na fase de classificação, ficou claro o quanto o Celtics precisava de mais alguém com talento o suficiente para fazer o ataque acontecer, especialmente quando as defesas se preocupavam em dobrar em cima de Thomas e tirá-lo do jogo.

Até deu para ver durante a temporada uma experiência interessante com Al Horford fazendo as vezes de armador, mas não era o bastante, especialmente porque as coisas continuaram dependentes de Thomas. Agora Hayward não só pode funcionar sem bola nesta situação como também é capaz de comandar esse tipo de movimentação, oferecendo muito mais possibilidades de definição do que Horford. Além disso, fará com que o time continue contando com um criador de elite nos momentos em que Thomas estiver no banco.

“É um jogador fantástico, um ótimo encaixe no nosso sistema de jogo. Hayward é bastante altruísta dentro de quadra, multi facetado e é capaz de jogar em múltiplas posições. Isso tudo vai bem ao encontro do que queremos fazer por aqui”, resumiu Danny Ainge.

Quando fala “o que queremos fazer por aqui”, Ainge está se referindo justamente à ideia de usar a versatilidade dos jogadores do elenco para colocar em prática um basquete sem posições — ou algo próximo a isso. Hayward atende bem aos conceitos básicos disso no ataque e também na defesa, onde faz um trabalho cada vez mais sólido e pode encarar trocas de marcação no perímetro. O problema é que para viabilizar o contato da sua nova estrela, o Celtics precisou trabalhar para abrir espaço no teto salarial. Por isso que Amir Johnson, Jonas Jerebko, Kelly Olynyk, Tyler Zeller e James Young foram embora de graça. Ainda assim, não foi o suficiente. O jeito então foi negociar um jogador consideravelmente mais importante para o time em troca do alívio necessário para enfim fechar o acordo com Hayward.

Poderia ser Marcus Smart ou Jae Crowder, mas acabou sendo Avery Bradley. O Celtics o mandou para o Detroit Pistons junto com uma escolha de segunda rodada do Draft de 2019 em troca de Marcus Morris. Não deve ter sido uma decisão nem um pouco tranquila para Ainge tomar. Afinal de contas, Bradley era adorado pela torcida e vinha jogando cada vez melhor. Sua ausência nos times de defesa da temporada levou alguns companheiros de profissão a reclamarem bastante — como mostra abaixo o tuíte de CJ McCollum. Ofensivamente, também melhorou bastante com o passar dos anos e deu o jeito dele de se tornar peça bem útil. O aproveitamento de 39% nas bolas de três na última temporada foi o mais alto da carreira, mas também deu para vê-lo cortando bastante sem bola em direção à cesta, pelas costas dos marcadores, para receber e finalizar embaixo do aro.

Perder um um defensor de primeiro nível, capaz de marcar o homem da bola do time adversário para preservar Thomas e que vinha se mostrando cada vez mais eficiente do outro lado da quadra foi um golpe duro. Mas é o que precisava mesmo ser feito do ponto de vista financeiro. Bradley será agente livre em 2018, junto com Thomas — que tem falado desde já que pretende ganhar muito dinheiro no seu próximo contrato.

Justamente pela evolução e por todas essas coisas boas que tem entregado, ele se valorizou demais e atrairia propostas salgadas de outras equipes. Acabaria custando caro demais para o Celtics mantê-lo. Até daria para aceitar esse cenário e pagar multas pesadas por ultrapassar a “luxury tax“, partindo assim para uma espécie de tudo ou nada. Mas a ideia parece ser a de manter esse time competitivo e com margem para continuar crescendo por mais tempo, então faz sentido que seja Bradley o negociado mesmo.

Além disso, o Celtics precisava encaixar uma troca que rendesse o alívio financeiro necessário para fechar com Hayward. Para isso, tinha que encontrar alguém que tivesse condição de receber um valor maior em salários. O Pistons apareceu com essa oportunidade, pegando o contrato que renderá US$ 8,8 milhões a Bradley na temporada 2017/18 e enviando o de Morris, que tem salário anual na casa dos US$ 5 milhões até julho de 2019. Graças a essa diferença de pouco mais de US$ 3 milhões, enfim deu para viabilizar o acordo com Hayward.

Apesar da dor que deve ter sido perder Bradley, dá para a torcida do Celtics olhar com carinho para Morris e considerá-lo como muito mais do que um troco nesta história toda. “Sou fã dele há tempos. Ele é capaz de defender em diferentes posições, é um jogador forte da posição três que também pode jogar na quatro. Além disso, nos traz a habilidade de converter arremessos nas retas finais das partidas quando seu time está sendo marcado por um outro que não te oferece a linha de três. Eu o considero um competidor bem duro. Estamos ansiosos para tê-lo na equipe”, disse Brad Stevens.

Em meio à série de elogios, o treinador do Celtics deu um jeito de falar mais uma vez sobre a ideia de deixar as peças do elenco cada vez menos engessados na ideia sobre posições dentro de quadra e como Morris se encaixa neste conceito. “Temos agora muitos jogadores com mais de dois metros que podem cumprir múltiplas posições. Podemos colocar dois, três, às vezes quatro e até cinco deles em quadra de uma vez. Estou ansioso para ter todos eles prontos para jogar”, afirmou.

Stevens também vai contar com Aron Baynes. O pivô australiano é um ótimo reboteiro — atendendo uma carência do Celtics nos últimos anos — e sabe ser útil para atacar no “pick and roll”, o que pode ser muito interessante com Hayward. Não é um destes jogadores capazes de atuar em múltiplas posições, mas não deixa de oferecer diferentes alternativas ao elenco simplesmente por poder ser substituto de Al Horford ou mesmo atuar ao lado dele, deixando-o alguns minutos na posição quatro.

Essa é só uma das dúvidas que cercam o que será deste novo Celtics. Crowder, por exemplo, será usado na posição três para que Hayward apareça na dois? Na quatro, possibilitando a entrada de Jayson Tatum ou de Jaylen Brown no quinteto? No banco? Como Morris e Smart vão entrar nisso aí? São muitas questões e está cedo demais para saber as respostas. Talvez elas demorem para aparecer e Stevens vai se divertir tentando encontrá-las. Se o treinador chegou à série contra o Washington Wizards, na semifinal do Leste, ainda fazendo experiências com as formações, dá para imaginar tranquilamente mais um longo período de testes nesta próxima temporada.

O certo é que há mais talento à disposição de Stevens, que esse time parece ter subido mais um degrau em relação ao que era na temporada passada e que ainda dá para continuar crescendo nos próximos anos. Mais do que nunca, a expectativa sobre o futuro do Celtics é bem grande. Isso é muito bom por um lado, pois é neste nível que muitas equipes que partem para a reconstrução sonham chegar um dia. Por outro, as cobranças ficam cada vez maiores à medida que mais passos são dados. Mas Ainge — ao menos por enquanto — jura que isso não é problema. “Eu gosto de grandes expectativas”, disse ele.

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