Kawhi em Toronto, DeRozan em San Antonio. Bom para quem?

Luís Araújo

Parecia que o San Antonio Spurs estava pedindo demais ao Los Angeles Lakers por Kawhi Leonard. Em condições normais, trata-se de um dos melhores e mais completos jogadores da NBA nos dias de hoje, é verdade. Mas o contexto não ajudava. A vontade dele de sair de onde estava e de se mandar para Los Angeles já não era segredo para ninguém. O fato de ele ter só mais um ano de contrato e a informação de que LeBron James não tem pressa de fazer as coisas funcionarem no Lakers deixavam o cenário ainda mais complicado para o Spurs.

Dito isso tudo, por que não aceitar logo Brandon Ingram e mais algum outro ativo qualquer que o Lakers pudesse mandar? Precisava bater o pé e exigir um pacote com Ingram, Kyle Kuzma e Josh Hart, sem abrir mão de nenhum deles e ainda cobrar mais duas escolhas futuras de Draft? Afinal de contas, Philadelphia 76ers e Boston Celtics, por exemplo, deixavam bem claro que não envolveriam suas principais peças em um eventual negócio por Kawhi. Até onde se sabia, os principais concorrentes do Lakers pelo MVP das finais de 2014 — ou, pelo menos, aqueles que pareciam ter mais ativos a oferecer — não estavam dispostos a mandar muita coisa para San Antonio. Então a ideia de colocar um ponto final nesta novela o mais rápido possível e pegar Ingram e mais algum outro moleque do Lakers fazia bastante sentido. Até porque o valor de mercado de Kawhi, nestas circunstâncias, diminuiria a cada dia que passa.

Mas havia um motivo por trás disso tudo. Para a surpresa de absolutamente ninguém, parece que o Spurs sabia o que estava fazendo. De acordo com o jornalista Adrian Wojnarowski, da ESPN dos EUA, uma conversa com o Toronto Raptors sobre uma troca envolvendo Kawhi se desenvolveu nas últimas duas semanas. Então a franquia tinha a convicção de que não precisava aceitar logo um pacote qualquer do Lakers se não quisesse. É curioso como às vezes podemos ter uma percepção errada sobre as coisas por não termos 100% das informações nas mãos, né?

Esse negócio acabou se concretizando. Kawhi foi mandado para o Raptors junto de Danny Green, que tem um contrato também expirante no valor de US$ 10 milhões. Em troca, o Spurs recebeu DeMar DeRozan (US$ 27,7 milhões por ano até 2021), Jakob Poeltl (US$ 3 milhões nesta temporada com um “team option” para a próxima) e uma escolha de primeira rodada do Draft de 2019.

Ainda de acordo com o que apurou Woj, essa escolha será protegida para as 20 primeiras posições do recrutamento. Caso não possa mesmo ser usada, ela irá transformar em duas de segunda rodada. Com relação a esse ativo especificamente, significa o seguinte para o Raptors: se o experimento der certo e o time seguir entre as cabeças do Leste, aí tudo bem dar uma escolha de primeira rodada, mas se as coisas não funcionarem tão bem, pelo menos essa escolha será mantida. É um risco completamente compreensível de se correr.

O grande risco mesmo para o Raptors nesta história, obviamente, diz respeito à situação de Kawhi. Até onde se sabe, ele continua querendo ir para Los Angeles. Há uma chance considerável de que essa ida para o Canadá seja só por uma temporada, até que ele resolva ir para onde bem entender daqui a um ano, quando virar agente livre. Aliás, segundo o jornalista Chris Haynes, também da ESPN dos EUA, ele “não tem desejo” de jogar pelo Raptors.

Se der tudo errado, o Raptors pelo menos terá uma economia de cerca de US$ 30 milhões na folha salarial com as saídas de Kawhi e Green. Pode não ser o bastante para se perseguir um grande astro no mercado de agentes livres de 2019, mas também evitaria o pagamento de multas. Sem falar que o elenco conta com alguns jogadores jovens, que se mostrarem bem úteis ao ponto de fazer a equipe parecer profunda ao longo da temporada passada e que, teoricamente, poderiam ser trocados de maneira mais fácil se Masai Ujiri e companhia resolverem não reconstruir em volta deles.

Então mesmo se tudo der errado, a flexibilidade financeira será um prêmio de consolação e tanto. Mas se Kawhi estiver saudável e entrar em quadra mais ou menos perto do que foi em seus melhores dias de Spurs, aí o negócio fica realmente animador para o Raptors. Trata-se de um jogador bem melhor e mais completo do que DeRozan nos dois lados da quadra, sobretudo na defesa. Simples assim.

