Horace Grant admite que levou provocações do Pistons para o lado pessoal

Luís Araújo

Ala-pivô titular nos três primeiros títulos do Chicago Bulls, Horace Grant foi uma das peças importantes de uma dinastia que a NBA viu ser escrita no início dos anos 1990. Algo que só aconteceu depois das seguidas eliminações diante do Detroit Pistons, tão frustrantes quanto necessárias neste processo. “Só nos tornamos o que o mundo conheceu graças a eles”, afirmou o ex-jogador ao Triple-Double. 

O bate-papo não ficou apenas nos tempos dele ao lado de Michael Jordan e Scottie Pippen no time pelo qual iniciou a carreira. Grant ainda relembrou as passagens por Orlando Magic, onde entende que as coisas poderiam ter sido melhores se durassem um pouco mais, e Los Angeles Lakers. Além disso tudo, fez uma previsão otimista para o New York Knicks, que conta hoje com alguns velhos conhecidos dele. “Diria que o futuro é brilhante”, opinou.

Veja abaixo como foi a conversa:

Triple-Double: Phil Jackson relatou no livro “Onze Anéis” algumas dificuldades que Michael Jordan tinha para entender a mentalidade necessária para ser campão. Como foram esses primeiros anos dele antes do primeiro título do Chicago Bulls?

Horace Grant: Era como se fosse um homem em uma missão especial. Muita gente dizia que ele não poderia ganhar o título fazendo tantos pontos quanto fazia. Quando um cara tão competitivo assim é testado, ele vai provar que você está errado ou vai morrer tentando. Phil o convenceu a se encaixar no triângulo, a saber que ele precisaria dos companheiros e teria de confiar em cada um para fazer as jogadas. Assim que Michael entendeu e abraçou isso tudo, os campeonatos vieram.

Triple-Double: Antes do primeiro título, o Bulls caiu três anos seguidos para o Detroit Pistons nos playoffs. Quão difícil foi perder tanto para os “bad boys” e qual a importância deles para o sucesso que vocês alcançaram depois?

Horace Grant: Foi muito frustrante. Eles eram os campeões e descobrimos que não poderíamos usar força bruta para tentar bater de frente com a força bruta deles. Se isso acontecesse, eles levariam vantagem. Isso aconteceu por três anos seguidos. Durante esse tempo, ficamos mais maduros como time. Aprendemos demais com o Pistons assim que colocamos na cabeça que não poderíamos revidar cada vez que eles nos batiam e que deveríamos seguir com nosso jogo. Devemos dar muito crédito a eles, pois só nos tornamos o que o mundo conheceu graças a eles. Quanto não revidamos as agressões e nos preocupamos só em jogar basquete, nós os varremos nos playoffs.

Triple-Double: E como as provocações de alguns jogadores do Pistons, que menosprezavam qualquer jogador do Bulls que não fosse Jordan, ajudaram caras como você e Scottie Pippen?

Horace Grant: Michael mereceu toda a atenção que recebeu, mas Scottie e eu levamos essa questão para o lado pessoal, buscando provar ao mundo que não era só ele que jogava na equipe. Que o Bulls também tinha a mim, Scottie, Bill Cartwright, B.J. Armstrong e outros jogadores. E conseguimos, pois era preciso um time completo mesmo para bater o Detroit Pistons.

Triple-Double: Como era trabalhar com o método “zen” de Phil Jackson? E quanto isso ajudava os jogadores a pensarem de maneira diferente?

Horace Grant: Phil é um mentor único, foi muito mais do que um técnico. Ele deixou todo mundo no time ter a própria personalidade, desde que elas estivessem comprometidas com as metas coletivas. Todas tinham de se encaixar no objetivo da equipe, que era o de perseguir o título. Ele, por exemplo, não mandava Michael deixar de pontuar tanto. Não, pois sabia que isso fazia parte da personalidade dele. Phil trabalhou bem isso com todo mundo. Soube pegar todos os ingredientes dentro do elenco para montar uma ótima salada.

Triple-Double: Você conhece Phil, o triângulo e Derek Fisher. Os três estão juntos agora em Nova York. Apesar da má temporada do Knicks, dá para confiar nessa união para o futuro?

Horace Grant: Diria que o futuro do Knicks é brilhante. Os torcedores devem ser pacientes porque Phil e Derek sabem o que estão fazendo. Eles estão reunindo jogadores que se encaixam perfeitamente no triângulo. Assim que isso estiver no caminho, vai ser difícil defender contra esses caras, podem acreditar. Eles se livraram de muita gente no elenco, estão implantando um sistema de jogo, tiveram uma escolha alta no Draft deste ano e muito espaço na folha salarial. Eles têm um plano, e isso é animador para a torcida em Nova York.

Triple-Double: Você conseguia imaginar Fisher como técnico quando jogou junto com ele no Los Angeles Lakers?

Horace Grant: Sim, todo mundo percebia isso. Era bem claro. Sabíamos que ele seria técnico, só não imaginava que isso aconteceria tão cedo. Ele se relacionava bem com os jogadores e com quem o treinava. É um ótimo sujeito, um grande caráter, muito lutador e amável.

Triple-Double: Com relação à sua passagem pelo Orlando Magic, o que imagina que poderia ter acontecido se Shaquille O’Neal tivesse decidido permanecer e Penny Hardaway não sofresse tanto com as lesões?

Horace Grant: Alguns títulos. Poderíamos ter conquistado uns dois ou três. Talvez até mais. Éramos um time muito jovem e cheio de talento. Além de mim, Shaq e Penny, havia Nick Anderson, Brian Scott e Brian Shaw. Consigo imaginar alguns títulos para esse grupo.

Triple-Double: E o que poderia ter acontecido com Penny Hardaway em especial?

Horace Grant: As lesões infelizmente fazem parte da NBA. Penny poderia ter sido um dos dez melhores da história. Eu estava perto dele, eu vi muito bem o que ele era capaz de fazer quando saudável.

Triple-Double: Muita gente que não o viu jogar te conhece por causa do 2K. Como você encara isso? Tem alguma intimidade com o videogame?

Horace Grant: É uma honra ter meu nome neste jogo. Acho ótimo uma criança que não me viu jogar descobrir que eu era bom reboteiro, sabia defender e dava tocos. Aí elas vão no Google e pesquisam quem foi esse cara de óculos que jogou no Bulls. Mas eu não jogo, não.

Tags: , , , , , ,

COMPARTILHE