Lembra dele? – Josh Howard

Luís Araújo

Não tem jeito. Quando se fala na safra de 2003, é inevitável não fazer uma associação ao quarteto formado por LeBron James, Dwyane Wade, Carmelo Anthony e Chris Bosh. Mas não é apenas por causa deles que aquele Draft é considerado um dos melhores da NBA em todos os tempos. Teve muito mais gente que saiu de lá para construir carreira respeitável na liga. Um deles atende pelo nome de Josh Howard.

Produto de Wake Forest, mesma universidade de Tim Duncan e Chris Paul, o ala de 2,01m foi selecionado na 29ª escolha pelo Dallas Mavericks. Era mais ou menos onde muita gente imaginava na época que Howard seria recrutado mesmo. Por mais que ele tivesse apresentado boa defesa e capacidade de se virar no outro lado da quadra, havia dúvidas do quanto o jogo dele poderia evoluir. O comportamento também era questionado. Por essas razões que demorou tanto para ter o nome chamado.

Howard chegou a um time que havia vencido 60 vezes na temporada anterior e alcançado a final do Oeste. O elenco era profundo. Diante destas circunstâncias, era de se imaginar que um calouro encontraria dificuldades para conquistar espaço na rotação. Mas ele conseguiu. Recebeu quase 24 minutos de ação por jogo enquanto novato durante a fase de classificação. Nos playoffs, esse número diminuiu para algo em torno de 17 por partida — o que é completamente natural.

Foi o tempo suficiente para ele aparecer no segundo quinteto de novatos da NBA em 2004 e, mais importante ainda, se estabelecer como uma das peças da rotação de uma equipe que vinha se mostrando extremamente competitiva. Isso porque o ala entregava ao então técnico do Mavericks, Don Nelson, exatamente o que era pedido: defesa e rebotes.

Mas o papel de Howard dentro de quadra cresceu a partir do seu segundo ano como profissional, ao assumir de vez uma das vagas no quinteto titular. Além de continuar fazendo as coisas que o levaram a causar boa impressão na temporada de estreia, passou a apresentar mais e mais um leque ofensivo interessante.

A habilidade para criar arremessos a partir do drible na média distância chamava a atenção. Com o tempo, o ala desenvolveu também um chute de três pontos bom o suficiente para punir oponentes que o largavam com espaço. Isso caía bem demais em um time como o Mavericks, que atraía bastante a ajuda da marcação em situações perto da cesta, principalmente usando Dirk Nowitzki, e em seguida rodava rápido a bola em busca de alguém com liberdade para definir.

Uma outra característica dele que ficou cada vez mais evidente foi a de comandar a produção de pontos nos minutos iniciais. “Havia vezes em que ele fazia 12, 14, 16 pontos só no primeiro quarto. Isso ditava o ritmo para a gente para o resto da partida. Ele tinha essa energia de aparecer no começo como nenhum outro jogador que eu tenha visto”, disse Avery Johnson, técnico do Mavericks naquela época, em uma entrevista ao finado Grantland em 2014.

“Eu era quem começava a festa”, afirmou Howard, também ao Grantland. “Dirk Nowitzki, Jason Terry, Jerry Stackhouse e todos os outros caras faziam isso nos outros quartos. Aí era com eles, e eu só precisava então me focar na defesa e em contribuir com rebotes.”

Naturalmente, Howard acabou sendo uma das peças centrais na equipe que fez os torcedores em Dallas viverem dois períodos especiais que acabaram de maneira decepcionante: a final de 2006, que terminou com o título de virada do Miami Heat, e a campanha das 67 vitórias em 2007, interrompida logo na primeira fase dos playoffs com uma surpreendente eliminação para o Golden State Warriors.

Foi em 2007 que aconteceu a primeira e única participação de Howard no “All-Star Game”. Ele não havia sido selecionado inicialmente, o que fez Magic Johnson e Dirk Nowitzki darem declarações revoltadas com o que julgaram se tratar de uma injustiça na época, mas acabou ficando com uma das vagas extras que se abriram com as lesões de Yao Ming e Carlos Boozer.

Em 2008, o Mavericks passou por mais um episódio frustrante nos playoffs ao ser eliminado pelo New Orleans Hornets logo na primeira rodada. Aquela série definitivamente não traz boas recordações para Howard, e não apenas pelo resultado em si. Antes de uma partida, ele participou de um programa de rádio e admitiu que fumava maconha nas férias. Disse que era algo feito pela maioria dos jogadores da NBA e que não considerava que atrapalhava seu trabalho.

Ainda que ele tivesse optado por ser o mais verdadeiro possível e fugido da hipocrisia ao comentar o assunto , não faltou gente para repudiá-lo pelo teor dos comentários, é claro, como se ele tivesse ofendido alguém. Mas as críticas também apareceram pelo momento em que esse tipo de episódio aconteceu, já que o Mavericks estava em desvantagem na série e cada vez mais perto da eliminação.

Mas o problema de Howard com “timing” estava prestes a ficar ainda maior. Isso porque logo após o Jogo 4, no qual o time de Dallas foi derrotado e se viu atrás na série por 3 a 1, o ala distribuiu no vestiário convites para uma festa de aniversário que estava organizando para ele próprio. Não pegou nada bem. Avery Johnson não escondeu a irritação.

Situações assim não o ajudaram, mas não foram nada perto de um outro fantasma que não demorou muito para aparecer: as lesões. Um problema no tornozelo que o levou à mesa de cirurgia e voltou a incomodá-lo depois apareceu no início da temporada 2009/10. Quando voltou, não conseguiu retomar o lugar entre os titulares que havia sido dado para Shawn Marion durante a sua ausência. Talvez isso tenha ajudado a franquia de Dallas a aceitar negociá-lo com o Washington Wizards ainda durante aquele campeonato.

“Às vezes, dar uma casa nova a um jogador pode renovar as energias dele”, disse Mark Cuban, proprietário do Mavericks, na época. “Acho que Josh vai se encontrar e renovar suas energias com o Wizards.”

Infelizmente para Howard, não foi bem isso o que aconteceu. Depois de apenas quatro partidas na nova equipe, ele sofreu uma lesão no ligamento cruzado e no menisco do joelho esquerdo e teve de ser operado. Ele nunca mais foi o mesmo. As passagens por Utah Jazz e Minnesota Timberwolves também ficaram marcadas por problemas na articulação que o impediram de engatar uma sequência e de passar perto do nível apresentado nos tempos de Dallas.

A trajetória dele na NBA como jogador não chegou a completar uma década. Howard tem hoje 36 anos. Se as lesões não tivessem atrapalhado tanto, não seria difícil imaginar um bom defensor e um chutador competente como ele ainda em condições de contribuir para uma equipe qualquer no pepel de veterano com minutos limitados.

Howard tem dado agora os primeiros passos como treinador. Ele aceitou o convite para dirigir o time da Universidade de Piedmont. Ainda está cedo, mas uma coisa já parece clara não estar nos planos futuros: comandar uma equipe da NBA.

“Quero ver onde isso aqui vai me levar, mas sempre disse que não gostaria de ser um técnico na NBA”, declarou Howard ao Today’s Fastbreak. “Preferia ser um olheiro ou fazer qualquer outra coisa por trás dos panos. Treinar um time universitário é diferente e se encaixa dentro do que eu gosto de fazer, que é tentar fazer os jogadores se sentirem inspirados.”

Tags: , , ,

COMPARTILHE