Danny Green também pode ser uma notícia agradável aos torcedores canadenses por ser capaz de exercer um papel bem maior na rotação do que Poeltl. Ele, Kawhi, Kyle Lowry e OG Anunoby podem vir a colocar em prática formações extremamente versáteis na defesa, trocando bastante a marcação após bloqueios se for o caso. Existe aí potencial de se emplacar um time monstruoso defensivamente, ainda com Pascal Siakam podendo se juntar a esse quarteto por alguns minutos.

O Raptors não só continua profundo, mas entrará na próxima temporada ainda mais talentoso e completo do que terminou a última. E isso tudo enquanto LeBron estará no Oeste. Essa certeza de que o grande carrasco não aparecerá pelo caminho desta vez ajuda muito na briga por um lugar na decisão de 2019. E quanto maior for o sucesso desta experiência, maiores serão as chances de convencer Kawhi a mudar de ideia e permanecer.

Vale abrir parênteses aqui. Já tem gente falando de um possível boicote de Kawhi, que estaria disposto a simplesmente não entrar em quadra durante a temporada com o Raptors. Mas se isso acontecer, ele estaria sujeito a multas para cada treino e para cada partida em que deixasse de aparecer sem motivos. Se isso durasse a temporada inteira, ele ficaria sem receber. A não ser que ele se preste ao papel de entrar em quadra e fazer corpo mole, o que seria algo absolutamente inusitado e difícil de se prever as consequências. Melhor deixar para tratar disso quando de fato virar assunto. Fecha parênteses.

Pelos lados do Spurs, essa troca mostrou o quanto Gregg Popovich e seus pares não estão dispostos a entrar em modo de reconstrução. Pegar uma estrela já consagrada mostra o quanto a ordem deve ser lutar para se manter na zona de classificação para os playoffs. DeRozan já seria uma ótima conquista neste sentido. Mas não só isso. Nas mãos de um dos técnicos mais geniais da história da NBA, há motivos para se acreditar que ele possa vir a ser uma versão ainda melhor do que já mostrou até hoje. Em um esquema tático com menos momentos de estagnação e que consiga colocar mais obstáculos para as reações das defesas adversárias, DeRozan pode ver suas grandes atuações ficarem mais frequentes. Aquele negócio de beirar os 50 pontos em uma noite e de mal passar dos 10 em outra tem boas chances de ficar para trás.

Além de destravar algumas armas ofensivas de seu novo astro, Popovich poderá ajudar a esconder as limitações defensivas. Ele é mestre nisso. David Lee, que a carreira toda foi uma piada na hora de marcar, chegou a ter momentos realmente muito bons na defesa durante o tempo em que vestiu o uniforme do Spurs. As coisas, de algum jeito, costumam funcionar de uma maneira geral. Os desempenhos nos rankings de eficiência desta equipe nas últimas temporadas atestam isso.

Poeltl é o nome menos badalado desta transação, mas não deixa de ser intrigante. Primeiro por ser um sopro de juventude em um elenco que não é exatamente um dos mais novos da NBA. Por mais que o desempenho nos playoffs tenha levantado algumas dúvidas sobre a sua capacidade de se virar na defesa longe da cesta, as atuações ao longo da última temporada regular deram pistas de que talvez exista potencial ali para virar um marcador mais completo e maduro com um tempo. Perto da cesta, o austríaco já se vira muito bem. No ataque também. A finalização ao redor do aro e leitura de jogo se destacaram como pontos fortes dele.

Pode ser que Poeltl não se desenvolva tanto assim, é claro. Pode ser que DeRozan não jogue tão melhor assim do que em Toronto. Ou que o Spurs apresente problemas sérios de espaçamento ofensivo por não colocar arremessadores bons o suficiente em volta dele e de LaMarcus Aldridge. Tudo isso ao mesmo tempo em que a investida por Kawhi pode se mostrar uma decepção.

Riscos sempre existem em trocas, mas seria uma notícia especialmente boa neste caso se as coisas dessem certo. Teríamos a chance de ver a melhor versão possível de DeRozan, além de refrescar a memória sobre o quanto Kawhi pode ser dominante nos dois lados da quadra. Todo mundo. talvez com exceção da torcida do Lakers, sairia ganhando.

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