A lesão de Cousins e as dúvidas sem fim sobre o futuro

Luís Araújo

Por mais que a briga no Oeste esteja dura, parecia cada vez mais ao longo das últimas semanas que DeMarcus Cousins finalmente teria a oportunidade de disputar os playoffs. Para uma equipe que começou a temporada com o claro desafio de se mostrar alguns degraus mais competitiva em relação ao ano anterior, não só para aumentar as chances de reassinar com Cousins como para mostrar a Anthony Davis que as coisas estão andando, essa classificação seria um bom primeiro passo.

Pode até ser que o New Orleans Pelicans assegure essa vaga nos playoffs, mas precisará fazer isso sem contar com Cousins. Na reta final da vitória sobre o Houston Rockets, o pivô sofreu uma lesão no tendão de Aquiles do calcanhar esquerdo. O prazo previsto para a recuperação é de seis a dez meses, o que evidentemente representa uma mudança nos planos para todos os envolvidos nesta história.

Cousins tinha acabado de ser anunciado entre os titulares do “All-Star Game” e vinha tendo a melhor temporada da carreira tanto em eficiência nos arremessos (53%) quanto em aproveitamento geral de chutes (58,3%). Isso estava acontecendo meses antes de ele virar agente livre, o que deverá causar problemas quando chegar a hora de negociar um novo contrato, seja com o Pelicans ou com outro time qualquer. Afinal de contas, olhando as coisas apenas sob a ótica do interesse das equipes, é muito mais fácil despejar um caminhão de dinheiro em um jogador totalmente saudável do que em alguém no meio de um processo de recuperação de uma lesão tão complicada.

Para Cousins, obviamente, seria muito melhor também poder abrir qualquer negociação sem nada que pudesse deixar os times com pulgas atrás da orelha. É claro que não existe hora boa para esse tipo de coisa, mas dá para dizer que o “timing” desta lesão foi o pior possível. Ela o impedirá de entrar no mercado com a mesma força que poderia em condições normais. De repente, o pivô virou uma aposta de risco para quem estava com planos de persegui-lo.

É compreensível que seja assim por causa de um fator que, para Cousins, é muito mais preocupante do que qualquer queda no valor de mercado que venha a ter daqui a uns meses: o histórico de recuperação nada animador entre quem sofreu com problemas no tendão de Aquiles. Um estudo médico publicado no American Journal of Sports Medicine em 2013 analisou o que aconteceu com 18 jogadores que tiveram lesões do tipo entre 1988 e 2011. Destes 18, sete nunca mais retornaram à liga. E a conclusão do estudo diz exatamente o seguinte: “Os jogadores que voltaram a jogar depois de uma reparação completa do tendão de Aquiles rompido mostraram uma queda significante em termos de tempo de jogo e de performance.”

Os exemplos de jogadores que passaram por isso depois deste estudo também não ajuda muito. Kobe Bryant, Wesley Matthews e Anderson Varejão nunca mais foram os mesmos. Rudy Gay até vem mantendo números mais ou menos próximos em relação ao período pré-lesão da temporada passada, mas tem produzido isso em minutos reduzidos no San Antonio Spurs. Cousins continuará tendo seus recursos técnicos bem acima da média e pode até manter resultados expressivos em chutes — neste sentido, é animador o caso de Gay, que vem tendo agora o seu melhor desempenho da carreira em arremessos. Mas existe uma preocupação enorme em termos de mobilidade, algo que contribui bastante para que ele tenha sido tão especial e se destoado tanto em relação a outros homens de garrafão da liga até o momento.

Se o nível de incerteza a partir desta lesão já é considerável para Cousins, para o Pelicans não é menor. O técnico Alvin Gentry chegou a afirmar que muitas mudanças de planos seriam necessárias, mas que de qualquer jeito a meta continuaria sendo a classificação aos playoffs de qualquer jeito e que a equipe segue em condições de alcançá-la. O problema é que ele e toda a comissão técnica precisarão encontrar respostas importantes com o campeonato em andamento e sem tanta margem para erro assim.

