Lowry reagiu, mas o Raptors segue em estado de alerta

Luís Araújo

Quando Kyle Lowry deixou a quadra após a derrota do Toronto Raptors no primeiro jogo da série contra o Milwaukee Bucks, alguns traumas do passado foram ressuscitados. O armador já tinha amassado o aro algumas vezes ao longo da caminhada da equipe canadense rumo à final do Leste de 2016, então é natural que os quatro pontos e o aproveitamento de apenas dois arremessos certos em 11 tentados na primeira partida dos playoffs deste ano tenha colocado pulgas atrás da orelha dele e de muita gente.

É claro que não havia muito o que fazer em lances como esse a seguir, envolvendo Thon Maker. Mérito para a boa recuperação do pivô do Bucks para proteger a cesta depois do “pick and roll”. Foi o que levou o armador a dizer depois do jogo que toda vez que entrava no garrafão para atacar acabava dando de cara com braços dos jogadores adversários o cercando.

Mas não foi só isso. Dos nove arremessos errados de Lowry, seis foram de três pontos e com espaço, daqueles que poderiam muito bem ter entrado. “Ele teve algumas boas oportunidades de chute ao longo da partida, o que aconteceu foi simplesmente que ele errou”, avaliou o técnico Dwane Casey após o jogo.

“Eu estava preparado, mas não entreguei um bom trabalho”, reconheceu Lowry. “É tipo um déjà vu. Eu nunca coloco a culpa em ninguém além de mim. Eu preciso jogar melhor.”

Também não foi só Lowry. O time todo do Raptors foi engolido pela defesa do Bucks durante a segunda metade daquela primeira partida, anotando só 32 pontos e acertando 20% dos arremessos ao longo dos dois últimos quartos, contra 50% de aproveitamento antes do intervalo. Esses erros todos e os 11 desperdícios de posse de bola permitiram que o Bucks explorasse demais os contra-ataques, o que é quase uma sentença de morte mesmo diante de um adversário com peças tão atléticas e que sabe usar isso para fazer transições mortais.

Além disso tudo, o Raptors falhou miseravelmente na missão de impedir Giannis Antetokounmpo de entrar no garrafão e de induzi-lo aos chutes mais afastados. O grego até começou esse primeiro jogo mordendo a isca e tentando se criar nos buracos que surgiam para ele arremessar. Mas a partir do momento em que decidiu simplesmente passar por cima de quem estava pela frente, não havia nada que DeMarre Carroll ou quem mais aparecesse na cobertura pudesse fazer.

No lance abaixo, por exemplo, Antetokounmpo recebeu um bloqueio para se livrar de Carroll e partiu em velocidade para o garrafão sem se intimidar nem um pouco pela presença de Serge Ibaka.

Ficou evidente, portanto, que o time canadense deveria melhorar muita coisa se realmente estivesse disposto a evitar uma eliminação precoce que deixaria ainda mais grossa a lista de decepções em playoffs. Aí veio o Jogo 2 e o Raptors deu um jeito de ganhar. O trabalho em cima de Antetokounmpo foi melhor executado. A boa cobertura nas vezes em que ele entrou no garrafão e os dez chutes de fora da área pintada o levaram a acertar só nove das suas 24 finalizações.

Isso ajudou demais, sem dúvida. Mas quem também teve peso enorme nesta vitória foi Lowry, que conseguiu dar uma resposta muito positiva após a atuação pobre na partida anterior anotando 22 pontos, acertando seis dos 12 chutes que tentou.

“Eu só fui para a quadra e joguei”, minimizou Lowry. “Dei meus arremessos e fui agressivo. Meus companheiros de time me desafiaram a isso e eu acabei indo nove vezes para a linha de lance livre. Tive essa postura agressiva desde o começo e DeMar DeRozan encontrou um bom ritmo no segundo tempo. Então nós conseguimos balancear bem as coisas durante a noite.”

Um dos seis arremessos que Lowry acertou veio para matar a partida. Se no duelo anterior ele chegou a deixar de aproveitar algumas boas oportunidades de chute que apareceram, desta vez a coisa foi bem diferente. Não seria absurdo nenhum se essa bola não entrasse. Não dá para reclamar nem um pouco da marcação feita por Malcolm Brogdon, que resistiu bem ao bloqueio e conseguiu contestar em seguida. Mérito total para quem fez a cesta.

“A jogada era para o DeRozan”, contou Lowry após a vitória que igualou a série. “Ele é o nosso cara, mas o time do Bucks fez um bom trabalho em cima dele, que passou a bola para o Serge Ibaka, que depois passou para mim. Aí eu só quis ir para a minha região favorita da quadra. Sabia que tinham só cinco segundos no relógio de posse de bola, então eu coloquei na cabeça que precisava entrar na minha região e chutar. Eu trabalho meu chute todos os dias. Se errasse, eu continuaria feliz porque eu pelo menos tinha conseguido ir para o lugar onde desejava. Mas eu ia tentar fazer aquela bola.”

Além dos 22 pontos de Lowry, o Raptors contou com 23 de DeRozan, que acertou metade das 18 bolas que chutou. Quem também apareceu bem foi Serge Ibaka, com quatro tiros de três e 16 pontos. O time inteiro, aliás, quebrou o recorde de bolas de longa distância em playoffs com as 14 que converteu. Isso passa em parte por uma outra coisa que chamou a atenção na atuação da equipe: o fato de 24 das 37 cestas que fez terem contado com assistência, número marcante para quem tão pouco dependeu disso ao longo da temporada.

Mas na hora H, o time precisou das ações individuais de suas principais estrelas. Pouco antes do chute decisivo de Lowry, foi DeRozan quem partiu para cima do mesmo Brogdon e conseguiu colocar a bola dentro da cesta.

Do outro lado da quadra, as coisas também deram certo demais para o Raptors na reta final. Na jogada abaixo, Brogdon arremessou com total liberdade para virar o jogo depois que Patrick Patterson e DeRozan bateram cabeça e decidiram, os dois, marcar Antetokounmpo. É um erro que poderia ter custado caro demais, mas não custou.

E teve ainda esse arremesso de Matthew Dellavedova, certamente um dos mais livres que o australiano já deu em toda a sua carreira. Trata-se de uma arma eficiente nos arremessos em situação de “catch and shoot”, mas que acabou não funcionando desta vez.

Isso representa um problema enorme. Apesar do ressurgimento de Lowry, de DeRozan também ter acertado pelo menos metade dos arremessos que tentou, de ter passado mais e melhor a bola e de feito um trabalho mais eficiente na hora de tentar conter Antetokounpo, o Raptors ganhou esse segundo jogo em casa e igualou a série muito graças a uma sequência de acontecimentos na reta final que deram certo demais.

A sensação é que o Bucks é o melhor time deste começo de série, aquele que parece forçar mais o outro lado a buscar respostas para reagir no confronto. É esse o desafio do Raptors nos próximos dias.

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