Kyrie Irving para o resgate

Luís Araújo

As coisas estavam começando a ficar realmente assustadoras para o Cleveland Cavaliers quando LeBron James acumulou a quarta falta e precisou sair de quadra. Isso aconteceu a pouco menos de sete minutos para o fim do segundo quarto, em um momento no qual o time perdia por 43 a 33. Logo em seguida, Jaylen Brown e Avery Bradley acertaram bolas de três e levaram essa diferença para 16 pontos. Tudo parecia dar certo para o Boston Celtics, que ficava em posição cada vez melhor para conquistar mais uma vitória fora de casa e empatar a série, algo que era difícil de se imaginar após as duas lavadas que tomou como mandante.

Mas Kyrie Irving tinha outros planos e começou a mudar a história da partida. Ele foi responsável por 12 dos 14 últimos pontos produzidos pelo Cavs no primeiro tempo, o que foi muito importante para que a equipe não implodisse de vez e conseguisse sobreviver sem LeBron. No terceiro quarto, beneficiado pelo retorno da principal estrela da companhia e pela boa defesa emplacada diante do oponente, vieram mais 21 pontos. No fim das contas, o armador estabeleceu um novo recorde pessoal de pontos nos playoffs com os 42 que anotou, frutos de um aproveitamento de 15 finalizações certas em 22 tentadas.

“Acho que ele viu LeBron saindo e quis carregar o time nas costas”, disse o técnico Tyronn Lue. “E nós o deixamos nos guiar até o LeBron voltar. Foi o que ele fez. Nós também o colocamos em boas situações, o exploramos em jogadas individuais, nas quais ele é um dos melhores da liga, e assim ele produziu muita coisa para nós a partir disso, atacando a cesta. Ele realmente assumiu a responsabilidade e nos carregou durante o segundo e o terceiro quartos. Aí LeBron entrou nos últimos seis minutos do terceiro período e praticamente fechou o negócio.”

A jogada a seguir serve como uma pequena amostra do estrago que Irving fez na defesa do Celtics. Isolado pouco atrás da linha de três, ele atacou a defesa de Avery Bradley, entrou no garrafão e conseguiu encontrar espaço para finalizar diante da marcação de um sujeito classificado por Lue após o duelo como “o melhor defensor individual da liga”. Não foi nada fácil. Mérito total dele.

Por mais especial que tenha sido a postura de Irving, assumindo as rédeas do time e entregando uma produção ofensiva tão expressiva, não foi nada de outro mundo para LeBron. “Foi a mesma coisa que eu tenho visto desde que cheguei aqui”, declarou o camisa 23. “Tenho dito há algum tempo que esse rapaz é especial. O jogo dele cresce na medida em que os desafios ficam maiores. Não fiquei surpreso. Ele apareceu para colocar o time nas costas e nós certamente precisávamos muito desse tipo de coisa da parte dele”, completou.

Nem mesmo uma torção no tornozelo esquerdo o parou. Irving até ficou caído no chão depois de pisar em cima do pé de Terry Rozier em um contra-ataque que finalizou na reta final do terceiro quarto, sem esconder de ninguém a dor que sentia. Mas respirou fundo, amarrou o tênis com mais força e voltou para o jogo na marra, antes que o corpo esfriasse e o incômodo se tornasse insuportável.

“Estou certo de que meu corpo provavelmente irá me odiar quando eu chegar em casa, mas pela magnitude do momento e pelo o que estava em jogo, não tinha como eu sair. Eu sabia o quanto nós queríamos essa partida, o quanto meus companheiros precisavam de mim e a importância de conseguir liderar esse grupo tão bem quanto LeBron”, declarou Irving.

“Dou o crédito a ele, Kyrie fez um grande jogo”, afirmou Bradley depois da partida. “Eu tive um problema com faltas e precisei trocar a marcação muitas vezes, mas nós precisamos fazer um trabalho melhor enquanto time. Entendemos que se trata de um grande jogador, assim como LeBron. Não é só um cara nosso que vai parar cada um deles. É preciso que o time inteiro funcione, e hoje a nossa defesa não foi boa do ponto de vista coletivo.”

Muito graças a esse desempenho de Irving e ao que fez LeBron depois que voltou para a quadra no segundo tempo, o Cavs acabou o jogo com um aproveitamento de 59,5% nos arremessos. Foi um desempenho que igualou um recorde histórico da franquia nos playoffs — ao lado do registrado diante do mesmo Celtics em 2010, no Jogo 3 da semifinal do Leste.

Na análise de Lue, um fator gigantesco para isso foi a redução dos erros do sistema ofensivo a partir do intervalo do jogo. “Sabemos que somos capazes de marcar pontos, mas a defesa do Celtics é ótima no sentido de colocar pressão, com Avery Bradley, Jae Crowder, Marcus Smart e Terry Rozier. Eles são duros, competitivos e conseguem atrapalhar bastante na defesa, roubando um monte de bolas. Tivemos alguns desperdícios de posse de bola no primeiro tempo que foram não forçados, mas a maior parte eu considero que foram forçados por eles. A partir do momento que conseguimos cuidar melhor da bola, pudemos arremessar mais e melhor”, observou.

Na esteira disso, o ataque do Celtics passou a encontrar dificuldades a partir do momento em que teve menos oportunidades de sair transição e precisou criar mais vezes em situação de meia quadra, esbarrando em uma defesa eficiente e que conseguiu acertar as rotações ao ponto de reduzir bastante os arremessos com espaço do rival. Foi aí que a ausência de Isaiah Thomas pesou. Faltou alguém para inventar soluções diante de situações complicadas, capaz de tirar coelhos da cartola para colocar a bola dentro da cesta através de finalizações complicadas e muito contestadas. Algo que Irving fez tão bem do outro lado.

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