No texto publicado por aqui sobre as escolhas para o “All-Star Game”, foi observado o quanto o “Net Rating” do Pelicans com Cousins em quadra se mantinha mais ou menos a mesma coisa em relação aos momentos em que ele saía, mas isso obviamente não quer dizer que a ausência não será sentida. Considerando tudo o que aconteceu até o jogo contra o Rockets, o pivô aparecia em cada uma das oito formações mais utilizadas pelo time na temporada. O quinteto sem ele que mais tempo havia passado em quadra até então (Anthony Davis, Dante Cunningham, E’Twaun Moore, Jrue Holiday e Rajon Rondo) tinha recebido só 44 minutos. Isso é muito pouco e mostra o tamanho do desafio que será para esse time viver sem Cousins.

Esse quinteto dos 44 minutos aí acabou sendo o que mais permaneceu em quadra durante a derrota do Pelicans para o Los Angeles Clippers, no primeiro jogo do time após a baixa de Cousins. Foram 15 minutos ao todo e um “Net Rating” de -31,8 pontos, resultado que nada tem a ver com o índice de +4,3 pontos que essa formação tinha até a lesão de Cousins. Tudo bem, foi só uma partida, acontece. Mas à medida em que continuarem sendo mais usados, também será normal se esses cinco jogadores juntos não forem capazes de manter o mesmo resultado positivo que vinham tendo antes da lesão .

Mais preocupante do que isso é saber como o time irá se comportar quando Anthony Davis precisar de descanso no banco. Antes, era só uma questão de organizar a rotação de uma maneira a equilibrar os minutos entre os dois “all-stars” para que pelo menos um deles ficasse em quadra o tempo todo. Só que agora não tem mais Cousins para segurar as pontas nestes momentos. Então não tem jeito. O time vai precisar encontrar uma maneira de passar alguns trechos dos jogos sem nenhuma das duas estrelas em ação.

Durante os sete minutos em que Davis não participou da partida contra o Clippers, quem ficou em quadra no seu lugar foi Omer Asik, que só tinha participado de 12 jogos em toda a temporada antes disso, com média inferior a oito minutos de ação. Além dele, o único outro jogador de garrafão disponível no banco para essa função é Cheick Diallo, que também vinha sendo pouquíssimo utilizado. Alexis Ajinca poderia ser opção, também está fora da temporada por causa de uma lesão no joelho. Isso tudo significa, portanto, que o Pelicans tem duas opções para os momentos em que precisar descansar Davis: mandar para a quadra jogadores que Gentry não confiava ou improvisar um super “small-ball”.

Ainda que consiga sobreviver a esse resto de fase de classificação e avançar de fato aos playoffs, de qualquer jeito a franquia continuará encontrando desafios cascudos assim que a temporada acabar. Por mais incerto que seja o futuro de Cousins enquanto jogador, faz sentido imaginar que o Pelicans queira mantê-lo no elenco depois que o mercado de agentes livres se abrir. Mas como isso vai acontecer? A opção de não renovar pelo contrato máximo existe? Dificilmente. E se Cousins não for mais o mesmo, o quanto isso pode atrapalhar o grande objetivo, que é mostrar a Anthony Davis que não é preciso se mandar para competir por coisas grandes na NBA?

São dúvidas que não acabam mais para o futuro. O Pelicans vai precisar se virar para segurar as pontas durante essa temporada e tomar decisões sem certeza absoluta lá na frente, só torcendo para que tudo acabe dando certo no fim das contas. Seria bom demais se Cousins contrariasse o histórico dos jogadores que sofreram com o tendão de Aquiles e voltasse exatamente no ponto em que estava. Não só porque acabaria ajudando uma franquia que já se vê navegando em um mar de incertezas, mas principalmente porque jogador nenhum merece ter a carreira prejudicada por lesão. Ainda mais alguém de tanto talento assim.

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