“Não basta só jogar bem”

Luís Araújo

Nas duas primeiras partidas da decisão, o Cleveland Cavaliers até conseguiu se sustentar durante o primeiro tempo, mas viu o Golden State Warriors disparar no terceiro quarto e vencer com tranquilidade. Neste terceiro jogo, as coisas foram diferentes na volta do intervalo. LeBron James manteve o alto nível de sempre e Kyrie Irving pegou fogo como ainda não havia conseguido nesta série, fazendo até com que o fortíssimo sistema defensivo adversário começasse a bater cabeça nas rotações e permitisse alguns espaços sagrados para a finalização.

Pela primeira vez nesta final, o Cavs ficou na liderança do placar depois do quarto inicial. Na verdade, o time manteve-se à frente durante boa parte do segundo tempo e chegou até a dar pinta de que enfim sentiria o gosto da vitória na decisão. Era até fácil imaginar que o jogo estava nas mãos de LeBron e companhia depois deste arremesso certeiro de JR Smith, a pouco mais de três minutos do fim.

Só que essa acabou sendo a última vez que o Cavs pontuou no duelo. Depois disso, vieram 11 pontos consecutivos do Warriors. Dos quais sete foram produzidos por Kevin Durant. “Ele tomou conta do jogo”, comentou o técnico Steve Kerr. “Dá para notar que ele sabe que esse é o momento dele. Ele tem sido um jogador incrível há muito tempo e eu acho que ele sente que essa é a hora dele e o time dele. Acredito que ele está se divertindo como nunca em quadra.”

A cesta da virada veio a 45 segundos do fim, depois de Durant puxar um contra-ataque, parar um pouco antes da linha de três e subir para arremessar na frente de LeBron, que não conseguiu atrapalhar a finalização.

“Eu vi que ele estava posicionado atrás da linha de três. Eu treinei esse chute a minha vida inteira. Ver a bola entrar foi libertador”, desabafou Durant após a partida.

Além de Durant, um outro fator importante nesta corrida de 11 pontos do Warriors que virou o jogo no fim foi a seleção de arremessos do Cavs. O próprio técnico Tyronn Lue chegou a admitir depois do confronto que sua equipe poderia ter tomado melhores decisões quando teve a bola nas mãos nos minutos derradeiros.

“Fizemos bom trabalho atacando o garrafão durante o jogo e eles jogaram com uma formação baixa, sem nenhuma grande ameaça de tocos perto da cesta. Até tivemos algumas chances de arremessos que poderiam ter entrado, mas nós deveríamos ter sido mais agressivos e tentado entrar no garrafão”, observou o comandante do Cavs.

Um exemplo disso pode ser visto nesta infiltração de LeBron que acabou em um chute de três de Kyle Korver da zona morta. Não foi um arremesso ruim, muito pelo contrário. É o tipo de bola que poderia muito bem cair e que passa longe de ser algo considerado precipitado. Mas ao invés de ir para onde três defensores o pressionaram e o forçaram a fazer o passe, LeBron poderia ter agredido Draymond Green, que estava com cinco faltas, cortando pelo lado direito, onde sofreria menos com a cobertura. Afinal de contas, Klay Thompson teria de optar por largar Kyrie sozinho caso decidisse aparecer para ajudar.

Uma outra questão interessante que Lue teve de responder diz respeito à quantidade de tempo que seus dois principais cestinhas foram usados no jogo. LeBron e Kyrie anotaram, respectivamente, 38 e 39 pontos.  Mas ambos permaneceram mais de 44 minutos em quadra.

“Eu sabia que seria um jogo duro. E sabia que para a gente vencer eu teria de dar um descanso de pelo menos dois minutos para o LeBron no primeiro quarto, pois no segundo tempo ele talvez não pudesse ter descanso algum. Kyrie estava jogando tão bem, a partida estava ao nosso alcance, perdíamos a série por 2 a 0 e estávamos em casa. Então eu decidi manter os dois”, argumentou.

Do outro lado, Steve Kerr confessou que chegou a alertar seus jogadores que a dupla de astros do rival uma hora seria atrapalhada pelo cansaço. “Eu disse que eles iriam ficar cansados. Pedi para continuarem na frente deles e os forçarem a dar arremessos de longe se possível, pois o cansaço iria aparecer”, contou o técnico do Warriors.

“Do jeito que eles estavam jogando, sentimos que uma hora poderiam sofrer por jogar tanto no um contra um. Os dois foram ótimos, mas esse tipo de coisa exige demais do jogador. Quando há caras jogando 45 minutos e basicamente atacando no um contra um, você espera que eventualmente a conta disso apareça. Por algum tempo, não tive tanta certeza de que isso aconteceria. Eles estavam incríveis. Mas nós mantivemos nosso plano e a nossa defesa enfim funcionou”, completou Kerr.

LeBron até admitiu que chegou a sentir cansaço, mas se recusou a aceitar a ideia de que isso ajudou a decidir o jogo. Ao invés disso, preferiu reconhecer a grandeza e a força de um adversário que saiu de quadra com a vitória mesmo em uma partida na qual ele e Kyrie somaram 77 pontos.

“Nunca joguei contra um adversário com tanto poder de fogo na minha carreira. Já encarei alguns grandes times, mas não acho que cruzei com algum outro tão poderoso. Então não basta só jogar bem contra eles, é preciso ter uma apresentação absolutamente impecável. Porque eles vão encaixar pontos consecutivos, vão acertar arremessos e continuar fazendo jogadas”, avaliou.

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