Kyrie Irving em Boston, Isaiah Thomas em Cleveland

Luís Araújo

Nem New York Knicks, nem Miami Heat, nem Minnesota Timberwolves, nem San Antonio Spurs. A lista de desejos de Kyrie Irving acabou não sendo levada adiante. O parceiro que o Cleveland Cavaliers encontrou para enfim encaixar uma troca envolvendo o armador foi o Boston Celtics.

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Bom, voltando…

Foi tudo muito rápido. A confirmação veio em questão de alguns minutos depois que o rumor pipocou. Para ter Irving (US$ 18 milhões na próxima temporada/contrato até julho 2019 com “player option” para durar mais um ano), o Celtics mandou Isaiah Thomas (US$ 6 milhões/contrato expirante), Jae Crowder (pouco menos de US$ 7 milhões/contrato até 2020), Ante Zizic (US$ 1,5 milhão na próxima temporada/contrato até 2019 com “team option” para os dois anos seguintes) e uma escolha do Draft de 2018 — aquela do Brooklyn Nets, sem restrição nenhuma.

Não é todo dia que vemos uma negociação como essa, envolvendo dois finalistas de conferência da temporada anterior, que provavelmente irão se cruzar novamente e que, em tese, buscam se movimentar para superar o outro. É bem curioso e, até certo ponto, estranho, mas dá para enxergar como algo que faz sentido para ambas as partes.

Comecemos pelo Cavs, que ficou contra a parede a partir do momento em que o pedido de Irving para ser negociado vazou para o mundo inteiro. Com poder limitado de negociação a partir disso, não seria nada fácil conseguir um retorno à altura. É claro que dava para mantê-lo à força até o fim de contrato, mas vai saber que tipo de consequência para o ambiente interno uma situação dessa causaria? Para quem não tem tempo a perder para manter as chances de título enquanto LeBron James estiver ao redor, é um risco que não faz sentido correr mesmo.

De acordo com o que relatou Dave McMenamin, jornalista que cobre o time de Cleveland para a ESPN dos EUA, a direção da equipe resolveu esperar para ver o que acontecia durante as últimas semanas e recebeu propostas de cerca de dois terços da liga. A meta estabelecida desde o começo era conseguir um pacote com peças que pudessem manter o nível de competitividade atual e que deixe alguma perspectiva de reconstrução para o futuro.

Foi exatamente isso o que o Cavs conseguiu neste negócio com o Celtics. Thomas vem da melhor temporada da carreira, tendo mostrado que é capaz de assumir perfeitamente esse papel de tanto levar a bola para o ataque, comandando “pick and rolls”, como de jogar sem ela nas mãos enquanto LeBron a domina.

Na verdade, dá até para dizer que ele funciona até melhor do que Irving neste papel sem bola. Na temporada passada, ele acertou 39,9% dos chutes de três que tentou em situações de “catch and shoot” — quando um jogador arremessa logo depois de receber o passe. Tendo um facilitador como LeBron ao seu lado, é de se imaginar que oportunidades ainda melhores do tipo apareçam. Além disso, ficou bem claro o perigo que Thomas é capaz de levar correndo por bloqueios antes de receber em movimento, com a defesa desequilibrada correndo atrás dele, seja definindo a jogada ou encontrando o espaço que se abre para algum companheiro a partir da sua ação.

O problema, no entanto, é a defesa. Que também passava longe de ser uma força de Irving, mas que desperta um ponto a mais de preocupação sobre Thomas por um motivo em especial: trata-se de um sujeito de 1,75m — 16cm mais baixo do que Irving, por exemplo. Em um hipotético novo encontro nas finais com o Golden State Warriors, Tyronn Lue terá um desafio ainda maior do que tinha antes para esconder o seu armador titular na defesa.

Por outro lado, Crowder é um ganho e tanto para a defesa do Cavs, oferecendo uma versatilidade para o perímetro que fez falta para o time na temporada passada. No ataque, é alguém que os adversários certamente não se sentirão confortáveis com a ideia de abandoná-lo. Esse dado abaixo do Synergy Sports Tech resume bem isso aí: o ala teve uma eficiência de 66% nos arremessos de “catch and shoot” que deu livre na temporada passada, ao mesmo tempo em que limitou seus oponentes a um aproveitamento de apenas 32% nas vezes em que marcou jogadas de isolação.

Por isso tudo e pela capacidade de exercer múltiplas posições em quadra, Crowder acrescenta demais ao Cavs em termos de profundidade de elenco. Zizic é um jovem pivô croata que teve como principais trunfos no basquete europeu a força perto da cesta e as finalizações ao redor do aro, mas que não passar de uma aposta. Se não der certo, tudo bem. É um custo muito baixo. Se der, o time ganha mais um valor interessante para os próximos anos.

