Lembra dele? – Jerry Sloan

Luís Araújo

O número de títulos conquistados é um item que chama a atenção na hora de se analisar as carreiras daqueles que se colocam entre os grandes nomes da história da NBA. Mas é importante que o reconhecimento não aconteça apenas em função disso. Há vários exemplos de personagens que deixaram sua marca na liga para sempre, mas que não tiveram a chance de soltar o grito de campeão. Que o diga, por exemplo, Jerry Sloan.

Técnico do Utah Jazz por mais de duas décadas, ele comandou por muito tempo John Stockton e Karl Malone, dois gênios que se despediram da NBA sem um título. Com as peças que botou ao redor da dupla, Sloan conseguiu formar um time que se manteve competitivo por alguns anos e que foi duas vezes vice-campeão.

Só isso já seria o bastante para ilustrar o tamanho da frustração por não ter conquistado um anel de campeão. Acontece que todas as investidas rumo ao topo da liga, por mais promissoras que pareciam, sempre terminaram em decepção também nos tempos de jogador. Pouca gente bateu tanto na trave quanto ele.

Ala-armador de 1,96m, Sloan foi selecionado pelo Baltimore Bullets — atual Washington Wizards — na quarta posição do Draft de 1965, quando tinha 23 anos. Não foi tão utilizado assim como calouro, tendo recebido apenas 16 minutos de ação por partida na temporada de novato. No ano seguinte, transferiu-se para uma equipe estreante na liga: o Chicago Bulls. Podia não parecer naquele momento, mas a mudança marcou o início de uma época especial.

Não demorou muito para isso ficar claro. Sloan se encaixou logo de cara e assumiu a condição de peça-chave em um time que cresceu bastante. Ao longo dos dez anos que passou em Chicago, destacou-se pela intensidade e pelo poder de marcação. Foi eleito quatro vezes para o primeiro quinteto de defesa da liga e duas para o segundo. Além disso, participou de duas edições do “All-Star Game”.

Mais do que qualquer coisa no aspecto individual, ele ajudou o Bulls a se colocar em uma posição na qual o título era algo tangível. Isso ficou mais evidente do que nunca em 1975, quando Sloan e companhia encararam o Golden State Warriors na final da Conferência Oeste e abriram 3 a 2 na série. No sexto duelo, em Chicago, abriram vantagem no início, mas sofreram a virada. Perderam também o embate seguinte e viram o rival seguir em frente. “A gente entregou aquela vaga. Foi, provavelmente, a derrota mais decepcionante na qual estive envolvido. Um fracasso total”, disse ele recentemente ao jornalista Sam Smith.

A carreira não se estendeu tanto depois deste episódio. Prejudicado por uma série de lesões nos joelhos, decidiu sair de cena em 1976. Dois anos mais tarde, tornou-se o primeiro jogador do Bulls a ter sua camisa aposentada. A partir dali, o número 4 nunca mais foi usado na equipe.

Muito tempo depois, ele admitiu que parte da frustração por nunca ter sido campeão em Chicago deu lugar a um alívio quando Michael Jordan, Scottie Pippen e Phil Jackson deram aos torcedores da cidade a chance de sentirem o gosto do título. Mas ele certamente estaria ainda mais satisfeito hoje se o trio tivesse pelo menos uma conquista a menos.

Entre 1988 e 2011, período no qual comandou o Jazz, Sloan somou 1.221 vitórias em jogos de temporada regular — apenas Don Nelson e Lenny Wilkens tiveram mais triunfos do que ele como técnico. O time de Salt Lake City foi figurinha carimbada nos playoffs ao longo destes 23 anos e conseguiu chegar ao topo do Oeste duas vezes. Mas o sonho do título acabou esbarrando em ambas as oportunidades diante do Bulls.

Em 1998, ao contrário do que ocorreu no ano anterior, o Jazz teve o mando de quadra na decisão. Chegou ao sexto jogo perdendo a série por 3 a 2, é verdade, mas com a chance de fazer os dois últimos embates dentro do seu ginásio, diante da sua torcida. Uma cesta de Jordan a poucos segundos do fim decretou a vitória do Bulls por 87 a 86, mas aquele confronto ficou marcado por dois erros cruciais da arbitragem. Uma bola de três de Howard Eisley para os mandantes deveria ter sido validada e não foi, ao passo que os dois pontos um chute certeiro de Ron Harper para os visitantes acabaram sendo injustamente contabilizados.

Revolta? Nada disso. Em 2014, Sloan disse ao jornal Desert News: “Eu nunca senti nada malicioso com relação a esses lances. Depois que o jogo acabou e você enxerga o que aconteceu, vê que fizeram um trabalho muito bom.”

Nenhuma outra chance de ser campeão foi tão boa quanto aquela. Depois das aposentadorias de Malone e Stockton, Sloan e o Jazz ainda conseguiram beliscar uma vaga na decisão do Oeste em 2007, mas foram eliminados pelo San Antonio Spurs em cinco partidas.

O longo casamento entre o treinador e a franquia de Salt Lake City terminou de forma inesperada em fevereiro de 2011. Sloan alegou que estava sem energia o suficiente para seguir em frente e pediu demissão com o campeonato em andamento. Surgiram rumores de que os conflitos com Deron Williams eram o real motivo por trás da decisão, mas nenhum dos dois chegou a confirmá-los.

Foram quase quatro décadas de trabalho na NBA. Sloan não tem um anel de campeão, mas construiu trajetórias inesquecíveis nas duas carreiras que teve e escreveu seu nome para sempre nas histórias de Bulls e Jazz. Quem falou que só o título importa mesmo?

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