John Wall usou o basquete para salvar a vida

Luís Araújo

* Texto publicado em 17/02/2015

Aos poucos, John Wall tem entrado nas discussões sobre quem é o melhor armador da atualidade na NBA. O astro do Washington Wizards impressiona pela agilidade, infiltra com facilidade, sabe pontuar, tem habilidade para criar espaços para os companheiros atacarem, lidera a liga em assistências e defende muito bem. O reconhecimento por parte do público veio com a primeira aparição entre os titulares do All-Star Game.

Trata-se de uma carreira ainda em estágio inicial que já mostra flashes de brilho e com potencial de voar ainda mais alto nos próximos anos. Mas que correu o sério risco de não se concretizar por causa de alguns caminhos que percorreu durante a adolescência.

“Foi muito duro, precisei virar homem aos nove anos, muito antes do que gostaria”, disse Wall, em uma entrevista por vídeo com jornalistas do mundo todo da qual o Triple-Double fez parte antes do All-Star Game. O comentário referiu-se à morte do pai e às consequências disso.

“Me envolvi com gente errada, e minha mãe precisou ter uma conversa séria comigo. Ela me disse que eu poderia seguir o caminho do meu pai e do meu irmão, ou então usar o basquete como uma maneira de escapar disso e salvar minha vida. Foi o que decidi fazer”, completou o armador do Wizards.

O pai de Wall morreu em agosto de 1999, vítima de um câncer de fígado, pouco depois de sair da prisão. Ele estava lá por causa de um assalto a mão armada e já tinha passado pela cadeia uma outra vez devido a um homicídio.

A perda fez com que o armador se rebelasse, desenvolvendo um comportamento problemático. Além de se recusar a obedecer adultos, envolveu-se em brigas de rua e até em roubos de carros. Foi quando aconteceu a conversa com a mãe, que incluiu até um irmão dele que hoje se encontra preso.

A atitude não poderia ter dado um efeito mais positivo. Wall mergulhou de cabeça no basquete e conseguiu usá-lo para entrar em Kentucky, onde trabalhou com o técnico John Calipari, nome de peso no meio universitário. Em 2010, foi a primeira escolha do Draft da NBA. Ainda assim, precisou de tempo para provar o real valor. Isso porque chegou em uma época difícil para o Wizards, na qual a franquia da capital norte-americana aparecia entre os sacos de pancada da Conferência Leste. Para piorar, sofreu com lesões no joelho.

Apesar de algumas boas atuações, as primeiras três temporadas foram difíceis. As coisas começaram a mudar na última. Com a ajuda de um elenco melhor qualificado ao seu redor, incluindo a pontaria calibrada de Bradley Beal ao seu lado no perímetro e a habilidade de Marcin Gortat em fazer bloqueios para ajudar a abrir suas rotas de entrada ao garrafão, ele finalmente conseguiu se tornar um “all-star” e liderar o Wizards aos playoffs pela primeira vez.

O time foi ainda além. Desbancou o mando de quadra do Chicago Bulls na primeira rodada e avançou à semifinal de conferência, algo que a franquia tinha conseguido pela última vez em 2005. Foi uma trajetória boa o suficiente para abrir os olhos de quem ainda não havia prestado a devida atenção nele e que acabou rendendo elogios de um dos principais armadores da história: Gary Payton, que afirmou ser um grande admirador do líder do Wizards.

“É uma honra ouvir esse tipo de coisa de uma lenda como ele. É alguém em quem eu definitivamente me inspirei, sobretudo na maneira como defender”, afirmou Wall, antes de refletir sobre o que passou nos primeiros anos como profissional. “Levou algum tempo para eu ter sucesso nesta liga, estou animado com as coisas que têm acontecido comigo recentemente, mas quero seguir evoluindo. Meu pensamento é o de nunca me dar por satisfeito.”

Nesta linha de raciocínio, não é difícil saber o que vem na seqüência da lista de desejos de Wall: um título com o Wizards. Algo que ele acredita ser possível alcançar já neste ano. “É nossa meta, sem dúvida. Se jogarmos da maneira correta e a sorte também ajudar, podemos chegar lá. Precisamos mostrar nosso melhor basquete nos playoffs. Penso que temos as peças necessárias para sermos campeões, mas temos de manter nosso foco por 48 minutos, coisa que não temos feito muito ultimamente. Por isso não temos mais vitórias na nossa campanha”, analisou.

Uma peça nova no elenco ajuda o armador a ficar ainda mais confiante para a seqüência do campeonato. Trata-se do ala veterano Paul Pierce. Não só pela capacidade de converter arremessos decisivos, mas também pela atitude e o impacto que causa nos companheiros. “Ele é um cara que me faz acreditar que sou o melhor jogador que existe sempre que estou em quadra. Tem experiência de campeão e lidera pelo exemplo. Ajuda muito com a mentalidade e postura verbal no dia a dia”, comentou.

De acordo com o depoimento, Pierce está colaborando de maneira direta com o desenvolvimento de uma estrela que tem se mostrado cada vez melhor. Situação que hoje só é possível porque lá atrás Wall resolveu ouvir quem queria vê-lo usar o basquete para consertar a vida.

Santa conversa com a mãe.

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