Mas o grande atrativo nesta linha de raciocínio é mesmo a escolha de Draft. Por mais que o Nets tenha se reforçado e realmente pareça mais talentoso do que no ano anterior, o mais provável é que a equipe novaiorquina termine a temporada fora dos playoffs e em uma das últimas colocações do Leste, o que deverá render uma boa posição para o Cavs no próximo recrutamento.

Em meio a tudo isso, vale a pena ter sempre em mente que LeBron pode virar agente livre ao final da próxima temporada. Essa escolha, portanto, poderia servir como uma carta na manga para o Cavs convencê-lo a ficar ou mesmo ser utilizada para a aquisição de um novato para ajudar na reconstrução. Mas não é só ela. Todas as outras peças envolvidas nesta troca por Irving poderiam ser importantes neste cenário: Zizic, pela juventude; Crowder, que tem contrato para essa e mais outras duas temporadas; e até mesmo Thomas, que também será agente livre, mas que poderá reassinar pelo caminhão de dinheiro que tanto deseja caso a franquia resolva torná-lo o novo líder do time.

O Cavs conseguiu tudo o que queria: manteve o alto nível de competitividade no presente, podendo ser até superior ao time da última temporada, e encontra-se em uma situação muito mais favorável para se virar em caso de saída de LeBron.

Vendo as coisas pelo lado do Celtics, até pareceu em um primeiro momento que esse pacote a caminho de Cleveland tinha itens demais, mas aos poucos foi possível compreender melhor essa decisão. Apesar do salário de Irving ser maior do que a soma de todos os jogadores mandados para o Cavs, essa troca tira de Danny Ainge e companhia a necessidade de tomar uma decisão importante do ponto de vista financeiro daqui a um ano, pois Thomas já tinha declarado que pretende buscar um “caminhão de dinheiro” no seu próximo contrato, o que muito provavelmente levaria a folha salarial para acima da “luxury tax”.

Irving tem pelo menos mais dois anos de contrato, o que possibilitará ao Celtics ganhar tempo por não precisar esquentar a cabeça com questões financeiras tão grandes a curto prazo — exceto por Marcus Smart, que pode virar agente livre em 2018. Além disso, ele tem 25 anos. Três a menos do que Thomas. E, como já dito, mesmo também tendo suas limitações defensivas, é consideravelmente mais alto.

O que parece ter acontecido no Celtics foi a união entre o pé atrás em relação a assumir um compromisso longo — e gordo — com Thomas e a oportunidade de apostar no potencial de Irving, o que explica a inclusão das outras peças do pacote. Por mais que Crowder tenha seu valor, não faria sentido mantê-lo em um time sem armador na próxima temporada, a não ser que ele fosse usado em uma troca por um outro armador que o Celtics fosse tentar buscar depois de resolver não reassinar com Thomas. Sendo assim, por que já não fazer isso agora? E também não é que Danny Ainge ficou sem ativo nenhum para continuar apostando em jovens vindos do Draft. Resta ainda aquela que o Philadelphia 76ers mandou para ficar com a primeira posição neste ano.

É o preço de se apostar em um dos pontuadores mais perigosos e eficientes da NBA, que já acertou uma bola decisiva em Jogo 7 de final, que parece ter mais potencial do que qualquer outro jogador envolvido na troca e que ainda tem mais um tempo de contrato. Em Boston, é de se imaginar que Irving tenha ainda vezes mais luz verde para comandar o ataque do que tinha em Cleveland, o que pode render resultados ainda mais espetaculares do que aqueles que nos acostumamos a ver até hoje.

Por mais que Gordon Hayward seja um jogador completo e de encaixe fácil, pode ser que leve um tempo para que os dois consigam descobrir como coexistirem de um jeito que os faça usarem o máximo de suas forças em quadra. É um tempo que também vai servir para Jaylen Brown e Jayson Tatum continuarem se desenvolvendo ao ponto de conseguirem entregar o papel importante que terão de cumprir nesta equipe.

Dá até para considerar que essa troca tenha reforçado o favoritismo do Cavs no Leste por mais uma temporada. Mas, ao mesmo tempo, fez o Celtics se livrar de algo que poderia atrapalhar esse projeto de Ainge no ano que vem e parece ter ampliado o teto da equipe.

E como se já não fosse curioso o bastante esses dois finalistas de conferência fazerem uma troca tão grande entre si, o confronto que abrirá a temporada 2017/18 será justamente entre Celtics e Cavs. A ansiedade pelo dia 17 de outubro só aumenta.

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